Ana, caiu uma tempestade por aqui esses dias, parecia que o mundo ia acabar, e eu fiquei rezando para que ela não chegasse até você. Lembrei do seu medo de chuva quando vi na TV que várias pessoas estão desabrigadas e que duas morreram. Ainda me pergunto se você está bem. Pensei em te ligar para te lembrar do que deixou para trás, e perguntar o motivo de termos mudado tanto. Sabe Ana, as coisas por aqui não andam bem, minhas dores de cabeça estão mais frequentes, o frio parece ser mais intenso e a minha mãe ligou dizendo que o meu avô vive perguntando por mim. Você não sabe, mas ele tem alzheimer, e ainda lembra o meu nome. E eu tenho medo de voltar, Ana. Tenho medo porque ele já não se lembra mais da minha avó, mas se lembra de mim, e você não. Eu só queria que ele conseguisse se lembrar de quem ama e você também. Queria um silêncio que gritasse menos e que você não me mudasse tanto, e pelo menos uma vez, conseguir sair ileso dessa guerra de querer ser alguém para você antes de tentar ser alguém para mim. Eu fico vendo as pessoas indo e vindo na esperança de que você apareça mas você não vem. Tem uma nova vida, um novo emprego… E eu continuo morando só e dando nome as minhas fraquezas. “Ana” até de trás pra frente. Com amor e ainda com medo, Bruno.
Letícia Silva - Deprimentes.













