O tom na voz da irmã deixava muito claro para Preston que ela não mudaria de ideia em relação ao que acabara de decidir; mas também não pensou em contrariá-la pois sabia que carregar lembranças daqueles que há um tempo se foram já era doloroso o bastante. Livrar-se dos traços físicos seria apenas uma maneira de eliminar uma pequena porcentagem da dor, mas também suficiente para uma pessoa que já sofrera mais do que deveria.
O mais alto então assentiu ao desejo de Lenox, alcançando seu ombro com a mão esquerda em um movimento caloroso e sorriu. “Como quiser.” respondeu olhando-a mas em seguida retirou a mão do ombro da loira, abaixando-a até o conjunto de documentos para voltar a segurá-lo com as duas mãos.
A ideia de se tornar uma pessoa nova não parecia tão assustadora a Preston quanto ele achou que fosse, muito pelo contrário, parecia libertador. Talvez, pensou, fosse a coisa certa a se fazer. Deixar o passado para trás era uma tarefa difícil, mas não impossível.
O futuro de sua própria vida estava finalmente em suas mãos, agora apenas o cabia escolher como cursá-lo.
Continuou a passos rápidos a travessia e, ao chegar a calçada, perguntou parando com os pés firmes e olhando diretamente nos olhos da irmã: “Você já pensou em fazer alguma tatuagem, Nox?”.
Inclinou-se na direção do seu toque, confortada pela familiaridade. Preston era, de muitas maneiras, seu lar. A mão que ele havia pousado em seu ombro funcionava como um lembrete de que não estava sozinha naquela assustadora jornada. Onde quer que fossem a partir dali, caminhariam lado a lado. Aquela era a promessa que cada um de seus gestos silenciosos e mensagens nas entrelinhas ofereciam.
Tinha tanto medo... o esforço que fazia em parecer forte para o irmão era por vezes exaustivo, mas ela sempre havia sido a mais estoica dos dois, e não podia se permitir tornar-se o elo fraco agora. Peeves ainda conservava sua humanidade, e Nox preferia carregar o peso das preocupações sozinha do que o extirpá-lo dela. Se assim tivesse que ser para o resto da vida, essa seria uma responsabilidade sua.
Era estranho pensar em uma vida depois de toda a dor que haviam conhecido. Para Lenox, o futuro nada mais era do que um conjunto de infinitas oportunidades para que sofresse novamente, e ninguém poderia culpá-la por não estar muito animada para enfrentá-lo. Ela e Peeves eram adultos daquele momento em diante, mesmo que mal tivessem alcançado a idade legal para se tirar a carteira de motorista no Reino Unido. Não haveria ninguém para pagar suas contas, manter sua casa limpa ou suas coisas organizadas. Ninguém para os lembrar de fazer a lição de casa, para insistir que fizessem as tarefas domésticas ou para os proibir de tomar decisões insensatas.
O que, coincidentemente, mostrava-se algo bom naquele exato momento. A pergunta de Peeves a surpreendeu. Por vezes assustava-se com tamanha sintonia entre seus pensamentos e os dele. Desde que a ideia do processo de emancipação fora colocada em prática, Nox tinha um plano para si. Tão logo fosse senhora do próprio destino, ia cortar seu cabelo curto, tingi-lo de preto e cobrir a si mesma de tatuagens. Ia virar o pesadelo de todo e qualquer pai ou mãe de adolescente, já que agora não tinha os seus para desapontar. Daquela maneira planejava impor respeito, visto que o cabelo loiro e a aparência delicada a faziam parecer vulnerável a olhos hostis. “Eu quero fazer algumas.” Respondeu, erguendo o rosto suavemente para poder encará-lo. “Mas não sei por qual começar... A primeira deveria ser um marco. Algo que tivesse significado.”