Enquanto raspava com cuidado o feijão do fundo da panela, o pensamento descuidou: Será que gastei minha ficha de amor pra vida toda logo nos primeiros cem metros da corrida? Antes mesmo de definir se acredito nisso? Não quero riscar a panela e também não quero buscar outro talher. O que exatamente acontece nesses dias que me deixam tão sozinha? Todos meus amores são mais velozes que eu, e desejo estar em lugar nenhum logo depois de tentar ser múltipla. Se eu já deixar a panela de molho, limpo bem rápido depois de comer. Quem dera. O desequilíbrio químico do qual venho sofrendo não afeta apenas minha anatomia; minha fisiologia também não é mais a mesma. Recalculo tudo, de cabeça, mas não aparece resultado algum. A desgraçada matemática é incapaz de me ajudar a dar razão ao que aconteceu com você e, consequentemente, comigo. Choro um pouco depois de comer. Não que qualquer dessas coisas tenha relação com as outras, mas os nós no meu estômago parecem apenas piorar. Não acho que tenha volta pra mim. Muito provavelmente, estou arruinada de forma profunda e permanente. Nada que ninguém possa fazer. Ou saiba, ou queira. Não é cedo demais? Certamente, mas essas coisas não nos dão escolha. A verdadeira questão agora é quantos desses tantos anos ainda vou suportar. Se é que algum? Isso porque é inevitável me sentir quebrada depois de abruptamente abandonar planos tão certeiros. Eu não lido bem com isso. Também não sei não sentir falta das pessoas. Posso esconder, de modo que não as assuste ou preocupe, até certo ponto. Hoje passei dele. Mas consegui me concentrar e não estragar a panela. E vocês, pessoas, como conseguem? Não sentir tanta falta. Repito pra mim – ninguém pensa tanto assim em você, é só isso. Uma tentativa de acalmar. Veja, eu mesma, não é por mal. Mas só sei me responder: Por quê? A medianidade te relega a um espaço ordinário no mundo dos outros, e ter consciência dela é a maldição que te aprisiona eternamente entre seu lugar secundário e sua vontade de reverter esse quadro terminal. Vontade essa que sai pela culatra toda vez.
Eu nunca vou me perdoar por me permitir amar tanto vocês. Anuncio que tomo distância para não lhes tomar o ar, mas prometo não ir embora sem antes me despedir. Eu não deveria ter almoçado hoje. Talvez.