Parte 1 – O roubo do teu segredo
Um dos mais graves erros cometidos pelas pessoas é o de elas acharem que civilidade expressa unicamente ideias felizes. Há toda uma gama de comportamentos que podem expressar-se pela civilidade. Civilização afinal de contas é isso – agir com civilidade e não de forma hostil. Um dos lugares onde nos perdemos foi no movimento rousseauniano naturalista dos anos 60 em que as pessoas diziam “Por que então não dizer só aquilo que se pensa?”. Numa civilização há que haver alguns freios. Se seguíssemos cada impulso nosso, estaríamos nos matando uns aos outros.
Ninguém escolhe ser mal. Digo, ninguém de nós escolhe fazer o mal por conta própria. Excluo, é verdade, aqueles meninos que conhecemos que nascem com algo quebrado dentro deles. Eles não se importam em pisar em você. Em humilhar você. Em socar você. Em fazer você chorar. Excluo, porque são exceções. Exceções da nossa vida. Nossa vida humana. Nós nascemos iguais, tão genéricos quanto podemos ser, querendo fazer o bem. Quero dizer, talvez não verdadeiramente o bem, mas o mínimo para viver entre outros.
Mas quando alguém faz o mal? Ele ainda é uma boa pessoa? Ele trocou de lado? E se foi por acidente, ou um acaso, uma urgência que não pôde controlar? Se você encontrasse um segredo horrível, um segredo que te excitasse, que não pudesse revelar? Quem você seria?
Se você fosse eu, o que faria?
Estudo no terceiro ano do colégio católico Marista. Tenho dezessete anos. Perto do dia 15 de março do ano passado, voltava da aula de educação física. Voltava sozinho. Não sei, meu melhor amigo havia faltado naquele dia e eu não sou tão popular assim. Acho que é isso. Bom, naquele dia em particular voltei antes de todos para a sala. A aula de educação física era a última antes do recreio, assim que a maioria dos meus colegas ia direto para o bar da escola após a aula. Entrei e fui buscar minha carteira para comprar um pão de batata antes que acabasse. A Maíra sentava uma classe atrás da minha na coluna ao lado. Nunca falei com ela, quer dizer, nunca mais do que conversas que não importam. Ela é uma garota bonita, baixinha e com uma bunda redondinha. Tem peitos pequenos. Dentes muito brancos, se é que isso importa para alguém e cabelos castanhos cor de mel. A pele dela é um pouco amarelada, mas acho que ela não tem hepatite.
Naquele dia, não sei porquê cargas d'água olhei para a mochila dela. Vi um pequeno caderno vermelho púrpura saltando para fora. Não sei porquê. Não sei. Puxei o caderno. Meu coração saltou. Não era roubo. Só queria dar uma olhada. Aquilo me excitava. Me excitava de uma maneira estranha.
A porta se entreabriu. Virei-me de supetão para a parede. Joguei o caderno para baixo da minha cadeira e fingi amarrar os tênis. A Laura, minha colega magricela, e a Letícia, a gorda, entravam na sala. Não tinham visto nada. Recolhi o caderno e o pus dentro da minha mochila.
Até que o recreio acabou fiquei sentado na cadeira fingindo escutar Megadeth. Não que importasse a banda, mas é o que escutava. Qualquer um que já tenha tentado disfarçar um pau duro sabe o quão difícil pode ser. Me sentei com as pernas encolhidas para cima, aproveitando que ainda tinha tempo. Aquele caderno. Tinha algo ali. Algo que pertencia a outra pessoa. Algo íntimo que não deveria ser visto por mais ninguém. Era meu agora.
Tocou o sinal. Mais duas aulas de matemática e iria para casa.
Afinal, sou uma boa pessoa. Sei que sou. Não me julgue. Se você estivesse na mesma situação também roubaria o caderno vermelho púrpura da Maíra. Ela não tinha desconfiado de nada. A aula de matemática com o André já ia começar. Que merda. Não sabia o que fazer. Ficava balançando minha perna descontroladamente. Minhas mãos tremiam. Sentia meu estômago queimando de ansiedade. Queria ir logo para casa e ler o caderno.
