A frialdade do seu tecido era notável para a minha lamúria gerada pela sua ida. O funeral destinado a você foi, de todas formas imaginárias, um golpe pungente na minha débil mentalidade. Eu, uma criatura fraca e desinibida de expectativas, sonhava com tua epiderme friccionando na minha, todas as células estariam em transe momentâneo, mas agora as tuas - e futuramente as minhas - estão congeladas pelas mãos da morte.
Tão fúnebre fora sua partida, teu bilhete escrito com letras destemperadas, tocavam - com cordas podres - seu prelúdio ao falecimento. Essa corda macrobia jazia prensando a artéria carótida, fazendo com que cessasse o brilho dos teus olhos e vermelho cor de sangue da sua boca. Agora tudo é um melancólico azul, a neutralidade de sentimentos bonançosos aterroriza-me a espinha e eleva, eletricamente, os pêlos em meus poros.
Não ousarei relatar os pormenores de minhas noites sem tua companhia, pensamentos que eu evitava a viva força com o bom senso e a estabilidade emocional - cujo dois objetos são agora ineptos na minha condição cotidiana -, somente aguardo o dia no qual essa sofreguidão abandonará meus dias, e liberta-me-a das dores causada vazio da pessoa na qual provei meu amor.
Mas como sei da verdade - se ela estava escondida ou não todo esse tempo - sobre nossos dias, se do seu medonho final jamais captei uma pista de tu implorando auxílio? As temporadas de rancores atravessam os semestres de minha vida desde então, e o seu corpo flutua sobre o oceano da minha mente, refletindo sua personalidade veemente, e a cada pôr do sol, o breu marítimo engolia teu reflexo, tornando-o mais obsoleto nas minhas lembranças.
Vagando sobre as ruas pela madrugada, na sequência e dinâmica de passos típico de um ébrio, cultivei a discórdia no meu mundo individual depois de supor um possível roubo do seu defunto, já me era sabido quanto ao estado de decomposição, contudo, meu anseio era ter-te novamente em meus braços, na minha cama, e mesmo que as fibras musculares não sejam mais as mesmas, inda te acariciarei como parte da minha alma, e depois as núpcias funestes, juntar-se a ti o meu corpo sucumbido é meu maior desejo.
Agreguei boa parte das finanças que possuíamos, finanças nas quais serviram - em considerável quantia - como pequeno agrado aos funcionários do cemitério, para que pudesse adentrar o mesmo durante a madrugada fria e sóbria, sem que alguém tivesse a possibilidade de atormentar-me durante minha tarefa de resgatar aquela criatura cuja convivência fora-me tão benéfica.
Depois de pesadas escavações feitas sob a luz de uma lamparina, desabriguei da cova o caixão no qual possuía o acre e abafado odor seu, permaneci durante alguns minutos a contemplar tal figura, curiosamente murmurei palavras de afeto diante minha loucura e da negação de ter perdido algo irrecuperável. Levei o cadáver para os meus aposentos, e mesmo depois de todas as noites de cópulas medonhas e vergonhosas, creio que a hora de juntar-me a ti no mundo espiritual finalmente chegara.
Nosso jazigo caseiro já está devidamente preparado, empenhei dias e noites a base de drogas no qual mantiveram-me acordado e com vigor suficiente para realização de tal, do nosso antigo quarto fora feito, estrategicamente, uma vivenda de nossos corpos decadentes. Creio na provável reprovação por aqueles que tomarão conhecimento sobre esse episódio, porém, jamais saberão do ponto em que a loucura e a realidade são capazes de fazer com esse animal tão fraco chamado homem.