killian
Já tinham estado frente a frente naquele umbral por incontáveis vezes — ele já tinha perdido a conta. Ainda assim, havia algo diferente naquele dia em específico, algo que ele vinha percebendo desde que abrira os olhos pela manhã, mas que tinha se intensificado ao encarar Cruella parada naquela porta, quase que encharcada por completo. Antes que falasse alguma coisa, contudo, a declaração saltou da boca alheia, fazendo com que James parasse de respirar por alguns segundos, encarando-a como que em estado de choque. Os olhos castanhos não se desviaram da amante por um minuto sequer, um misto de sentimentos embrulhando seu estômago, sem que ele soubesse se isso tudo tinha a ver com algum feitiço ou com reações genuínas de seu corpo. Por mais arrogante que fosse, e no mais otimista dos cenários, jamais tinha considerado ouvir que a estilista o amava. Ele estava tão absorvido pelo momento que demorou a perceber o filete de sangue que escapava de uma das narinas da mais nova. “ Eu aprecio a luta pela qual tem passado e sinto muitíssimo pela dor que lhe causei, mas não precisava ter esperado tanto tempo ” disse devagar, recuperando a voz ao mesmo tempo em que puxava um lenço do interior do bolso e tomava como missão tornar a pele alheia abaixo alva novamente. Estava mais alarmado com a declaração do que com a possibilidade de ela estar passando mal, porém, isso não impediu que mostrasse cuidado demasiado ao escorregar o lenço branco sobre o líquido vermelho. “ Espero que não esteja no fim da vida para que tenha decidido falar tudo isso agora ” brincou, segurando-a pela cintura enquanto fazia seu trabalho. Sangramentos nasais não eram assim tão incomuns, se fosse pensar, e Cruella não aparentava fraqueza, apenas um comportamento nada usual que fez com que ele se perguntasse se estava passando por um teste. Porque se dissesse que a amava também, não teria como voltar atrás. E se fosse um teste, ela certamente riria dele por ser tão tolo. “ Espero mesmo, porque isso seria bastante frustrante ” reforçou, encarando aqueles olhos que eram um poço de escuridão e dotados de uma intensidade que ele era incapaz de controlar. Sem qualquer anúncio, ao sentir que já tinha limpado o suficiente, entrelaçou os dedos com os de Andressa, perdendo algum tempo para que depositasse um beijo em cada um dos nós dos dedos, puxando-a ainda mais para junto de seu peito e juntando suas bocas num beijo quente que contrastava com a chuva fria que os cercava. A água gelada escorria através de seus corpos, tornando as roupas finas o bastante para que ele tivesse mais dela enquanto aprofundava o contato. Diferente dos outros beijos de Hook, aquele era mais terno e apaixonado, revelador de sentimentos idênticos aos que a morena havia revelado para ele, cortando-o somente para dizer: “ Sinto em ter que dizer, mas isso só vai dar certo se fizermos exatamente como os mocinhos ” seu tom, contudo, estava revestido de deboche enquanto sorria.
* 🥀 𓂃⠀ ⋆˚ ⠀⠀O horror consumiu o cerne quando Cruella se deu conta do que havia acabado de confessar. O feitiço esvaía-se do corpo dela conforme ele falava e a encarava nos olhos, tirando o lencinho do bolso para limpar o sangue que a De Vil sequer sentira escorrer tão grande fora o seu atordoamento com a situação. Ela não podia dizer que os sentimentos exprimidos por ele eram ilegítimos, seria uma mentira, mas podia fingir que não existiam. Havia um tempo desde que percebera estar mesmo apaixonada por James, porém, decidira ignorar qualquer sintoma daquela "doença” — como considerava ser — porque era mais fácil e preferível que fosse assim. Porque aquilo era uma fraqueza para pessoas como eles e, especialmente, para ela, que durante toda a vida se preservara de sentimentos e de laços. Provava-se fraca para si mesma ali, uma vez que parte dela ainda desejava ouvir as palavras em retorno. Quase ficou infeliz quando não as recebeu, e sentiu a raiva borbulhar sob a pele mais uma vez por ter se permitido doar-se tanto para alguém. Com pouca habilidade sentimental, não cogitava a possibilidade dele ter ficado igualmente apavorado ou de ter dificuldade em acreditar nela, considerando que a conhecia bem o suficiente para saber que Cruella De Vil desprezava o amor e qualquer coisa que a assemelhasse a um daqueles mocinhos; para saber que era fria e inflexível demais para ousar amar. Não era como se fosse fácil ler através dela também e fisgar os sinais — era ótima em manter uma expressão fechada e impassível, ótima em ser fria e esconder tudo o que sentia. O toque dele em sua cintura trouxe a sensação de que queimava na região, ainda que fizesse frio pela chuva que insistia em escorrer. “Nós dois estamos, darling.” Enviesou os lábios escarlate como o sangue que manchava o lenço dele, referindo-se ao fato de que nenhum deles estava seguro naquela maldição. “Bastante frustrante para quem, exatamente?” Debochou do resto da fala de Hook, mas apesar de se sentir em desvantagem, não estava sendo maldosa dessa vez. Nunca era verdadeiramente cruel com ele. Capaz de sentir o seu coração bater no peito somente quando estava na presença do homem que o detinha — em ambos os sentidos que a colocação poderia impor — ela sentiu a pulsação ficar forte no momento em que Hook entrelaçou as mãos, deixando beijos nos nós dos dedos dela, cada um no compasso de uma batida do coração, e trazendo-a mais para perto, até que os corpos molhados ficassem colados um no outro. A morena arfou como se enfim declarasse completamente sua a derrota daquela noite ao ser beijada por ele, e não houve qualquer resistência ao ser tocada através dos tecidos finos. Enquanto aprofundava o contato, ela se perguntou se James estava enfeitiçado. Se o beijo era mais demorado e terno, não tão desesperado quanto os que normalmente davam, porque ele também era vítima dos encantamentos. Perguntou-se, num canto de sua mente, se o toque poderia ser de alguma forma uma resposta para a confissão de que o amava. ”Me poupe, James.” Revirou os olhos ao usar da reprimenda de praxe, que ele já deveria estar cansado de ouvir, mas um sorriso pincelou em seus lábios depois de ter o beijo interrompido pelo capitão. “Mas e agora? Vai me pedir em casamento em um cavalo branco? Me convidar para um jantar à luz de velas?” Se afastou para que começasse a andar até a porta da casa dele, mas manteve as mãos entrelaçadas, puxando-o junto a si. Em qualquer outro dia, julgaria-se ridícula pela postura grudenta, mas àquele ponto, entregara-se por completo para a maldita magia do amor que se apossara de Storybrooke. Lidaria com as consequências de tudo na manhã seguinte, agora, apenas aproveitaria o tempo que teria com James como uma daquelas mocinhas. “Na verdade, o jantar não é uma ideia tão miserável. Você me deve um, aposto que se esqueceu.” Ela virou o corpo na direção do homem para que pudesse olhá-lo, caminhando de costas ao adentrarem a residência. “Quanto ao casamento, terá que lutar pela minha mão. Com Gaston.” Reprimiu uma careta de nojo ao recordar-se do ocorrido com o Desjardins mais cedo, mas a intenção ali era provocar Killian, então se limitou a dar de ombros, como que despreocupada. “Ele tem grandes chances de ganhar de você no duelo.” Debochou, parando de andar para que James se aproximasse dela novamente.









