Bem, minha primeira e mais importante questão para começar a escrever as linhas que se seguem, por incrível que pareça, era que nome eu daria. “Notas” parecia algo muito vago, por que sempre que eu escrevo as coisas ficam quilométricas, é como uma vomitada digital, então me conhecendo já descartei esse de cara, todos os outros como “Adeus e obrigado humanos” parecia muito meme (se você não conhece o meme do rinoceronte branco dá uma googlada rapidão). Acabou que como o universitário que sou, em pleno TCC decidi chamar ele de Agradecimentos Finais. Nome bonito, não é a toa que temos uma associação de normas e técnicas, pois engloba todo aquele esforço descomunal de realizar uma pesquisa e você tem que pensar a quem você foi grato. Fui grato ao orientador vagabundo que não respondia meus e-mails? Fui grato aos colegas de turma que não olharam no meu rosto durante a graduação? Fui grato a família que durante todos esses anos buzinou na minha orelha que meu curso era uma bosta e não dava dinheiro? (claro, todos esses são cenários hipotéticos e não relacionados a mim especificamente). Os agradecimentos finais são um momento onde todo aquele ódio e perrengues presentes na pesquisa tem que ser atenuados e você tem que espremer algo de bom de todo aquele esforço. Pode ser genuíno? Claro. Pode ser uma forma de atenuar uma coisa essencialmente ruim e tentar se convencer de que ela valeu o esforço? Pode ser também. Qual desses é o meu caso? Não seria um texto se eu respondesse no meu primeiro parágrafo, então te convido a ler.
Bem, começando pelo princípio, sou um ser de dois braços e duas pernas, baseado em carbono e residente da terra, planeta que orbita uma estrela chama Sol no sistema solar, no extremo de um dos braços da galáxia espiral Via Láctea, localizada no aglomerado de Oregon no universo observável. Agora voltando pro universo micro, sou um ser de carne regado a mediocridade. Tenho 24 anos de idade, 1,67 de altura e atualmente tô pesando 93kg (bem alto, eu sei, culpe a pandemia). Nasci na pacata cidade de Mauá, na grande São Paulo. Conhecida popularmente como cidade dormitório, pois quem a habita geralmente trabalha na cidade de São Paulo mas não pode morar perto do serviço por conta da maravilhosa especulação imobiliária que ronda a capital. Nasci em uma família típica descendente de imigrantes italianos (metade de São Paulo é descendente de italiano né? Por isso falamos “bom djia”. O “J” vem de “bon giorno”), como todos os humanos (até o momento) nasci da cópula entre um ser de cromossomo XX e outro de XY, e para muitos desafortunados por aí, por um mero acidente, afinal, nasci em novembro, conte regressivamente o tempo de gestação de 9 meses e temos fevereiro, época de um dos maiores festivais nacionais: O Carnaval!
Sou resultado da cópula entre uma mulher dessa família descendente de italianos e de um homem de Pernambuco (peço desculpas por não conseguir ter uma árvore genealógica de origens paternas), que resultou no ser que voz fala, nascido no dia 17 de novembro de 1997 precisamente as 15h15.
Há uma história curiosa sobre o meu parto, da qual eu só posso confiar na referência extremamente verossímil da senhora detentora dos cromossomos XX, de que eu não nasceria por parto normal, de que ela supostamente não entraria em trabalho de parto, e teria de ser forçosamente retirado de seu ventre através de um estilete e de mãos enluvadas. Então no fatídico dia 17 de novembro, um dia marcado num calendário médico para um procedimento cirúrgico, eu fui tomado de assalto do ventre que me acolhia. Dizem que ao sair eu não chorei, apenas entreabri a boca numa expressão que poderia significar “que porra que eu tô fazendo aqui?”, ou simplesmente era meus músculos que não respondiam e minha boca só caiu, quem sabe. A questão é que eu só comecei a abrir meu berreiro quando a mão enluvada me virou de cabeça pra baixo e me deu um tapão na bunda. E eu que achava ruim acordar com um despertador, acordei pra vida com um tapa.
A partir daí o conteúdo é filler. Dizem que a gente só retém memórias a partir dos 3 ou 4 anos de idade, portanto só tenho fotos pra me basear. É costume nas famílias brasileiras de tirar fotos de baixa qualidade de bebês nus, geralmente jogados num lençol estendido na cama ou num tanque de água no quintal, no meu caso fui o felizardo de ter ambas. A senhora dos cromossomos XX, no auge dos seus 21 aninhos tinha uma expressão na foto como quem tá numa entrevista de emprego e o entrevistador peida e você é obrigado a continuar sorrindo enquanto o fedor entra no seu nariz. Foi a melhor analogia que consegui achar para essa expressão sem anexá-la de fato nesse documento, mas use a imaginação, bocó.
Minha primeira lembrança é meio controversa, mas me remete a uma vez quando eu tinha 3 anos e estava sentado no tapete vermelho dos meus avós brincando com uma bolinha de cor vinho, que eu tive por muitos anos. Brincar é uma palavra bem relativa, pois no caso eu segurava e olhava pra a bolinha, intrigado do porque ela era toda na cor vinho mas tinha um pontinho preto (que muito posteriormente descobri ser por onde as bombas de ar as enchem, mas minha cabecinha maquinante trabalhava pra decifrar o terrível mistério). Lembro de ver uma silhueta através da porta da sala, que era naquele vidro borrado, e senti um medo, um terror indescritível, lembro de congelar e deixar a bolinha cair quicando no chão (que devido a minha altura era o mesmo que colocar ela no chão e empurrar). A porta abria com tintilhares de chave e o barulho das rodinhas emperradas (era uma porta de correr) deslizando. Na meia luz, com uma cara terrível de acabada, parecendo um fantasma estava minha mãe. Lembro dela falando algo, soava ríspido, com meus avós que assistiam TV na sala, me pegar pelo pulso e me retirar do macio tapete vermelho. Não tive tempo de pegar minha bolinha, e ela me arrastava para casa.
