diz-me
o alcance
do céu
em ti
adentro
e eu
floresço-te.
"I'm Dorothy Gale from Kansas"

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@nuncaestivesteaqui
diz-me
o alcance
do céu
em ti
adentro
e eu
floresço-te.
hei-de falar-te do cheiro
da flor de tília, não sei se a adília
já o fez, hei-de contar-to uma
e outra vez
ao entardecer é um prazer
para o olfacto.
uma réstia de luz
lambe a terra
a silhueta do teu corpo
seduz em um horizonte
longínquo
e tão próximo
como se o diafragma
da memória se abrisse
na máxima amplitude
o véu da noite
cerce à pele
ainda o teu cheiro
sempre
o teu cheiro adentro
pode um coração
sofrer de paralisia
órfão de peito
os sentidos
esses
mesmo idos no tempo
são em vigília
quase vejo as folhas
da buganvília
que ficaram
no afã da manhã
a fulgir entre o leito.
se se quiser ver as coisas do coração
há que entender a anatomia primeira
das árvores
saber do subterrâneo a que as raízes
se entranham
alicerces de superfície são bafos
que nunca chegaram perto do ponto
de fusão no ventre da terra
se te sentires bafejado
não te fiques pela síncope
abisma-te.
abraça-me
como a música em ferida
tocando repetidas vezes
como a dança das borboletas
trespassadas de luz
abraça-me
por todos os dias perdidos
órfãos de palavras rentes
por todas horas de ausência
cursos de água desviados
abraça-me
no gole de seres apenas tu
entre o bulício da multidão.
percorro o alfabeto da carne
que das palavras o reverso é o meu tecto
leio na pele o rútilo
das estrelas que morreram faz tempo
e sobre o papel cinjo
as letras a filigrana e sangue
apenas visíveis à contraluz
quero o encandeamento
para além daquele que seduz
aquele que forja no âmago
o magnânimo
o verso que só a fenda do silêncio
reconhece seu
uma voz que se tece
subterrânea
é mais exímia que uma bala.
como a morte
a chuva apanha-nos
desprevenidos
apesar da meteorologia.
quantas vezes só
precisamos
de uma palavra
a que deitar a mão.
quando vieres deitar-te
comigo
traz o corpo da noite
para veres como
encadeia
o clarão da minha pele
por dentro da tua.
pego num caderno amarrotado
esquecido faz tempo na mochila
encontro-lhe folhas do outono
passado
escrevo tenho saudades de ter
um coração entre as mãos
disponível confiado ao meu cuidado
como o mais humano dos tesouros
havendo o risco de que deserte
e as minhas mãos
vazias manchadas de sangue.
possuo dentro de mim
um poema
como que inquilino
a renda por pagar
faz meses
esvazia-me as garrafas
de uísque
e aguardente velha
depois
toca violino
e declama odes
como se fosse
o camões em dó maior
escrevi-lhe
uma noite de despejo
a semana passada
respondeu-me
ao estilo do aleixo
um dia
ainda te fodes.
ter medo que a vida
nos embruteça
é esperar que a criança
cresça sem um arranhão
havemos de embater
inúmeras vezes
com o cadafalso do destino
cair desamparados
no chão ou para lá dele
basta um pé em falso
ou a pele de querer o coração
sobre um outro.
tive o coração
nas mãos
pulsava, o sangue
lava de um vulcão
de dentro da carne
o teu nome
em erupção.
O coração desfalece
é regenerado quando
um novo sopro aparece
além nas asas do bando
uma raiz cresce dentro
esta pele dá abrigo
ao fogo dessas viagens
o ser posto em perigo
nadar a partir das margens
o naufrágio ao centro.
o sol de encontro ao cortinado
o trinado dos pássaros as plantas
no peitoril o livro sobre a cama
uma canção arde a mente esvoaça
a esplanada na praça gente que
passa uns finos dedos de conversa
tudo sem pressa enquanto alguém
acende um cigarro os olhos poisam
logo ali me apaixono como quem
puxa uma cadeira para se juntar
à tarde que se alonga e permanece.
apegamo-nos ao costume das coisas
como os alcoólicos ao primeiro gole da manhã
como o sarro à pele que não conhece água
se nos tiram a cadeira do sítio
não sabemos onde nos devemos sentar
se consertam o buraco no caminho
continuamos a desviar-nos para não tropeçar
dependemos do uso gasto do tempo
ficamos à nora quando o acaso nos dribla.
na aldeia abrem-se os capôs
para arejar os carros
pelos campos irrompem
ameixoeiras
vestidas de noiva
desposadas
por abelhas e besouros
ampara-se a vida
no sangue a escorrer
para o alguidar
lavra-se cava-se a terra
põe-se o tacho em cima da mesa
come-se com as mãos
calejadas pela fome dos dias
há beleza na rudeza
o estado bruto das coisas
entra pelos olhos dentro
fulmina fere fecunda frutifica.