Saber a hora de ir embora
E ir embora.
Courage.
Xuebing Du
noise dept.
Cosmic Funnies

@theartofmadeline

shark vs the universe
trying on a metaphor

pixel skylines

ellievsbear
AnasAbdin

roma★
hello vonnie

izzy's playlists!

祝日 / Permanent Vacation
we're not kids anymore.
styofa doing anything
Cosimo Galluzzi
Keni
No title available
No title available
will byers stan first human second
seen from Kazakhstan

seen from Germany

seen from T1
seen from Germany
seen from Türkiye

seen from United States
seen from United Kingdom

seen from Malaysia
seen from Netherlands

seen from Türkiye
seen from United Kingdom
seen from Canada

seen from United States

seen from Egypt

seen from United States
seen from United Kingdom

seen from United States

seen from Canada
seen from Germany
seen from United States
@odesminimas
Saber a hora de ir embora
E ir embora.
Courage.
= CARTA A JOSÉ MÁRCIO PENIDO (CAIO FERNANDO ABREU)
A JOSÉ MÁRCIO PENIDO
Porto, 22 de dezembro de 1979
Zézim,
cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tua carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quieto e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portanto, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudointeligente.
Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará oscaminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vaflejo? não estou certo): “caminante, no hay camino, se hace camino al andar”.
Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz “Deus é minha última esperança”. Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.
Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T Suzuki, e isso freqüentemente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.
Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.
Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito! diz pra ti o que não gostas de ouvir! diz tudo”. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kaflka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci/conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.
Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.
E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda- a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porte brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.
Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.
Pausa.
Quanto a mim, te falava desses dias na praia. Pois olha, acordava às seis, sete da manhã, ia pra praia, corria uns quatro quilômetros, fazia exercícios, lá pelas dez voltava, ia cozinhar meu arroz. Comia, descansava um pouco, depois sentava e escrevia. Ficava exausto. Fiquei exausto. Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se Morangos Mofados, vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra de Strawberryfields forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma — real — é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio — porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas.
Aí tomei notas, muitas notas, pra outras coisas. A cabeça ferve. Que bom, Zézim, que bom, a coisa não morreu, e é só isso que eu quero, vou pedir demissão de todos os empregos pela vida afora quando sentir que isso, a literatura, que é só o que tenho, estiver sendo ameaçada — como estava, na Nova.
E li. Descobri que ADORO DALTON TREVISAN. Menino, fiquei dando gritos enquanto lia A faca no coração, tem uns contos incríveis, e tão absolutamente lapidados, reduzidos ao essencial cintilante, sobretudo um, chamado “Mulher em chamas”. Li quase todo o Ivan Ângelo, também gosto muito, principalmente de O verdadeiro filho da puta, mas aí o conto-título começou ame dar sono e parei. Mas ele tem um texto, ah se tem. E como. Mas o melhor que li nesses dias não foi ficção. Foi um pequeno artigo de Nirlando Beirão na última IstoÉ (do dia 19 de dezembro, please, leia), chamado “O recomeço do sonho”. Li várias vezes. Na primeira, chorei de pura emoção — porque ele reabilita todas as vivências que eu tive nesta década. Claro que ele fala de uma geração inteira, mas daí saquei, meu Deus, como sou típico, como sou estereótipo da minha geração. Termina com uma alegria total: reinstaurando o sonho. Ë lindo demais. É atrevido demais. É novo, sadio. Deu uma luz na minha cabeça, sabe quando a coisa te ilumina? Assim como se ele formulasse o que eu, confusamente, estava apenas tateando. Leia, me diga o que acha. Eu não me segurei e escrevi uma carta a ele dizendo isso. Não sou amigo dele, só conhecido, mas acho que a gente deve dizer.
Escrevendo, eu falo pra caralho, não é?
Aqui em casa tá bom. É sempre um grande astral, não adianta eu criticar. O astral ótimo deles independe da opinião que eu possa ter a respeito, não é fantástico? A casa tá meio em obras, Nair mandou construir uma espécie de jardim de inverno nos fundos, vai ligar com a sala. Hoje estava puta porque o Felipe não vai mais fazer vestibular: foi reprovado novamente no colegial. Minha irmã Cláudia ganhou uma Caloi 10 de Natal do noivo (Jorge, lembra?), e eu me apossei dela e hoje mesmo dei voltas incríveis pelo Menino Deus. Márcia tá bonita, mais adultinha, assim com um ar meio da Mila. Zaél cozinhando, hoje faz arroz com passas para o jantar.
