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suptober 2022 - day 17 - muse
Dean and Jensen, an angel on your shoulder
Notas de um poeta de boteco 86º
Ano passado eu fiz trinta anos, de certa forma é pouca idade, mas não consigo, não sinto que já vivi demais, mesmo sabendo que é pouco tempo. Olho para trás e vejo um amontoado de folhas rabiscadas, rasuradas, rasgadas, apagadas e até queimadas. Páginas que contam a história de um homem confuso, perdido em pensamentos que sempre achou que poderia dirigir sua vida. Mas o improviso sempre esteve presente, nada do que era pensado e planejado, saia do jeito que se esperava, mas no fim, tudo dava certo não é mesmo? Afinal de contas, olha aonde ele chegou, que apesar de ele considerar ser em lugar nenhum. Ele chegou aonde deveria estar. Derramando sempre seus pensamentos sobre a imensidão de um papel, isolado em seu quarto, sonhando alto sem pensar que as vezes sonhar demais faz com que a gente não veja mais graça na vida, pois nossos pensamentos são sempre melhores do que a nossa realidade. Afinal o mundo está cada dia menos interessante, o que me faz lembrar do que um personagem de um filme um dia disse “O mundo é o mesmo, com menos razões para se viver” o mundo sempre será o mesmo, mas a rotina acaba por sua vez, cegado a nossa visão para contemplar tudo aquilo que o mundo tem a nos dar. Me peguei mais uma vez perdida em meus devaneios sem saber se estou na metade ou em um terço da minha vida, ou até mesmo no final dela. O que posso dizer é que não tenho nada a reclamar do que vivi ou que eu venha viver, pois jamais me arrependerá daquilo que sou ou que me irá voltar com o tempo. Hoje são trinta, amanhã sessenta e quem sabe num futuro noventa. O importante é que aquelas rasuras, rabiscos, rasgos e queimados são o que tornam minha vida única nessa imensidão do universo, que apesar de tão complexo, não passa de uma sinfonia simples de uma única nota ecoando pelo infinito.
O Poeta de Boteco
Notas de um poeta de boteco 87º
Eu não sei se ainda consigo fazer isso, já estou a horas olhando para esse fundo branco e pensando no que escrever aqui... meu peito pesa com as palpitações do meu coração, minhas mãos tremem e minha respiração está cada vez mais pesada e eu ainda tive a brilhante ideia de fazer a porra de um irish coffee para melhorar a minha ansiedade. Eu achei que vir aqui e deixar fluir como antes iria me ajudar a aliviar um pouco todo esse peso, mas sinceramente eu to me sentido pior a cada palavra que escrevo aqui. Meu sobrinho nasceu hoje e eu nem se quer consigo sentir nada... é como se eu já estivesse morto por dentro. Eu olho no espelho e só vejo uma casca vazia inundada de um infinito de escuridão, não há mais nada ali... eu tentei arrumar o meu quarto pra ver se eu me sentia melhor, mas algo simples assim parece uma batalha que eu não consigo vencer. Pra ser sincero já tem uma cota que eu não me sinto vivo... olha o tanto de coisa que eu já fiz, sonhos que realizei e eu não consigo sentir nada... e isso me destrói mais ainda porque eu não me senti feliz fazendo isso tudo porque eu simplesmente estava lá, mas não estava. Porra por que eu tenho que ser assim? Eu só queria ser normal e simplesmente viver, VIVER!!! Sabe me iludir achando que é normal essa merda de sociedade te mastigar e te cuspir na droga de um esgoto e você ainda agradecer por mais um dia ali naquele inferno. A porra de uma frase fica ecoando na minha mente o tempo inteiro “ta tudo bem?” eu to cansado e realmente não sei mais o que fazer. Me entupir de remédios pra viver numa ilusão de que ta tudo bem... é isso que é viver? Sério eu não vejo mais futuro eu to simplesmente existindo no piloto automático esperando alguma merda acontecer. Feliz ano novo espero que alguma coisa mude sinceramente porque eu já perdi a fé
