Crónica de uma morte anunciada
Olá Malandrecos,
Seis anos depois e com dois anos de atraso, venho contar-vos rapidamente o meu último episódio que me colocou uma vez mais em risco de vida.
A 11 de Dezembro de 2019, comecei a ter os primeiros sintomas de uma gripe, mesmo assim com um comprimido ainda fui à festa de Natal do colégio para mal dos meus pecados :-( Nos dias a seguir a gripe foi-se mantendo e no sábado de 14 de Dezembro de 2019 os meus pais decidiram ir diretos comigo para o hospital público de Braga. Há chegada centenas de crianças para serem atendidas, e eu já com dificuldade em respirar. O meu pai e a minha avó ainda tentaram apelar ao coração do segurança para avançar mais rápido para a triagem, mas está quieto, não há diferenciação entre casos graves e moderados se não vieres referenciado.
Após entrar para a triagem fui logo encaminhado para observações, onde fui imediatamente visto pelos médicos que me colocaram logo com alto débito de oxigénio e fui fazer um raio-x. Principio de uma pneumonia! Como o pediatria estava saturada tive que gramar com 2 dias nas urgências, mas também foi uma estadia muito curta na pediatria, pois mal sentei o rabo, vieram as más noticias. Liquido nos pulmões, sobretudo num deles, havia necessidade de uma intervenção rápida. O senhor comandante meu Pai, desconfiado das tropas do Norte foi logo obter segunda opinião junto do seu anjo, tendo-se optado pela opção mais comóda para mim, que passou por enfiar uma grande agulha no meu pulmão e começar a retirar liquido do pulmão. Foram 33ml de liquido o equivalente a uma lata de coca-cola. Como devem imaginar fiquei em cuidados intermédios, ligado a todas aquelas máquinas fantásticas que não me deixavam mover 1 cm, sobretudo a c-pap cuja máscara se assemelhava à de um astronauta. Ora bem, após 5 dias nos cuidados intermédios sem grandes progressos, bem pelo contrário, os médicos começaram a falar com outros médicos e mais médicos, e decidiram por-me com antibioterapia potente pois o meu PCR e Velocidade de Sedimentação estavam altissimos o que revelava infeção grave, até que numa colheita de sangue, aparece essa bandida chamada Staphylococcus aureus (SA). Ti no ni Ti no ni. Criança com cardiopatia com a SA é sinal de muito perigo, por isso toca a enviar para o hospital de São João para exames mais exaustivos. Só que era Natal, não ia fazer nada para o São João pois não iria ser visto. Toca a passar o Natal nos cuidados intermédios em Braga. Foi uma experiência única e inesquecivel...
Na segunda-feira após as festas, lá fui transferido para o São João, onde fui logo visto pelos cardiologistas, que não detetaram nada na ecografia e TAC que indicasse endocardite, mas era preciso um terceiro exame chamado PET-CT, que só existe no setor privado, e que requeria autorização do administrador do hospital de São João, que tinha ido para a costa oeste dos USA. Mas o meu pai como nasceu com o rabinho virado para a Lua, e tinha mudado de emprego dois dias depois de eu ser internado, teve a sorte de ir trabalhar literalmente para a secretária ao lado de uma pessoa extremamente próxima do senhor administrador, tendo a autorização do PET-CT sido concedida em tempo record. Só que era final de ano, e existem festas, pelo que tive que ter paciência e passar dia e noite literalmente a levar com antibioticos e outros medicamentos pelas poucas veias que ainda restavam em condições no meu corpo. Foi duro, não vou dizer que não foi, chorava baixinho de dores sempre que de 6 em 6 horas tomava o maldito Floxapen.
Chegou o dia do PET-CT, que veio confirmar o pior, endocardite, com a bactéria posicionada no meu conduto artificial, na valvula aortica e na tiroide. Ti no ni Ti no ni, pois vinham pela frente 11 semanas a antibiotico por via intra-venosa pela frente, a ver se a bactéria se ia embora. Fui transferido para Braga, pois não apresentava risco de vida, e colocado numa fantástica suite com direito a tudo, no entanto, durante a longa estadia, deixei de ter veias, e lá tive que ir ao bloco por um cateter central. A cada colheita de sangue, o querido PCR e a VS não tinham forma de descer, e estavamos já perto do final da terapia quando a decisão é tomada pelo senhor general supremo das forças armadas: vamos tirar esse conduto rapaz, e meter um novo maior que te dure por muitos e bons anos!
E com isto, entra o meu pai no modo guerreiro destemido, colocando todas as fichas em conseguir que eu fosse para casa com medicação oral, pois leu estudos e mais estudos a demonstrar a eficácia da medicação oral vs a intra-venosa no final dos tratamentos, e lá convenceu o senhor general, que após mexer numas teclas do seu tlmv lá conseguiu que eu tivesse alta condicional.
Em casa, ganhei anos de vida e os meus pais também, foram poucos dias, mas muito reconfortantes, e mal eu sabia nas que me ia meter. Os meus pais foram fantásticos, preparando-se para o pior esperando o melhor, arrendaram um quartel general de apoio, mesmo ao lado do Hospital de Santa Cruz, levando com eles as principais tropas de apoio que tinham estado nas 3 guerras anteriores.
A estadia em Santa Cruz foi muito pacifica, no dia seguinte à admissão já não havia sinal de infeção, a moral das tropas estava elevada, confiança total na equipa. Meu dito meu feito, a equipa mais top do mundo, junto com uma familia grande, calma e unida fizeram que eu ao fim de poucas horas/dias estivesse já fino na enfermaria, e com autorização especial do senhor general pude dormir no quartel general com a familia, e ir fazer a antibioterapia ao hospital de 6 em 6 horas, até que o senhor covides apareceu em força e uma vez mais o senhor general mandou-me para casa a correr com antibioticos orais.
Porque escrevo hoje este post. Porque não tenho melhor forma de homenagear a minha querida avó que hoje partiu, e já na altura doente sem o saber, esteve lá sempre com as outras tropas na minha defesa. Obrigado avó por tudo, foste maravilhosa nestes meus 11 anos de vida, amo-te muito!












