Apaixonada por suas autorias.
Obrigada, menina.

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Apaixonada por suas autorias.
Obrigada, menina.
Coração
Guardei-o, nas marcas da pele. Digo sobre amor.
O tecer do sentimento, a compreensão do sedimento, das mãos que cedem ao toque e do algo que permanece. Ao plano, sem maior intenção - apenas a verdade. Ao horizonte e pensamento vertical, sem maior choro - apenas o completo, o entregue, o sincero. Da dor da saudade dos sonhos da respiração, do peito e das constelações. Da costela que se estendia à costela outra, e se unia entre carnes e ossos pela poesia que sempre foi dorsal.
Guardei-o, nas noites extensas. Pretensas ao emocional.
Da insônia sem descanso, do mundo austero. Da fragilidade embutida nas batidas de um músculo silencioso.
Claudia Calado
Tão vaga quanto o aleatório celeste, observo em silêncio a mudança das cores e dos hábitos. Aurora. Das nuvens. Do eu. Princípio. Algo some entre os espaços, dos meus dedos e pensamentos e suposições. Algo surge, inexplicável, dos meus sonhos e ideais e inspirações. Não corro por medo, e se corresse de certo por medo seria. Codinome coragem, onde esconder? Onde forjar? Procuro canções que não sejam minhas; encontro letras e sons e melodias exteriores. Sinto-me também parte do que está fora. Do que aflora em outras calçadas, em outras vielas. A sensibilidade é um dom, e todo dom traz consigo uma carga de praga. Não preciso pagar para ver. De olhos fechados, tenho o mundo. Tenho a boca e os lábios e os paladares desconhecidos - todos. As minhas palavras alcançam o que é maior, anda que eu tão visivelmente me humilhe e destrua. Decompor - como os grandes nomes. Entregar-se - como os verdadeiros poetas. Há um marginal em mim que pincha muros e praças, vidraças públicas e estátuas em homenagem. Há um marginal em mim que se recolhe à casa somente às três, quase quatro, depois de muito álcool e drogas. Há um ancião entre minhas rugas que acusa minhas experiências de inóspitas, e aponta uma seta de duas pontas como direção. Como escolha. Recolher-se tem disso: filosofias e brotos. Jovens e cherokees. Dançar ao som de Einaudi ou de Engenheiros ou de uma garganta dos anos 70, dopada na gravação, expõe beleza. Eu giro arte, e as luzes estão apagadas. Há um ser em mim que clama, que chama, que inflama e anseia gargalhar uma esquizofrenia nas horas altas. Ninguém me ensinou a rir maníaca. Mas eu sei rir. Precipício.
Acho que acordei os vizinhos. Tudo por estar perdida. E, perdida, possuir todas as possibilidades.
Claudia Calado
Clau, vc poderia me explicar as cenas de um cão andaluz?
Um cão andaluz é aleatoriedade. É imagem, onirismo, não tem explicação. As imagens podem te despertar algo, mas esse algo será extremamente particular. Eu acho de uma beleza sem tamanho o início, quando a nuvem corta a lua e a navalha corta o olho, a sincronia do ato; ou a cena em que o homem tenta agarrar a mulher e cai ao chão e, ao se levantar, os braços estão presos por cordas e ele parece carregar mil tralhas tentando avançar. Ou quando o homem entrega um livro a outro homem, e então o outro homem tem uma arma e mata ao primeiro... Ah, gente, é lindo.
Você gostou, quando assistiu? O que sentiu? Dalí e Bañuel, juntos, é subjetividade incontestável.
69 postagens. 69 seguidores. 6 rascunhos. Vamos trabalhar nos rascunhos.
Uma compaixão redimensionada:
Tocou meu ombro e apontou as ondas, disse que cada espiral carregava consigo beleza e incompreensão. Levou a ponta dos dedos até meus cabelos, dedilhou-os com descuido e, amedrontado, fugiu a abraçar os próprios joelhos.
Sorri. Quase triste. Quis dizer que tudo bem, porque eu também ansiava o inalcançável. Calada, só quis. Fitei o mar, havia algo de harmonioso na ressaca.