Outro dia eu vi uma dessas frases motivacionais que dizia que a vida fica fazendo a gente reviver certas situações até aprender a lição, mas eu acho isso sádico demais. Por que preciso sofrer para aprender alguma coisa? isso não é lição, está mais para um adestramento psicológico que no final só vai fazer a gente mudar porque fomos condicionados aquilo. Digo isso porque já estou cansado de ver a vida me afastar de todos que eu amo, não fico triste por eles, muito pelo contrário, fico muito feliz de ver eles crescerem e evoluírem na vida e em suas carreiras, mas a solidão que fica, machuca... - O Poeta de Boteco
Notas de um poeta de boteco 84º
Já faz muito tempo que eu não visito esse diário e o motivo dessa ausência nem mesmo eu sei o porquê. Dor? Não faltou durante esse período para escorrer por essas páginas em branco, mas porque eu não quis escrever? eu não sei responder. A realidade é que eu estive mais perdido nesse curto espaço de tempo, do que, durante toda a minha vida. Mas esse naufrágio em meio ao caos me serviu de bom grado para aprender um pouco mais sobre mim. Que a minha solidão, aquela que eu mais temia, na verdade, é a melhor amiga. Quando a gente entende que somos sozinhos e fomos criados para viver sozinhos, tudo faz mais sentido. Mas aquele papo de que “a felicidade só é verdadeira quando compartilhada” não é tão mentira assim, na verdade, ele só é mal interpretado, na qual, a gente acha que encontrará a nossa felicidade no próximo, mas ela está aí dentro de você, igualmente a esse vazio gigante que sufoca o seu peito. A diferença é que um, a gente deixa contar da gente e o outro a gente carrega alguém de nos demonstrar ou fazer sentir. Pode parecer confuso no início e as vezes até doloroso, mas aceitar a solidão é como abraçar o mar, a sensação é estranha no começo, como se fosse algo inútil e em vão, mas depois que você começa a compreender que mesmo líquido, há uma solidez naquele gesto que antes era trivial, agora parece caloroso e aconchegante, como aquele se vazio fosse se fechando aos poucos e se preenchendo de si mesmo. A gente insiste nessa bobagem de que precisamos do próximo, seja amigo, namorado, amante ou familiar. Mas na verdade, somos apenas um primata bípede que luta diariamente pela sua sobrevivência e não depende de ninguém além dele mesmo para lidar com a realidade cotidiana. Posso parecer um chato, depressivo que já não vê mais sentido na vida, mas na verdade, posso dizer com verdades que pela primeira vez em vinte e oito anos que me sinto verdadeiramente vivo...
O Poeta de Boteco
Notas de um poeta de boteco 83º
Abro a porta do meu apartamento e sinto calor acumulado pelo dia de sol, tiro meus sapatos, ligo o ar, coloco um Jazz pra tocar na vitrola, rodopio ainda de meia pela casa indo em direção a cozinha, pego uma cerveja na geladeira e vou dançando em direção ao sofá amarelo, me jogo ali mesmo e fico pensando na noite de azar. Foram cinco derrotas seguidas no 21, perdi uma boa grana. Mas voltando para casa, parei em um bar e enquanto comprava um maço de cigarros vi a criatura mais bela que os meus olhos podiam ver, sua pele era branca como a luz do luar, em seus lábios o batom vermelho ardia como chamas, seus cabelos negros como a noite dançavam com o vento, seu olhar era indescritível, nem mesmo todas as musas da mitologia seriam capazes de compor uma balada que descrevesse a beleza daquele olhar. Quando seus lábios se abriram formando aquele belo sorriso, meu coração acelerou como se eu estivesse na presença de um ser divino. Minha boca tremeu e quase não consegui me apresentar. Sua risada soava como a mais bela música aos meus ouvidos. Timidamente me disse seu nome, Dayane. Não havia nome mais perfeito para aquela que possui um brilho tão vivo que aquece o coração daquela ousa admirar-te. Ela já estava de saída, mas me sorriu transmitiu seu número. Voltei para cara como um jovem apaixonado, admirando as estrelas lembrando do seu olhar. Agora realmente comecei a acreditar que quem não tem sorte no jogo, tem sorte no amor...
