Ontem foi aniversário dela.
Chamamos uns amigos pra cantar parabéns, comer bolo.
Fizemos uns enfeites pela casa e pela primeira vez, não cozinhamos todas as comidas para receber a nossa gente. Eu me sentia cansada. Desgostada. Destemperada.
Mas minha mãe veio, como de hábito. Trouxe um braço quebrado e um coração dilacerado pelo ambiente de desequilíbrio político social a que estamos experimentando. Meu irmão também veio, senão ele, quem puxaria as malas? E as crianças amaram a vinda deles dois. A festa, só com eles - já estaria formada.
e tanto a menina quanto o menino estavam ansiosos.
E em plena segunda feira houve farra, amigos e um tanto de música que preencheram nossa casa de alegria e nos fizeram distrair um pouco. Enquanto olhávamos as crianças, arriscávamos planos de sair desse lugar. Com poucos bons amigos a nossa volta. Aos risos de nervoso um escolheria o Uruguai, outro Berlim… Pra onde vamos? Quando na verdade queremos estar aqui?
Faz tempo que ando tentando conviver com a ideia dentro de mim de que, se a maioria escolhe democraticamente viver sob comando de um paraquedista fascista, tem de ser também uma escolha nossa ficar ou não. Só não é simples assim. Né?! Mudar.
Clarice fez 8 e sem dúvida,
temos aqui um divisor de águas.
Hoje, quarta-feira - fomos comprar seu presente,
Porque assim como eu, treina a menina para ter resistência e fôlego.
Demoramos. E acabamos tendo de almoçar um sanduíche, desses bem rápidos para não atrasarmos para o colégio.
E enquanto eu comia, Clarice me contou o que se fala de política na classe dela.
E que está proibido debater.
Porque as pessoas brigaram.
E enquanto eu mordia aquele sanduíche horrível,
eu que nem mais carne como, choravam meus olhos.
Mãe cê tá chorando! Não com vergonha, mas com acolhimento.
Foi um instante em que passou pela minha cabeça que tudo o que eu desejo para Clarice é que ela não seja como eu. Tudo o que quero para minha filha é que ela não chegue aos quase quarenta vivendo num lugar igual ao meu. Numa solidão tão imensa quanto a minha. Num recinto de pouca empatia. Num país desigual como o nosso. Ela - mulher como eu… Que ela não tenha que criar seus filhos dessa maneira. Que possa escolher inclusive se vai querer ter filhos ou não. Que os papéis das mulheres não sejam definidos pelos homens. Que tenham voz. Que ela não tenha que se proteger das pessoas como estamos tendo que nos proteger agora. Que possa ser o que ela quiser, menos eu neste contexto. Que ela possa ser corajosa e que tenha espaço pra isso. Que ela seja mulher viva de verdade porque eu ando me sentido meio morta, sabe?! Que seja possível não viver sob ameaças. Que ela encontre espaço possível pra nós. Porque ela não pode ser eu no futuro. Porque eu não vejo futuro pra mim. Aqui.
Porque eu desejo existir nela - livre.
Ela então me contou, enquanto dedilhava as batatas e reclamava do sal que entrava num pequeno corte do dedo indicador, que chorou ontem a noite também.
Quis saber o porque e surpreendentemente Clarice se pôs a falar que chorou porque não queria crescer.
"Queria continuar com sete anos mãe.
Te abracei, caminhamos de mãos dadas, apressadas.
Porque sou uma mãe atrasada.
_Prometa pra mim, não seja como eu!
Me deu um beijo. E continuamos.
Um pouco rindo, um pouco chorando.
São os novos velhos tempos.
Luiza Pannunzio é mãe de Clarice e Bento,
criadora do Atelier lp, da rede As fissuradas,
ilustradora do Conte para alguém, desenhadora + escritora às vezes <3 www.luizapannunzio.com