Ele bateu a areia da calça, me entregou a metade restante do béque e levantou.
"Você tem uma cascata nessa cabeça, garota".
Deve ter sido um adeus.
A verdade é que não olhei suas pegadas.
Claudia Calado
1.
Registro, ao futuro, que acabo de perder para a desvantagem da criação elétrica (quedas de energia) um dos contos mais libertadores que, como pretensiosa escritora sem foco, já fui capaz de escrever.
2.
Registro que metade das frases ainda estão frescas em mente e que eu bem poderia re-escrevê-lo, mas suponho que tal tentativa gerasse simples ressentimento.
3.
Registro que era uma ficção baseada em sensações verídicas, e para posterior auto-esclarecimento foi o sentimento de tristeza e solidão da noite de 20 de Junho, apesar da companhia, do diálogo, do Ato Nacional, da orla, da rua, dos dois cigarros, uma tragado e outro esquecido, e do abrigo.
4.
Registro que fugas não são esconderijos. Que algumas vozes são altas demais. E meus ouvidos delicados.
Claudia Calado
V.,
eu assisti Tom Zé desmontar o próprio violão num programa de tv e dançar um samba só com a carcaça instrumental, como se aquela fosse uma dama leve demais. Isto foi na sexta, à noite. Nesse final de semana, meu rádio voltou a sintonizar a 107,7 fm, e as minhas manhãs tiveram um sol mais bonito. Um sol com jeito de camarada sambista.
Eu contemplei o nascer do dia por entre as frestas da minha janela, aliás. A culpa é do tal menino que me nina. A sensação é de re-encontro. E rio porque ele nem ao menos sabe sambar, mas escreve poema como quem ginga feito Gato.
V., é verdade. Eu só amo aos poetas malandros.
Quê mais seria a poesia se não pura malandragem? Sacanagem? Surrealismo leviano?
Afeto,
Claudia Calado
As músicas são leves, mas nós lemos Baudrillard. Às vezes, tudo parece ser de uma compreensão tão difícil. Questiono se seríamos isso, escravos conformados e satisfeitos com as próprias condições, mas a tua boca nunca tem as respostas das perguntas que levanto, que exponho e explano. O teu cigarro queima. Há chuva, lá fora, também. Meu primeiro pensamento, diante da tua previsível ausência de comentários, é que praticamos, eu e você, a exata contradição: o ócio aplicado, o tempo perdido. O prazer gasto por prazer, sem pretensão maior. Sem ganho além. Quero rir dos nossos corpos nus, largados numa cama mais forrada por livros do que por lençóis, mas meus lábios estão cansados, mas minha respiração é pausada, mas meus olhos são fechados. E eu consigo ver e sentir todo o nosso cenário - pobre, belo, uma paz perdida na cidade frenética -, ainda assim. A luz que incide sobre teu peito é antes refletida no espelho, a certeza é que se eu abrir as pestanas assistirei a mais crua poesia visual - tua pele, teu sol. Sorrio, você beija meus cílios. Meu lirismo tem o ímpeto de argumentar e atingir até mesmo Copérnico, e a constatação eu deixo guardada só para mim. Meu eixo parte do teu eixo, e as feições em teu rosto são mais antigas do que ameaço supor. A boca frouxa, tua, permanece em meus olhos. Você tem preguiça de até mesmo tragar o cigarro, a fumaça sobe mais lenta e então diz, “barato, garota, tudo barato demais”. Limito-me a puxar teu rosto até que descanse no colo acima dos meus seios, e tua mão pende ao lado da minha cintura com a brasa da bituca voltada para baixo. A nossa inconsequência sempre teve o poder de provocar incêndios e tremores, mas a situação nunca se cumpre. Provavelmente é a razão de prosseguirmos tão pouco precavidos. A voz que nos envolve é de um cantor cujo nome desconheço, mas aprecio; a voz que nos envolve é de um cantor teu, do qual não busco um único dado, do qual não jogo a letra da música no Google, pelo simples prazer de te procurar a cada vez que o quiser ouvir. Eu sei, o murmúrio suplica “stay, stay even”. O nosso pedido cabe no silêncio e nas carícias dos meus dedos entre teus cachos, nuca, sétima vértebra. Sinto teus pulmões esvaziarem conforme inspiro meu ar. E teu coração bate num ritmo que se encaixaria dentro das minhas veias. Quero te pedir para cerrar as cortinas e assistir a trilogia dos Wachowski comigo, numa única sequência, ou então que me escreva um poema sobre Morpheus e sua papoula. Mas você sussurra, “eu também acho que os simulacros estão mais nos olhos que veem do que no objeto que é visto”. É um instante só. Vacilo com a mão em tua pele, conto as estrelas que você carrega nas costas. E digo, sem explicação, “nosso universo nunca foi paralelo, mas sim sobreposto”. Acho que você entende porque move o antebraço até puxar um trago do cigarro, e percebo o calor e teu cuidado para não me queimar, embora as cinzas caiam e eu sinta e não reclame, e em algum segundo posterior você simplesmente comente, como se constatasse um fiapo de tecido entre meus cabelos, “vou te roubar O Anjo de Estuque”.