O Poeta de Boteco
Notas de um poeta de boteco 82º
Encarar o vazio da folha me estranha como se nunca tivéssemos vindo alguma vez na vida. Me vejo ali parado, mergulhando na imensidão branca clamando por palavras que preenchem sua existência e como se uma voz em minha consciência me questionasse “Por que parou de escrever? “. Naquele momento despertei como em um sonho e eu vi sentado em frente a uma velha máquina de escrever agora travada pela falta de uso, procure então uma caneta que esteja sobre a mesa e nas gavetas desesperadamente como se minha vida dependesse de coisas. No fundo de uma gaveta encontrei um bic preto e busquei com a outra mão um sulfite amarelodo que se relacionava sobre a mesa... “O homem é refém de sua alma que clama pela escapatória através de formas distintas como o simples fato de gozar palavras sobre o branco do papel, a insanidade o corrompe o deixando a mercê de um sistema banal que nos puxa para um limbo sem fim, na qual, a corda enrolada no pescoço é a única saída. ”. Eu me matei naquele dia, mas não literalmente, o poeta é imortal e constantemente comete um suicídio poético para renascer em suas palavras com uma nova existência, um novo significado e acima de tudo uma nova visão, pois a muito nos deixa cegar pelas coisas que vivemos, mas nos esquecemos da real essência da vida. Não se entregam ao vazio, por mais sedutora que ele parece ser...
O Poeta de Boteco
Notas de um poeta de boteco 81º
O barulho chato do despertador me acorda de um sonho pretérito, meu corpo se nega a levantar da cama, enrolo-me nas cobertas e ilusoriamente posso afirmar ter sentido seu cheiro, aspiro novamente na esperança de sentir pela última vez seu doce perfume, mas não havia cheiro algum. Decepcionado levanto-me e sigo para o banheiro, o barulho da chuva leve na janela indicava o início de mais um sábado, escovo os dentes e sigo para cozinha, coloco a água do café para esquentar, como um gesto automático pego uma cerveja na geladeira e bebe, aceitando um cigarro e sentando-me junto à mesa esperando a água ferver, de longe vejo meu reflexo na janela e me pego a pensar que não havia me transformado. Como posso deixar tudo isso me afetar dessa forma? Ao ponto de voltar à estaca zero, de um bêbado, viciado trancado em apartamento. Por que estou fazendo isso comigo mesmo? Minha imunidade é um lixo, minha respiração e meu fígado pedem socorro a todo momento, minha respiração é pesada e as dores. Preciso acordar esse pesadelo e não me deixar ser iludido por um fantasma que assombra meus pensamentos, alimentando uma falsa esperança. Olho para máquina de escrever jogou na lixeira e penso, por que parei de escrever? Por que eu matei dessa forma? Um poeta não vive sem sua escrita. Como algo tão simples como um adeus é capaz de derrubar um homem dessa forma? Joguei a cerveja na pia, apaguei o fogo da água e segui para quarto. Tirei a velha máquina do lixo e pus de volta à mesa. Voltei para a cozinha e terminei de passar o café. Aquele aroma perfumava o ar e revitalizava meus pulmões. Senti-me de frente a máquina de escrever e a fitei como alguém que encontra um velho amigo. Passei meus dedos por suas teclas e coloquei sutilmente uma folha, ajeitei e comecei a dedilhar suas teclas, deixando minha alma escorrer por meus dedos preenchendo aquela folha em branco. Era algo orgástico que eu não sentia muito tempo. Cada letra, palavra e frase era como estocas que eu dava cada vez mais próximo do clímax, eu podia sentir o gozo vindo e o ponto final chegando. Minhas mãos suavam de ansiedade como se eu fosse uma moleque virgem vendo uma buceta pela primeira vez, meu poema estava pronto, carregado com meus sentimentos a muito aprisionados em meu peito. Tomei o último gole do café, peguei uma vassoura e me pus a limpar...
O Poeta de Boteco