Povos outros, nem vi. Soube que A comunidade está em cartaz ainda e tenho granas pra receber. Amanhã acho que vou lá.
Tô tão só, Zézim. Tão eu-eu-comigo, porque o meu eu com a família é meio de raspão. Tá bom assim, não tenho mais medo nenhum de nenhuma emoção ou fantasia minha, sabe como? Os dias de solidão total na praia foram principalmente sadios.
Ocê viu a Nova? Tá lá o seu Chico, tartamudeante, e uma foto muito engraçada de toda a redação — eu com cara de “não me comprometam, não tenho nada a ver com isso”. Dê uma olhada. Falar nisso, Juan passou por aqui, eu tava na praia, falou com Nair por telefone, estava descendo de um ônibus e subindo noutro. Deixou dito que volta dia três de janeiro ou fevereiro, Nair não lembra, pra ficar uns dias. Ficará? E nada acontecerá. Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que “desse certo”, caso contrário deixaria de escrever. Pode ser. Pequenas magias. Quando terminei Morangos mofados, escrevi embaixo, sem querer, “criação é coisa sagrada”. É mais ou menos o que diz o Chico no fim daquela matéria. É misterioso,
sagrado, maravilhoso.
Zézim, me dê notícias, muitas, e rápido. Eu não pensei que ia sentir tanta falta docê. Não sei quanto tempo ainda fico, mas vou ficando. Quero escrever mais, voltar à praia, fazer os documentos todos. Até pensei: mais adiante, quando já estivesse chegando a hora de eu voltar, você não queria vir? A gente faria o mesmo esquema de novo, voltaríamos juntos. A família te ama perdidamente, hoje pintaram até uns salseirinhos rápidos porque todo mundo queria ler a matéria do Chico ao mesmo tempo.
Let me take you down
cause I’m going to strawberryfields
nothing is real, and nothing to get hung about
strawberry fields forever
strawberry fields forever
strawberry fields forever
Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. Let me take you: I’m going to strawberry fields.
Me conta da Adélia.
E te cuida, por favor, te cuida bem. Qualquer poço mais escuro, disque 0512-33-41-97. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro. Citando Guilherme Arantes, pra terminar: “Eu quero te ver com saúde/sempre de bom humor/e de boa vontade”.
Um beijo do
Caio
(in O Melhor da década de 70, Caio Fernando Abreu, Editora Agir)
if you’re going to try, go all the
way.
otherwise, don’t even start.
if you’re going to try, go all the
way.
this could mean losing girlfriends,
wives, relatives, jobs and
maybe your mind.
go all the way.
it could mean not eating for 3 or 4 days.
it could mean freezing on a
park bench.
it could mean jail,
it could mean derision,
mockery,
isolation.
isolation is the gift,
all the others are a test of your
endurance, of
how much you really want to
do it.
and you’ll do it
despite rejection and the worst odds
and it will be better than
anything else
you can imagine.
if you’re going to try,
go all the way.
there is no other feeling like
that.
you will be alone with the gods
and the nights will flame with
fire.
do it, do it, do it.
do it.
all the way
all the way.
you will ride life straight to
perfect laughter, its
the only good fight
there is.
“Roll the Dice” by Charles Bukowski from What Matters Most Is How Well You Walk Through The Fire.
e te olho demoradamente,
querendo tanto te olhar demoradamente sempre.
sobre vencer o medo de
virar do avesso
para descobrir que
o avesso
é o meu lado certo
dia três
II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente
saudade, você
luz del abyss
comecei a ler Mulheres que correm com os lobos. ganhei o título no meu último aniversário, ainda em 2018. mas vou usar como desculpa a correria do dia a dia para justificar não tê-lo começado até hoje.
aí como estava sol e eu acordei mesmo bem cedo para correr, resolvi depois tomar um banho de mar e ler um livro. clichêzão assim porque estou mesmo precisada e clichê só é clichê porque funciona. levei o livro para meu banho de sal e nessa minha busca recente e incessante de ressignificar meus dias, o abri.
me dei conta já nas primeiras páginas que 1) por quê diabos eu não comecei esse livro antes? e 2) que belo presente, meu deus.
sou eu em definitivo uma mulher selvagem. eu sempre soube, vai. sem falsa modéstia. se você me conhecesse, também diria. mas enfim alguém escreveu sobre isso e eu li. e olha eu aqui então de novo escrevendo. quanto tempo tem que eu não encarava esse teclado? que eu não dedicava umas horas à minha tão familiar terapia de escrever.
e eu confesso que já retirei o livro da prateleira para ler pois foi mesmo ontem durante um almoço com amigos que um colega me disse, Você é uma ovelha no meio dos lobos, Anna. estavam ali, naquela mesa, oito homens e duas mulheres. as ovelhas. mal sabendo ele que os lobos éramos nós. e sendo eu o lobo que sempre fui, lhe disse que poderia ser eu qualquer coisa menos uma ovelha. talvez inclusive uma onça, uma mulher do fim do mundo. e eles todos, carneiros.
os lobos e também as mulheres tem percepção aguçada, uma elevada capacidade de devoção. são gregários por natureza, curiosos, resistentes e fortes. intuitivos, preocupados com a matilha. ferozes e corajosos.
