Felix tinha todo a permissão do mundo para recostar na cadeira de jantar e passar o tempo inteiro no celular. Os pais bem sabiam da exigência social de um adolescente ao colégio, ainda mais um que tinha feito tanto sucesso. Conversas para atualizar, eventos para marcar, contatos para reaver. E eles não podiam fazer nada. Não quando o mais velho tinha entrado de cabeça na mudança de país, sendo mais do que uma excelente ajuda e aliado em todo o processo. Porém, para a felicidade dos Murray, o sorriso emplastrado no rosto juvenil era genuíno. Era feliz. Brincando com os filhos da família vizinha, entrando na brincadeira dos adultos e... Por Deus, parecia até que era mais amigo do pai do que o próprio progenitor.
E ao fim, estava o abençoado adolescente tirando os pratos da mesa e enchendo a máquina de lavar. Claro, deixando o pior para a mãe alegando, com mãos no ar e inocência no rosto, que ela era infinitamente melhor nessas tarefas do que ele. Afinal, alguns pestinhas precisam queimar todo o açúcar do sangue.
Uma hora depois e Felix carregava a carcaça de duas crianças embaixo dos braços, um de cada lado. Risadas sem fôlego e corpos largados, mãos quase encostando no chão. A sorte é que a mãe tinha preparado a cama de baixo para a visita. Felix pousou o irmão na de cima, o amigo na de baixo; arrancou os sapatos, passou o lenço umedecido na cara dos dois e... Aprovou o resultado. Saindo do quarto ao fechar as cortinas e desligar a luz.
"Não me viu?" A voz saiu meio sem fôlego, bem encontrão que tirou seu ar. Felix segurava o cotovelo dela para estabilizar e sorria. Colocava o ângulo na boca que não acreditava em nada do que era dito. Seus olhos passaram dela para o teto, a luz acesa, depois arqueou a sobrancelha quando ajustou o ângulo da cabeça. Vários centímetros abaixo. "Tem certeza que ainda é a maior nerd do colégio? Se bem que, não ver postes na frente do nariz é uma coisa bem nerd, hm?" Provocou dando um aperto carinho no cotovelo, sacudindo-a de leve para conseguir um sorriso igual da garota. Felix a soltou para sair do caminho, ocupando o outro lado do corredor. "Acabei de colocá-los na cama. Mandei uma mensagem pra minha mãe avisando que vão ficar por aqui mesmo. Provavelmente serei a pegar a roupa dele amanhã de manhã, então pede para sua já deixar separado. Janela da cozinha, como sempre." Do mesmo jeito que surrupiava os cookies e bolinhos da vizinha, aquele meio de 'acesso' era extrapolado para outras atividades.
"Eu estava indo pro quarto... Quer vir junto?" Apontou a porta com o polegar por cima do ombro. "Se ficarmos na sala, seremos obrigados a arrumar a bagunça e eu não quero." A dancinha foi engraçada, sem sair do lugar, incitando a escolha mais fácil daquele empasse. Felix revirou os olhos e terminou pelos depois, pegando a mão alheia e a rebocando para o local indicado. "Ignore as caixas. Trouxemos essa semana do depósito e ainda não tive tempo de arrumar." O quarto estava pronto para a vivência. Roupas nos cabides e gavetas, tênis alinhados na sapateira (obra da mãe) e uma prateleira parcialmente preenchida. Embaixo da escrivaninha, nos cantos, empilhadas e usadas como superfície de guarda. Era uma bagunça organizada. "São os troféus e medalhas, livros, decorações. Sabe, tudo o que não fazia sentido levar para a Austrália. Mas eu bem que deveria focar naquele canto. Tô massacrando minhas costas fazendo tudo lá embaixo, na mesa da cozinha." Porque, claro, tudo no quarto era adaptado para o gigante da família Murray. Felix sentou na beirada da cama, já ocupando as mãos com a onipresente bola de basquete.