Eu tenho uma mania meio feia. No mínimo arrogante. Eu fico analisando a vida das pessoas e pensando em como eu viveria se estivesse no lugar delas. É bem irracional pensar em algo assim, porque é impossível estar, de fato no lugar de alguém. Nunca teremos os mesmo traumas, as mesmas dores, as mesmas histórias. Ainda assim, eu insisto em usar do pouquíssimo que conheço sobre algumas pessoas para forjar mais algumas das situações hipotéticas que tanto aprecio, sobre as quais devaneio por dias subsequentes enquanto realizo qualquer tarefa mecânica. Mas eu olho pra ela declaro absoluta impossibilidade de construir uma situação hipotética em que vivo melhor essa trajetória. Já fui definida como resiliente algumas vezes, mas certamente quem me definiu assim não conhecia alguém como ela. Acho que parte dessa minha mania arrogante de criar situações hipotéticas em que calço os calçados de outra pessoa é por conta do tanto que já tive minha história elogiada. Muitas vezes tive quem me admirasse por meu desempenho na escola, no vestibular, e me enxergasse como superação por conta das intempéries que por hora atravessei. Só que na verdade o que fiz foi fácil. Tive o suporte e a estabilidade cruciais nesse processo. O resto é simples. Já o que ela fez. Acho que só quem já viveu a experiência de cursinho consegue compreender a magnitude. Ela viveu muita coisa desde criança, passou por coisas que ninguém deveria precisar passar e nem encara como relevante. Sua infância foi tecida por desafio após desafio. E ela sempre com resiliência ímpar, relembra sua postura sempre anormalmente madura com naturalidade absoluta. Foi expulsa de casa quando enfim conseguiu se assumir lésbica, em pleno ano de cursinho. Trabalhou na Polícia Federal, depois como auxiliar clínica em um consultório médico. E foi trabalhando 9 horas ao dia para se sustentar, inserida em um relacionamento abusivo e morando sozinha que ela conseguiu ficar a três (de cem) pontos da vaga de medicina. Quem conhece a realidade do estudo para o vestibular entende o quão inimaginável é atingir 80 pontos com tão pouco tempo dedicado ao estudo. Estando tão próxima da aprovação, conseguiu uma bolsa em cursinho e iniciou um ano que parecia ter tudo para ser o último dessa etapa. Mas a resiliência dessa mulher foi testada novamente. Dentre todas as outras intempéries que inerentemente bagunçariam o ano de 2020, foi o ano em que ela, com síndrome do pânico, precisou estudar em meio a maior pandemia do século. Foram inúmeros momentos difíceis e não poderia ser diferente. Mas ela não parou de aprender, não só sobre o vestibular, mas também sobre ele. Ela tem uma inteligência surpreendente. Ela tem essa capacidade de ver o lado bom das coisas, sabe? E mais do que isso, ela tem a habilidade de tirar o melhor das coisas. Isso me impressiona demais. O cursinho que ela fez está longe de ter os melhores professores. Em geral, as aulas eram bem ruins. Mas era uma referência no ENEM, logo a prova que não era compatível com as habilidades dela. Ainda assim, ela, de alguma forma, mesmo com uma montanha de fatores desfavoráveis, conseguiu aprender muito sobre a prova. E esse aprendizado se mostrou em números hoje. As notas que até a edição anterior eram medianas, cresceram vertiginosamente e o resultado mexeu com meu coração lá no fundo. Independente desse número, a postura com que ela fez aquela prova, seria o suficiente para eu admirar imensuravelmente. Quem conhece um pouco de vestibular sabe que o conteúdo em si é só metade do necessário para uma aprovação. O jeito como se encara a prova, a confiança, o conhecimento da estrutura, a administração do tempo. São primordiais. E ela evoluiu absurdamente nesse sentido. Mas não foi só isso. Ela deu um salto em número de acertos, em um ano tão difícil de estudar, que evidencia a inteligência e, repito, a resiliência. Diferente da maioria dos vestibulandos de medicina, ela não está há anos com a vida pausada, a espera do momento da aprovação. Ela está vivendo várias histórias. É como se ela estivesse vivendo, ao mesmo tempo, a vida de um jovem comum, que não estuda para o vestibular, mas trabalha e dá conta da casa, e de um vestibulando, que se dedica ao estudo. Porque ela colhe os frutos das duas vivências. Tem uma vida adulta, com ganho de experiência e de maturidade (esse mesmo, exponencial), mas cresce em notas como alguém que tem todo o seu tempo dedicado ao vestibular. Eu, nem mesmo em minha arrogante postura de criar as supracitadas situações hipotéticas, sinto-me capaz de viver o que ela vive com essa maestria. Só observo com os olhos marejados e o coração transbordando admiração. Sou grata todos os dias pela oportunidade de estar vivendo ao lado dela e poder aprender tanto com essa mulher incrível. Claro que tenho a expectativa de a ter como minha caloura e camarada, mas a expectativa não é ansiedade, porque ela não está estagnada. Ela segue crescendo e se superando a cada dia. Que privilégio é estar em meus próprios calçados para poder ter a mulher mais mais resiliente que conheci ao meu lado.
Não mudaria nada, em hipótese alguma















