Fazia muito tempo que David não perdia o controle de si e mantinha seus demônios afastados de sua cabeça, e ele estava satisfeito por seu autocontrole, mesmo diante de toda a tentação que o poder e escuridão sempre lhe ofereciam. Sua mãe havia acreditado em sua bondade, então certamente a única maneira de honrá-la, era acreditando também, ,esmo que as vezes fosse difícil conter todo aquele espírito primitivo que crescia dentro de si. E, claro, uma boa maneira de fazer isso era mantendo-se longe do inferno, também conhecido como high school.
Se existia um lugar mais detestável que a escola, só poderia ser o próprio inferno, e o rapaz seguia firme na teoria que o criador do primeiro colégio público realmente havia se espelhado no reino de fogo quando o criou. Decidido a passar longe de qualquer local que tivesse cheiro de pizza vencida misturada com suor e fracasso, pegou uma outra esquina que estava bem mais vazia. Aproveitou tal momento para testar um pouco sua telecinese em coisas muito úteis, tipo levitar o próprio tênis e andar como um maltrapilho pelas ruas.
Obviamente, deu muito errado.
Bastou que uma abelha voasse em direção á lente de seus óculos para que o susto o fizesse realizar um movimento mal calculado com a mão, fazendo que o tênis voasse como um foguete em direção á janela de uma casa.
—- Holy crap, malditas sejam as abelhas. —- praguejou, coçando o cabeleira castanha com a destra, pensando no que faria a seguir.
Depois de muito calcular, chegou a conclusão de que não se importava com o fato de ser uma invasão domiciliar, ele precisava daquele tênis maldito, era um de seus raros pares realmente bons. Um pouco contrário ao próprio pensamento, deu seu melhor com todo o invejável físico magricela, e escalou até a janela, que por sorte estava aberta e se esgueirou até um quarto vazio. Por muita sorte, o tês estava jogado ao lado do espelho, e não havia o acertado. Como o bom folgado que era, o pegou e se sentou no sofá que havia perto da cama alheia para calçá-lo. Bastou-se que se inclinasse um pouco para frente em direção aos cadarços, e um garoto entrou pela porta tão rápido quanto seu tênis havia atravessado a janela. Levantou-se num só pulo, mas notou que, ele não prestava atenção em si. Seja lá quem fosse, estava no meio de um surto. Ainda desobedecendo ao bom senso em sua cabeça, agachou-se ao lado do outro, notando quão aflito ele estava. Sentiu um aperto no coração. Enxergava nele exatamente como era si próprio. Exatamente como se sentia quando seus demônios o controlavam.
—- Ok, cara, se acalme. —- Começou, tentando se lembrar das três maneiras básicas de se ajudar alguém tendo um ataque de pânico. Mordeu a língua ao se lembrar que dizer “se acalme” era proibido —- Hã, certo, vem aqui! —- O ajudou a se levantar e saiu corredor a dentro o puxando pelo braço, até encontrar o banheiro. —- Respire fundo. —- Disse, antes de jogá-lo na área do chuveiro e ligar a ducha fria, afastando-se. Um pouco depois, olhou-o novamente, limpando as lentes um pouco embaçadas na camisa e as colocando novamente para vê-lo de forma mais nítida. —- Melhor?
Em pouco tempo Jade já não sabia mais o que estava acontecendo. Sua cabeça girava, ele sentia vontade de vomitar, sua vista embaçava e ele se pegava olhando para o próprio nariz de forma bem ridícula. Com sorte, o cara de óculos que havia invadido sua casa e estava casualmente sentado no sofá não notara tal fato constrangedor. Ah, sim, pessoas invadindo sua casa. Normal. Sempre acontecia. Mas seu cérebro estava desfocado demais para que encontrasse qualquer pensamento ou dedução plausível para tal situação.
"Se acalme."
O moreno instantaneamente se virou em direção à parede e fez menção de vomitar, mas nada saiu. Não comer nada durante horas não é saudável, mas pode vir à calhar. Definitivamente, não diga ' se acalme ' para uma pessoa que está hiperventilando. O estado emocional de Jade não era dos melhores, ele passara meses conseguindo manter os ataques sob controle, conseguindo manter a consciência de seu "eu" racional. Se não melhorasse a situação provavelmente ficaria bem ruim. Muito ruim. Então ele ignorou qualquer tipo de pensamento que seus neurônios fatigados viessem à formar, procurando convencer à si mesmo de que nenhum deles faria sentido, e apenas se deixou guiar pelo outro rapaz.
Felizmente, a água fria executou bem seu trabalho. Jade se deixou escorregar até o chão do banheiro, enquanto a ducha molhava suas roupas e seu cabelo. Seus músculos relaxaram, de pouco em pouco sua mente voltava a seu devido lugar, a sensação de náusea ainda estava presente, mas bem menos acentuada que há pouco e, logo, sua respiração voltava ao normal. Recostando a cabeça na parede do banheiro, ele virou o rosto em direção ao garoto de óculos que o ajudara. Seu mais profundo inconsciente queria responder a pergunta com um legítimo "obrigado", mas tudo que conseguiu fazer seus lábios babulciarem foi -- Q-quem é você?














