Bartolomé não costumava compreender bem exposições de fotografia. Não porque lhe faltasse sensibilidade, mas porque não era sua linguagem. Ele pensava em som, em ritmo, em pausas. A visão subjetiva lhe deixava um pouco confuso, mas havia algo naquela galeria que o mantinha atento, caminhando devagar entre as imagens, como se estivesse escutando uma música muito baixa.Talvez fosse o tema, talvez fosse a maneira como as fotografias se recusavam a ser grandiosas, insistindo em pequenos instantes de ternura em meio ao caos. Ou talvez - e Bart sabia que isso era mais provável - fosse Oliver ao seu lado, inclinando-se levemente para comentar uma escolha de enquadramento, um contraste de sombras, uma decisão quase invisível que mudava tudo. Bart gostava de ouvir Oliver falar sobre fotografia. Não apenas pela técnica, mas pela forma como ele misturava o profissional ao pessoal, como se cada imagem fosse também uma confissão. Às vezes, o músico pouco olhava para a foto, apenas para o perfil concentrado de Oliver, para a maneira como seus olhos se acendiam ao reconhecer intenção onde outros veriam acaso.
Na caminhada após a exposição, o silêncio parecia propício para o passeio que tinham feito. Quando Oliver finalmente quebrou a inércia, a voz suave na rua quase vazia, Bart não respondeu de imediato. Levou alguns segundos para organizar seus pensamentos. - The exhibition reminded me of the first time we met. When you came to the shop to take those pictures for the Daily Prophet. - disse por fim, a voz baixa, quase introspectiva, mas com claro contentamento. - Photography was never my thing, as you know, but the way you saw the place today and the way you framed the shop back then… gave it a different kind of light. I don’t think I’d ever seen it like that before. - o mais velho já havia verbalizado isso para Oliver anteriormente, mas era inevitável repetir a afeição naquele momento. Aquele, porém, não era o único sentimento que havia se repetido naquela noite.
O músico havia tentado manter uma distância respeitosa em todos os novos encontros que tiveram até agora, consciente demais de cada gesto, de cada possibilidade. Permitiu-se, porém, durante a maior parte da noite, aproximar-se o suficiente para que Oliver o percebesse ali, fisicamente, sem ultrapassar um limite que nenhum dos dois havia nomeado, mas ambos reconheciam. Assim, Bartolomé sentiu o pensamento antigo ressurgir com uma clareza quase dolorosa, o mesmo de quando conheceu o mais novo. Lembrou-se de como, entre cliques e ideias, o músico se pegou desejando sentir a pele de Oliver sob suas mãos, quase que para confirmar que ele era real. A sensação era a mesma agora. O desejo simples. Contido. Persistente. - I also remembered how much I wanted to touch you that day. To hold your hand, to see if your skin was as soft as it looked, to feel your face grow warm against my palm. - sorriu sem encontrar os olhos, mas interessada em mirar as mãos deles lado a lado, o espaço entre eles reduzido a algo mínimo, permitindo que Bart acariciasse as costas da mão do outro com o dorso de seus dedos. - I feel the same way right now. - admitiu por fim, sentindo o calor de Oliver ao seu lado, sabendo que não precisava dizer mais nada para que aquilo fosse entendido.
A voz de Bartolomé narrava os pensamentos de Oliver sobre o dia que tinham se conhecido. Sabia que tinham se passado poucos meses, porém parecia muito mais. Ele estava muito nervoso ao entrar na loja, como normalmente costuma - ou costumava - ficar em situações novas. O homem tinha lhe despertado interesse imediato, com seu jeito despreocupado e livre de ser, tão diferente de si. Ainda tinha os negativos daquelas fotos, tinham sido os únicos a escapar do seu luto e da sua raiva depois do término. Uma parte de Oliver se recusou a imacular qualquer recordação do momento que tinha alterado a trajetória da sua vida. — You're too humble, my love. — Respondeu, sentindo o rosto quente com os elogios e deixando o carinho sangrar nas palavras. — I remember that day. — disse, com suavidade. — You kept pretending not to notice me walking around, but you were listening to every shutter click. — um meio sorriso, quase cúmplice. — I think that was the first time I realized you hear places before you see them.
Oliver sentiu o peito se contrair de um jeito doce e perigoso com o toque das mãos. Não se afastou. Ao contrário: deixou que Bart o tocasse, o gesto pequeno enviando um arrepio lento pelo braço inteiro. Ele olhou para as mãos por um segundo, depois para Bart, sem pressa. — I feel it now as well. — disse, firme, honesto. — The wanting. The quiet kind. — respirou fundo. — And I like that we’re not rushing it. That it’s allowed to just… be here. — Apesar disso, a decisão já tinha sido tomada pelo corpo e pelo coração, não pela mente. Ollie não achava que seria capaz de tolerar mais um segundo sem colocar as mãos no homem a sua frente. — Would you like to come in and have a nightcap? — Perguntou, tímido pois certamente Bart perceberia as suas intenções. A rua estava silenciosa, com a exceção de poucos noitívagos e as luzes do seu prédio estavam quase todas apagadas. Seria muito fácil estender as mãos e tocá-lo, roubar um beijo pelo qual estava desesperado, mas já tinha esperado até ali. Poderia esperar um pouco mais pela privacidade e o luxo de tê-lo como quisesse.