O André me detestava ou eu detestava o André. Na aula da semana passada ele havia me mandado sair da sala e fora conversar comigo. “Conversar”. Ele me empurrou contra a parede e perguntou: – Qual é a tua?
Não respondi nada. Não sabia o que responder. Fiquei com medo. Queria chorar. Ele não ia me bater. Acho. O André dava boas aulas. Quer dizer, acho que elas eram boas, porque eu só levava esporro. Também não sei o porquê de ir tão mal. Não conversava com ninguém. Tentava de verdade prestar atenção. Ele me dava medo. Não medo, como de um assaltante ou algo assim. Um medo menor, mas, ainda assim, medo. Isso, claro, antes da semana passada. Ele me ameaçou como tantos outros garotos já tinham feito. Ele me bateria. Se ele não tivesse um emprego a perder me bateria.
A última aula também era de matemática. Tentei mostrar interesse, tentei mostrar que estava ali. Patético. A única coisa que despertei foi um olhar de desprezo. Tudo bem. Vou tentar fazer algo da vida que não envolva administrar, calcular, delegar. Vou tentar ser medíocre como o André espera que eu seja.
A Maíra sorriu para a Amanda, que senta na classe a frente dela. Elas são bem amigas. Foi um sorriso bonito. A Maíra não é a garota mais bonita, mas acho que ela está entre as mais. A Amanda é um caso à parte. Acho que sempre fui meio apaixonado por ela. Quer dizer, ela tem aquele estilo de meninão, de atrevida. Ela é corajosa. Ela também gostava de mim. Antes do Luan.
Na metade do segundo ano desisti dela. Quer dizer. Tentei fingir que não tinha raiva dela por ter escolhido outro cara. Numa das aulas de química a professora resolveu nos levar no laboratório de fotografia da Universidade da cidade. Na sala escura, enquanto todos prestavam atenção, a Amanda deitou a cabeça dela no meu ombro. Fui tão covarde. Fui muito covarde. Tirei a cabeça dela. Fiquei pensando no que o namorado dela faria comigo.
Acho que nunca me recuperei desse sentimento de derrota. É isso. Derrota. Chega. Hora de ir para casa. Acabou. Acabou a aula.
Volto com o ônibus que vai para a zona norte. Vão alguns colegas meus. Tem o Lucas e mais alguns. O Lucas é o cara que todos querem ser amigos. Já tentei ser amigo dele, mas ele não tem o mesmo interesse.
Meus pais só voltam para casa à noite. Tenho tempo. Me masturbo vendo um site que meu colega, o Maurício, falou de brincadeira, mas que é bem bom. Não tenho muito por fazer. Quer dizer, ninguém aos dezessete faz alguma coisa. Acho eu pelo menos.
Minha casa é bem simples, não tenho muita grana. Meu computador também não é dos melhores, mas dá para jogar alguns jogos bons.
Moro num condomínio germinado. Na seção de trás tenho duas vizinhas evangélicas, pero no mucho. Bruna Silveira é o nome de uma delas. Morena de pele bronzeada. Duas semanas atrás, enquanto passeava com meu cachorro, a Bruna saiu na sacada só de calcinha e camiseta. Não acreditei na minha sorte. A partir disso, comecei a olhar por entre as frestas da janela de madeira todas as tardes. Me masturbava sempre que ela aparecia. Algumas vezes ela e a prima dela, que morava lá, tomavam sol na garagem e eu aproveitava o momento.
Me deitei na cama e puxei o caderno vermelho púrpura. A letra era de uma menina. Tinha boa forma e era legível. Ela puxava um pouco o corte horizontal do “T”. Afora isso, não tinha nada de especial.
Eu me odeio. Me odeio. Me odeio. Odeio ele. ODEIO.
Não sei porquê faço isso. Não sei o porquê não podemos parar com isso. Não sei o que me deu. Não sei.
Se ninguém souber não é errado. Ninguém vai saber. É só curtição. Ele vai morar fora depois. Não tem problema.
Hoje, tivemos a casa só pra nós. Fodemos muito. Hahahah
Recebi uma ligação na terça-feira, depois das aulas. A Amanda tinha sido atropelada e morrera. O motorista havia fugido. Maíra vira tudo.