Blue mess || Mamma Anne & Elliot
Ela sorriu, agraciada com a pergunta. Poucas pessoas se lembravam de fazê-la, ou sequer sabiam que deviam perguntar - Pode me chamar como quiser, baby Elliot, eu não me importo com pronomes. Sei que para muitos quando estou assim - enfatizou ao mostrar com amplos movimentos das mãos nodosas a maquiagem semi-feita e as roupas íntimas femininas - sou uma mulher feita, mas para outros sou apenas um homem de peruca. O que te deixar mais confortável, sim? Mamma não quer te confundir. - a compradora ouviu o garoto contar sobre outros colegas enquanto brincava com os tons azulados em suas pálpebras, soltando um suspiro de exclamação e levando a palma até o peito - Mas são unhas tão bonitas! E além de tudo, são suas, não é mesmo? O que eles tem que meter bedelho? Francamente, as pessoas só pioram quanto mais o tempo passa. Continue pintando as unhas, querido, e esse tom combina muito com você. - comentou sem se importar minimamente com o fato de que as unhas do rapaz estavam descascadas e por fazer. Com aquele tanto de trabalho em mente, quem iria se importar em tirar cutículas? Certamente não ela, e o maquiador parecia igualmente desinteressado, raspando o que restara do esmalte com as unhas. - Podemos pintar as unhas juntos qualquer dia desses, não acha? Eu adoraria!
Mamma escutava o menino falar com empolgação sobre as pessoas que conhecera no trabalho, e ali estava alguém que ela gostaria de conhecer melhor, com o sorriso tímido e olhos brilhantes. Pouquíssimas pessoas no mundo poderiam falar do emprego de forma tão feliz, e enxergar o lado bom das coisas ruins. A drag apreciava isso, e contou duas estrelinhas mentalmente para Elliot. Enquanto a história do menino prosseguia, Anne fazia os toques finais na sua sombra, passando um pouco de corretivo, base e pó em baixo dos olhos, onde havia caído um pouco de glitter. As palavras do maquiador apertaram seu coração. Forçado a sair de casa? Queria muito, muitíssimo perguntar sobre os motivos, embora suspeitasse quais fossem. Ela, como mãe, se entristecia com aquele tipo de coisa. Se fosse seu filho, estaria sempre debaixo dos seus braços, não importava o motivo. A tristeza dissipou-se, no entanto, assim que recebeu o elogio, que a fez rir abertamente como poucas pessoas faziam naquele ambiente - Mamma não era de cumprir muitos padrões - Ah, querido, muito obrigada! Fico feliz que ache isso sobre mim. Quando quiser ver outros tipos de arte, saiba que pode ir visitar meu cassino a qualquer época do ano, de cortesia! Será um prazer tê-lo comigo por quanto tempo quiser em Vegas. Prometo te mostrar tudo e um pouco mais.
Levantando-se então da cadeira, embora ainda faltassem os cílios pesados e o batom em sua maquiagem, pegou sua peruca após atravessar o cômodo com o roupão esvoaçando atrás de si, puxando um pente de um lugar qualquer e começando a ajeitar os fios negros em pequenos cachos já pré-modelados, realocando os grampos azuis até que eles prendessem uma pequena parte das mechas. Enquanto o fazia, os dedos hábeis enrolando e desenrolando a peça, continuava a falar - Está aqui para maquiar gueixas, não para me ouvir tagarelando durante minutos sem fim, não é mesmo? Por isso tenho mais do que a obrigação de retribuir em pé de igualdade, baby Elliot, é minha função de mãe, e não me custará nadinha. - assim que percebeu ter terminado seu trabalho na peruca, que não fora muito, ergueu os olhos castanhos para o companheiro e pediu educadamente, afofando os cachos largos - Poderia me ajudar a colocar essa coisa? Depois posso te mostrar como é ter quatro pares de cílios postiços sobre os olhos. - riu ela
A alegria de Mamma Anne era contagiante. Sua simpatia fazia Elliot sentir-se acolhido, como se estivesse com sua verdadeira mãe, apenas contando banalidades e tentando fazê-la sorrir. Se Eros era como um pai para ele, ela poderia ser sua mãe. Seria uma bela família. Ainda mais se incluíssem September como a irmãzinha.
“Oh, Vegas soa como algo vindo de um sonho. Me leva na sua mala quando voltar para casa?,” ele perguntou, em tom de súplica, sem parar de sorrir. “Eu tenho tanto a aprender... deuses, me leve como o seu aprendiz! Eu sou um garoto comportado. Juro que não te perturbarei. Bem, não muito.”
Ele assistiu atentamente enquanto ela arrumava a peruca, afofando cachos e domando fios rebeldes. Era fascinante ver alguém passar por um processo de transformação como aquele, e Elliot queria memorizar cada detalhe. Quando ela lhe pediu ajuda, foi até ela como um filhote de cachorro excessivamente animado. Lembrou-se de suas primeiras aulas de maquiagem, como cada pincel diferente era uma novidade.
Por sorte, não era assim tão inexperiente com perucas. Havia assistido September por tempo o bastante para pegar a técnica. Bem, talvez não. Quando pegou a peruca de Mamma Anne, não conseguiu esconder sua careta. Eram grampos demais e coisas demais. “Acho que preciso de um manual de instruções.”












