Certo de que discussões como aquela não seria úteis em nenhum cenário, nem mesmo em seus sonhos, apesar de ser muito real, Lincoln se conteve ao máximo, pressionando os lábios e tudo, para não proceder com aquela guerra de palavreados. Sua sentença seria a última sobre aquilo: “Eu não sou um pervertido-” E sossegou o facho com um suspiro audível, exausto, além de estalar as mãos sobre as pernas em rendição. Era impossível falar com ela sem que fosse julgado por isso, então o melhor era se calar. Por ora.
Em seguida, voltou a olhá-la agora contestando suas afirmações em segredo, mentalmente. De fato, ela não estava errada. Se tinha algo que Lincoln não conseguia era replicar uma gentileza que não fora direcionada à ele, portanto, nos mal entendidos que se enfiou com Celia, a maioria deu a entender que ele não gostava dela e muito menos que se importava com ela, foi por isso que sua expressão relaxou mais. “Eu sempre tentei ser simpático com você em retorno, mas parece que o mundo conspira contra nós dois nos dando bem. Deve ser isso.” Ah, sim, agora iria colocar a culpa nos astros! Que maduro. Ficou em silêncio por alguns segundos, processando o desafio dela até entender. Era alguma mágoa pelo que havia acontecido antes, é claro! Rapidamente lhe olhou de volta, em silêncio, tentando achar alguma resposta nos olhos dela, mas não conseguia.
Havia algo naquele dia em específico que o estava o deixando enlouquecido, bem inquieto para ser mais preciso, várias sensações e impulsos dos quais não presenciava há alguns anos. Lincoln tinha toda compostura de um bom moço, porém, apesar do que Celia havia dito, sobre ele ser bonzinho demais, naquele momento o único propósito que ele tinha em fitá-la daquela forma era somente o de se aproximar mais do rosto alheio. Devagar, anunciava em silêncio suas intenções: boca entreaberta, olhar fixo nos dela e uma angústia de sentir que parecia ser o projeto daquilo que deveria ter sido no ano novo; sem pressa, sem sentimentos ruins, apenas vontade de beijá-la mais uma vez. E assim o fez, antes levando a destra livre para erguer o queixo alheio na direção de seu rosto, deixando as faces equivalentes agora de modo que condensou os lábios em contato com os dela, gentilmente. Apenas um toque e em seguida analisou a expressão da Pierce, certo de que estava tudo bem para prosseguir.
Sentia-se um rapaz novamente - bom, naquele sonho ele era mesmo - quando precisou inclinar a cabeça para o lado, de modo que pudesse entreabrir mais os lábios afim de encaixar nos alheios, precisamente no momento em que o polegar começou a alisar o maxilar dela com um carinho sutil. Então, quando já sentia que estava satisfatório o bastante para se permitir levar por aquele beijo mais intenso, carregado pelas mesmas vontades do Ano Novo, Lincoln escorregou os dígitos a delinear o traçado do rosto de Celia, até que chegasse na nuca dela, por fim, e fincasse os dedos ali dentre os fios dela, puxando sem qualquer rudez, única e exclusivamente para que o contato se mantivesse firme - ou ao menos até que ela cessasse, afinal: o que a namorada do quarterback Pierre fazia ali trancafiada no banheiro com um atleta qualquer de corrida? Fosse qual fosse a resposta para essa questão, nada parecia mentira exceto por aquele beijo e pelo desejo de senti-la daquela forma, algo que, embora fosse fruto de um sonho, ainda parecia muito verdadeiro dentro e fora.
O que havia em Lincoln que tornava Celia tão susceptível às suas opiniões? Sabia que muitas pessoas a odiavam, tanto em seu dia a dia normal quando naquele universo de sonho. Era bonita, popular, namorada do quarterback (que, bem, no fundo era odiado por todos ali) e não fazia a menor questão de ser uma boa menina. Colecionava inimigos onde quer que passasse e nunca se importava com eles, muito pelo contrário. Mas aí surgia Lincoln Fuller. Ele a deixava confusa, insegura, uma verdadeira boba. De repente ela, logo ela, que era uma mulher tão vaidosa, poderosa e cheia de si, se pegava trocando de roupa várias vezes, avaliando seu estilo, seu jeito de se portar. Tudo porque queria ser gostava. E, argh! Queria ser gostada logo por ele!
O que ele tinha demais? Ela o olhou enquanto ele falava, assistindo seus ombros se mexerem levemente, a expressão relaxando antes das próximas palavras. Mais uma vez ele a confundiu com aquela fala e ela apenas suspirou pesadamente, resignada. Estava cansada daquele joguinho. “É... Deve ser isso.” disse, sem convicção alguma na voz. E lógico, como uma brincadeira do universo, ele a flagrou encarando e segurou o olhar. Celia quis desaparecer diante da intensidade daquele olhar, mas continuou ali, quieta e entregue, enquanto ele se aproximava, a pele suave de seu rosto parecendo formigar onde ele tocou. Era tão óbvia a maneira com que seus lábios se entreabriram e sua respiração perdeu o ritmo, que mesmo que ela dissesse as palavras mais feias do mundo, jamais conseguiria convencer qualquer um de que não queria ser beijada por ele. Às vezes tudo o que queria era ser frágil com alguém; ser enxergada da maneira certa, sem jogos, sem feitiços, sem atração exagerada. Às vezes queria apenas que sua suavidade fosse vista apenas como uma característica e não como uma fraqueza. Era exatamente assim que se sentia com ele, e talvez esse fosse o grande problema.
Mas estava em um sonho e não iria se prender a seus medos. Seus olhos se fecharam e ela derreteu naquele beijo, um suspiro baixo fugindo de si ao mesmo tempo em que seus braços enlaçaram o pescoço masculino, aproximando-os até que ela praticamente estivesse no colo dele. Pouco se importava com o namorado perfeito, a popularidade, a festa lá fora - se fosse mais longe ainda, nem mesmo com a maldição e o que aconteceria na manhã seguinte, quanto acordasse e tudo não passasse de um delírio de seu subconsciente. O importante era beijá-lo como teria feito no Ano Novo se não fosse a interrupção e como teria feito outras vezes se não tivesse certeza de que ele a odiava. Se não o odiasse de volta.
Quando o contato foi terminando e ela se deu conta do que estavam fazendo, a ficha caiu. Se seguisse seu plano anterior, aquele era o momento em que deveria xingá-lo, humilhá-lo, brigar com ele, dizer qualquer coisa que o fizesse nunca mais querer vê-la em sua frente. Contudo, ela apenas o olhou, sem sair de onde estava, e suspirou pesadamente. “Não vou te xingar.” disse “Ou melhor, vou sim. Você é um idiota! E me deixa confusa!” continuou, com um bico emburrado se formando os lábios. “O que quer agora? Dizer que sou uma otária por não estar com raiva de você?” concluiu, na defensiva.