The Boat - W. Sakura
A música estava tocando. De vez em quando arrumava as luvas, o avental e a faixa na cabeça. Se olhou no espelho e se sentiu ridícula. Ainda estava tentando entender porque ficou naquela casa. Poderia ter simplesmente ido embora. Fazia isso enquanto passava a vassoura no chão com a força do ódio. E foi com essa força que esbarrou em uma das estantes com as coisas dos pais e um dos objetos caiu.
A velocidade que o barco de madeira caiu no chão era quase a da luz, mas nos olhos de Soojin foi bem em câmera lenta. Chegou a ver cada um dos pedacinhos espalharem pelo chão. Assim aprenderia a não reclamar da vida.
Quando terminou de juntar cada um dos pedaços nem se importou em trocar de roupa, só jogou tudo em uma bolsa e pegou a bicicleta. Sabia exatamente onde ir para arrumar aquele problema.
Adorava o tamanho da ilha e como podia fazer quase tudo de bicicleta, por isso não demorou muito para chegar no seu destino.
Passou pela porta da loja de penhores e falou um pouco alto para encontrar o dono. - Bom dia… Senhor Choi você está ai?
Sakura não era supersticioso mas ele sempre sentia um arrepio o espinhaço quando alguém aparecia naquela loja invocando a presença falecida do senhor Choi, que deve estar lá no céu olhando bem de perto todas as asneiras que Sakura faz com o dinheiro do caixa no fim do mês, agora que ele era o dono do próprio nariz e do próprio negócio, ex-negócio do senhor Choi.
Ele levantou do seu colchão atrás do balcão como uma chaminé de olhos arregalados, óculos de lente azul clara bem redondos pendurados no nariz e o cigarro de filtro amarelo pendurado na boca, soprando a fumaça como se ela fosse fumaça benzedeira pra espantar fantasmas do passado.
“Senhor Choi não trabalha mais aqui,” Sakura anunciou atrás da nuvem de fumaça, batendo as cinzas do cigarro no cinzeiro de louça em forma de vaca em cima do balcão. Ele ainda sentia um gosto estranho na boca pra anunciar que o senhor Choi morreu, então eufemismos eram a saída.
Fora que se era alguém perguntando pelo velho morto, então essa pessoa estava bem fora das notícias da ilha. “mas eu posso ajudar?”