e talvez por isso eu tenha sentado aqui. novamente na frente dessa tela, uma cerveja do lado e mil coisas a dizer. reconectar-me com meu lobo, com a minha mulher selvagem. com aquela que eu batalhei tanto para ser. Ei, olha onde você está.
minha inquietude tem me levado além. a determinação por ser cada vez melhor. ainda que por vezes eu tenha de disfarçar minha criatura, esconder minha cauda fabulosa sob vestidos e roupas sociais, andar cambaleante em saltos agulha, contorcendo minhas orelhas embaixo de cabelos bem arrumados. ainda que tenham pessoas me julgando ovelha, foram tantas as vezes que fugi da coleira, que me libertei da mordaça de homens pequenos. inúmeras as noites de uivos solitários, até aqui.
sempre existirá força, sempre existirá coragem.
serei eu sempre selvagem.
loba, até o fim.
até o abismo da luz de mim.
cinco do um de doismiledezesseis
Por María Gabriela Saldanha in Timeline do Facebook.
Se for pra ser um companheiro, ele tem que ser foda, mulher. Sabe por quê? Porque você é foda. Não aceite qualquer coisa. Não fique tentando acolher toda incapacidade afetiva que vê pela frente, criando quem ainda não tem condições de te entender, aceitar, enxergar. Já deu. Você está alguns passos à frente porque se forjou na dor. Sobreviventes são sempre mais sábios. O quase morrer de cada dia amadurece demais. Submeter-se por acreditar em falta de opção é um feminicídio lento. Pesquise-se, desfaça essas crenças limitantes marcadas na tua pele desde a primeira boneca, reveja essa autoimagem que te desencoraja, quebre esse padrão que consome a tua família desde bem antes da tua bisavó. Faça o que for necessário para se fortalecer, vire-se do avesso: terapia, caminho espiritual, dedicação profissional, militância... Você precisa ser sua, por mais que seja muito doloroso esse jogo doentio de nunca poder descansar emocionalmente no colo de alguém. Nós temos sido os melhores colos do mundo há muito tempo, o know-how é todo nosso, vamos vencer isso. Não desperdice a sua existência sagrada com quem não tem empatia. E estou falando em voz alta para que eu ouça também. Ainda erraremos, ainda insistiremos no que não vale a nossa lágrima, mas desde já estamos fundando um eixo para o qual possamos sempre voltar, um ninho para a nossa fênix. Precisamos nos dizer isso incansavelmente, até o fim das nossas vidas, porque estão conseguindo nos convencer do contrário há milênios.
elevadores
corridas de táxi
salas de espera e
longos banhos quentes
enfim
um tempo para
Mim
00:04
me ajeito do lado esquerdo da cama pra não sentir saudade
café
doses de autoajuda
escritas em sachês
de açúcar
trazidas depois de
longas refeições
solitárias
13:50
eu quis te pedir luas pra pensar sobre mas
não pedi
então como costumeiro de domingo
de comida
e preguiça
e chuva
eu soube
não pode ser senão
isso
olhos que brilham
estive lendo Leminski esses dias,
e hei de concordar que
distante
diz tanto
chorei dois dias quando você se foi,
sorri todos os outros por você ter ido.
quando o fim do romance
você é afetuosa
a pessoa te trata mei assim
porque ela é mei assim
mas você não pode ser mei assim que
nooossa como você mudou
não gosta mais de mim?
já era Cinelândia quando
lembrei!
Ele gostava de dizer
do meu jeito atrapalhado
de atravessar a rua
mulher que não olha pros lados,
ele dizia
com o sorriso torto.
sinal aberto,
parei,
olhei,
pra não ser mais
aquela que fui.
pra nunca mais atravessar
sem antes saber:
o outro
que vem
é louco?
porta de embarque
o voo decolaria em alguns minutos e
eu lia Bukowski no chão do aeroporto
quando em Derrota,
o velho dizia algo como
“conheci muitas mulheres
e em vez de pensar
quem está trepando com ela agora?
eu penso
nesse instante ela está aborrecendo terrivelmente
outro desgraçado”
eu pensei tristemente em você
e em como você estaria aborrencendo terrivelmente
outra coitada que
também gosta de cebola.
sem título
sei que ando deveras cansada
dessa vida tão cheia de pancada
mas,
antes de 'mais nada'
queria lhe tatuar no coração uma verdade crua.
eu sou mera impressão sua.
a realidade não passa de uma hipótese nua
e indefesa,
e somos mesmo lua ao sol de outrem.
também,
será sempre assim, vida incerteza
sou o que há em você de mim.
somos da vontade o que difere,
e a realidade sempre será o que se prefere acreditar
mas é tudo tanto todo desconfiar.
começamos errado correndo pra qualquer lado
colhendo sinais velados pra tornar rentável
o apostar.
é ai que vem o medo mudo com tanto tudo mesmo
pra tornar nulo
o sonhar.
é preciso não pensar pensar.
tudo é quanto se pode crer.
juro que somos bem iguais, pois somos filhos do engano no acerto.
do errar na mosca
do ganhar a aposta que nunca fizemos.
juro que amo dizer que tenho a virtude de ter todos esses defeitos.
e só isso já nos tem feito humanos demais.
e só isso já nos faz amar demais.
Almost Blue repetia pela terceira vez
e eu já não sabia como te contar
que tinha tido dois orgasmos e fumado todo seu haxixe
naquela noite ao som de Chet Baker
que tinha sonhado com você esse tempo todo
até aqui.