Dez de outubro de mil novecentos e noventa e seis.
Sempre fico inquieto na lua cheia. Não consigo dormir enquanto não amanhece; é doloroso imaginar que meu tio está passando por uma transformação que, algum dia, pode matá-lo. Principalmente agora que aquela mulher chegou. Dumbledore sabia das habilidades dele como docente, e qualquer pessoa sabe, sinceramente, se olhar além do estigma de lobisomem. Mas eu sei que ela não pretende olhar.
Temo pelo futuro dele. Temo pelo meu, por mais ridículo que seja. Hogwarts sempre foi um segundo lar para mim, mas agora as masmorras parecem mais frias que o normal. Ninguém mais conversa direito, ou talvez só não conversem direito comigo. Não me surpreenderia.
Deixando de lado toda a autocomiseração, eu realmente estou preocupado com as pessoas à minha volta. Meu irmão, que é grifinório demais para não acabar machucado nesse desastre; Mitre, que é— simplesmente o Mitre. Ele é esperto, mas sei que ele está perto de explodir com tudo que anda acontecendo. Todos estão, de alguma forma. Só queria falar com ele, de verdade.
Talvez eu devesse emprestar um pouco da coragem da minha família e atravessar as masmorras pra encontrar ele. É o plano perfeito, exceto por dois pequenos problemas: primeiro, a Umbridge com certeza descobriria, e segundo, é um pouco esquisito ir atrás de alguém. Quer dizer, o que na minha vida não é esquisito? Talvez eu já devesse ter me acostumado.
Só quero ir para casa, sinceramente. Ouvir todos os meus discos, ver minha família reunida, conversar com eles direito. Será que a Daisy me daria algum conselho? Eu definitivamente preciso. Da última vez que alimentei uma paixonite (ou deixei meu ego ser alimentado) acabei me sentindo a pior pessoa do mundo. Quer dizer, ele me assegurou de que não estava sob efeito de amortentia, mas eu deveria ter sabido. Eu deveria ter arrastado ele até a Pomfrey antes. (Será que a Pomfrey tem alguma informação sobre meu tio?)
Fica a ideia: talvez relacionamentos sejam uma furada. Ou talvez quinze anos sejam muito pouco tempo pra se meter em relacionamentos. Ou talvez relacionamentos comigo sejam uma furada. Quer dizer, meu primeiro beijo literalmente se transferiu quando o ano letivo começou. Isso é uma prova bem forte contra mim.
Outra ideia: talvez eu devesse parar de pensar tanto nessas coisas. Escrever sobre romance? Divertidíssimo. Viver um? Assustador, no mínimo. Eu não quero sujeitar ninguém a mim mesmo, porque já basta meu diário. Talvez seja até útil toda essa nova rigidez de Hogwarts. Se bem que aquele dito popular sobre distância fazer o coração gostar mais está se provando real. Querido Mitre, sai da minha cabeça. Estou tentando lamentar a lua cheia em paz.
Definitivamente preciso falar com a Daisy. E ela vai rir da minha cara. Eu também riria. Ou talvez eu fale com a Becky, já que ela parece dominar esse negócio de sofrer por sonserinos. Exceto que eu, Oliver Fleamont Potter, não estou sofrendo. Que horror. Estou só... levemente incomodado. É isso.
A verdade é que não quero pensar sobre isso. Nem escrever sobre isso. Nem existir a menos de vinte metros de distância dele. EXCETO QUE SIM, EU QUERO. E isso me irrita. E já estabelecemos aqui que as coisas que me irritam na verdade me assustam. Talvez por isso eu esteja sempre irritado ultimamente.
A noite será longa. São só duas da manhã e eu já consegui ficar preocupado com meio mundo. É melhor encerrar antes que me preocupe com a outra metade.