Claudia Calado
Já devem ter te dito isso um zilhão de vezes, mas, que contraditório é parte do teu nome ser "Calado" e a tua alma ter tanto à dizer... Seus escritos são lindos. Meus pouco valiosos parabéns.
P., você é um encanto. As suas palavras, a sua pessoa. Eu fico é realmente contente. "Tudo o que cala tem mais a dizer". A gente sempre tem. Obrigada, abraço.
Por um zen
Bonita,
eu leio sobre os naga sadhus e ouço First Aid Kit. Viajo na brisa da erva que sai da ponta entre meus dedos, como aqueles velhos viajam no haxixe indiano, e por instantes sorrio. Fecho os olhos: sinto mergulhar a minha própria impureza na impureza do Ganges, a fim de tornar a alma mais limpa - e torno-a, entorno-a de mim a Shiva, como em oferenda sinto erguer os braços, gritar na água aos céus, “har har mahadev!”.
Eu tenho cinzas no corpo como os sadhus, bonita, eu tenho os cabelos sujos e a barba por fazer. Ando nu nestes metros, feliz com a liberdade de mim para comigo. Meu apartamento poderia ser uma caverna, um exílio. Não reclamaria, estaria tudo bem. Um retiro. Alguns amigos dizem que estou insano, diante deles meu sorriso torna-se gargalhada. Har har mahadev! Que se animem à minha animação. Que se aninhem em meu ninho. Ou que se fodam, com prazer e gemidos. Ainda sou uma gargalhada cortando o ar. Repito que vou orar por todos e equilibrar o mundo com mantras, na reclusão em uma floresta no Nepal. Então deixam-me em paz com minhas drogas, minhas teologias pobres, meus livros desgastados.
Bonita, eu leio sobre os naga sadhus e as estradas, oceanos, rotas aéreas clamam meu nome: e meu nome também clama por elas, clama pela natureza, clama por ser outro nome, por abandonar este de nascença e conceber novo espírito. A velha história entre verbo e carne, entre palavra e vida. Signo, significado, significante: eu comeria as faces da semiótica e instalaria o caos em Peirce, porque não mais saberia se separar coisa de outra: ser, símbolo, emissão. Arriscaria que é este o segundo [tempo] maior: a inseparabilidade do universo, o entendimento da união, da unidade plural.
As montanhas têm o cheiro de homens suados, flores amarelas, poeira e meditação. A paisagem é surreal, é sublime, eu posso ver. E meus olhos ainda são os mesmos fechados do início deste relato.
I’d sit there and look at the deserted lakes and I’d sing
and every once in a while I’d sing a song for you.
Sim, sim, bonita. Eu vou pintar o peito, envolver o pescoço com rudrakshas, praticar sashtang dandthvad, tragar haxixe, cantar os oms. E vou pensar em teu nome e em um nome outro que eu também vou te dar.
Ninguém ouvirá falar em mim, nem mesmo você, mas plantarei flores amarelas da Índia ao Nepal.
E estas flores salvarão o futuro.
Claudia Calado
Já não oramos por salvação. A gargalhada que acolhe a literatura surrealista - ideológica e dicotômica, distante e interior - é solta por nossas bocas. São nossas palavras. São nossos atos. São nossos nós. As mãos que tremem diante da tela e riscam os riscos, inconstantes e atordoados e finos, têm as tuas digitais e a cor da minha pele pálida. A tinta é sangue, é cuspe, é suor, é um tanto de pétalas amassadas e asas apanhadas na caminhada e lama, chuva borrada, crayon de criança, lágrima de mãe. Não corremos da explosão, e se corremos explodimos na corrida. Exato: inexatidão. Exato: Minimalismo e megalomania em um só estado. Rapaz, o estrago também é arte.
Claudia Calado
Doada. Doída. E doida.
Alta madrugada e ouço as preces de minha própria pele, que soa e escoa todo o cansaço de uma vida incolor. Há três horas, perdi a pasta onde soco (compreenda a urgência do verbo, amor) minhas folhas rabiscadas às pressas e quase não me caibo em aperreio e loucura. Há vinte minutos, revirei as gavetas, bagunça, há uma hora, retirei o colchão da cama e olhei sob sua espuma, rasguei, há cinco segundos, bati as portas do armário, estrondo, há três minutos, atirei os sapatos à qualquer canto, desmantelo. Desencaixo dos trilhos quando longe de minhas palavras confusas, como quem sofre abstinência de remédio tarja preta, e é bem isto o que me define. Sou dependente dessa história de fazer arte, de brincar inventando mundos, dores, odores, amores, e mentir. Artista tudo pode. Menos ficar sem sua criação. É pecado, é cárcere, é cela. As grades até são invisíveis, menino, mas a claustrofobia ataca e prova o quão pequena é esta prisão. Esta ausência. Aperta, sufoca, quase engasgo com minha própria goela. Faço-me naquelas frases, naqueles parágrafos, e definho sempre que estou a mais metros de distância do que o necessário. Esse sempre foi o ponto, não? Distância. Sofro de separação aguda. Aguda, aguda, note o desespero! O que resta de mim sem folhas e letras? Apenas a solidão de quem anda de um lado para o outro do apartamento sem querer estancar os pés descalços, de quem deixa o chá esfriar, de quem quebra a xícara ao notar a temperatura do líquido, de quem chora ao ver a porcelana partida. Arranco as chaves do cesto onde as jogo quando entro em casa, mas esqueço de trancar a porta. Que importa? Meu tesouro não está lá. Meus textos não estão lá. Minha vida, vida morta, vida perdida, vida velha, mas vida, não está lá. Com suor, marco minhas pegadas pelos corredores. Deixo as pistas, a trilha, do trajeto que me leva até às escadas, desce os lances, pula os degraus. Do caminho alienado que cruza a portaria que nunca tem porteiro acordado, atravessa a rua sem olhar para os lados, chega ao calçadão desbotado pelo tempo, pisa na areia da praia e ajoelha-se, ajoelho-me, à beira mar. Vista turva de choro, encaro o vem e vai, o vai e vem, o nunca-fica do oceano. Numa dessas vindas, traz de volta meu peito escrito e rabiscado? Numa dessas idas, leva embora essa minha insanidade de usar tinta de caneta para me espalhar pelos quatro cantos e depois lastimar minha partida ao acaso? Inalo cheiro de maresia e exalo aperto no coração. Ninguém vê minha cena triste, e me permito largar o corpo no frio da terra úmida pelo mar que eu insisto estar excessivamente molhada por culpa de minhas lágrimas. Sem testemunhas. Tenho jeito não.
Claudia Calado
Crava o punhal no peito os dentes no corpo o nariz na pele. Desencava a rasa cova da rosa morta pelo antigo amor. E ressuscita o vai-e-vem incerto do palpitar-veneno que jorra sangue nas veias velhas? Ainda pulsa o romântico (lascivo).
Claudia Calado