Não sei quanto dessa memória está afetada pelas palavras que me ocorrem enquanto digito furiosamente, ou maculadas pelos tempos de degradação e reestruturação, mas vamos partir do princípio que ela é legítima e foi dessa forma que eu a vivenciei. Olhando pra trás, lembro do terror que sentia da figura de cromossomos XX, e posteriormente pude entender o que era aquela sensação de medo que me sondava, pois PASME, ela aconteceu algumas outras vezes: Eu era um veículo de uso. “Como assim Pedro?”, eu te explico caro leitor. Meus avós me adoravam, e ainda adoram, fui o primeiro netinho, quem não ia pirar nisso? Nasci de um acidente da filha instável e rebelde com uma idade tenra? Sim. Era menos bonitinho por isso? Sei lá. Mas a questão é que por sensação de dever ou apego, ou por simplesmente gostarem de mim (isso eu só posso teorizar sobre, desculpe) eu passava a maior parte do dia com eles enquanto minha mãe trabalhava, e quando ela chegava, fula da vida, ela tirava esse reforçador positivo das mãos de meus avós. “Vocês cuidaram dele, agora deixa eu levar o MEU filho embora”. Nesse sentido, com essa estratégia intermitente de reforçamento positivo (Skinner estaria orgulhoso, organismo de cromossomos XX!) meus avós atendiam demandas de dinheiro e de controle exigidas pela entidade conhecida como minha mãe.
Leitor, você deve estar se perguntando: Cadê seu pai nessa história? Bem, a primeira história que eu ouvi sobre dizia que ele havia ido embora e (insira aqui todos os adjetivos, pronomes e xingamentos que você possa imaginar por um intervalo de no mínimo 40 minutos, e não, não estou exagerando no tempo, talvez até sendo brando). Portanto, cresci acreditando que meu pai ausente havia me abandonado, de forma que eu deveria ser eternamente grato a entidade dos cromossomos XX por cuidar de mim, e logo internalizei a ideia de que meu genitor de cromossomos XY era um (insira aqui uns 15 minutos de xingamentos com silabas trocadas ditas por uma voz infantil).
Puxa vida, me toquei agora que faz duas páginas que tô falando dos meus 3 anos de idade. Foda-se, eu vou pular algumas coisas e resumir outras.
Genitora de cromossomos XX gritava muito, humilhava e tratava mal. O medo da figura da porta embaçada sempre foi perene em mim, e talvez por isso que eu tenha essa como minha primeira memória. Eu estou pra encontrar (ou não) uma pessoa que possa falar de forma ininterrupta e de tantas maneiras diferentes sobre o quanto ela odeia algo/alguém/um comportamento/uma série/uma banda (lista ad infinitum). Logicamente, como a criança esquisita e acuada que sempre fui, eu me policiei pra não despertar a ira da genitora de cromossomos XX, e dessa forma evitar as supracitadas humilhações e a sensação de que eu não poderia conter a enxurrada de xingamentos e falação que viriam de sua insatisfação, ou podemos chamar pelo nome popular: Menino comportado.
Claro que eu cagava no pau as vezes né, ninguém é de ferro, mesmo as crianças mais inibidas. Lembro de uma vez icônica que a entidade de cromossomos XX estava me dando comida na boca, um macarrão com molho vermelho. Estava muito quente e queimava a língua. Minha ideia infantil era deixar o macarrão assentar um pouco na boca com saliva para que fosse possível engolir. A entidade de cromossomos XX estava impaciente, ela falava sobre alguma desavença sua no trabalho, e as garfadas vinham sem muita atenção, as medidas que caberiam na boca de uma criança e sobretudo a temperatura do conteúdo. A situação descambou na minha estratégia da saliva, pois quase que instantaneamente outra garfada impaciente tocava meus lábios. Temeroso de despertar a ira da entidade de cromossomos XX e seu garfo de plástico, relutante eu abria a boca para mais uma rodada de macarrão quente que se misturaria ao meio mastigado que estava na boca e não tinha sido engolido. Bem, não preciso me aprofundar mais nos detalhes, acho que deu pra pegar bem a ideia, de que a situação virou uma bola de neve muito rápido, e aquele bolo de comida entalou na minha garganta. Contra todas as minhas vontades de desencadear a fúria da entidade de cromossomos XX eu, com lágrimas nos olhos do calor e do enjoou, não me contive e vomitei no prato e na entidade. O que se seguiu a partir disso foi uma experiência que ficou marcada no meu cerne até os dias de hoje. Deixei de sentir o enjoo, a boca queimada e ardente, e a sensação de mal estar absoluto que a bile subindo a garganta causou. Eu só lembro do olhar que a figura de cromossomos XX me deu, frio, incrédulo, raivoso. Ela segurou o olhar sem dizer nada por segundos que pareceram uma eternidade, e culpado e tendendo a não despertar mais ainda a fúria dessa figura tão aterradora eu fiz o que me pareceu mais lógico no auge daquela tenra idade: A figura quer que eu coma a comida, ela vai ficar desapontada se eu não comer, eu ainda posso consertar esse deslize meu e evitar sua ira, eu sou um menino comportado. Então com os dedos em pinça eu comecei a pegar os pedaços de macarrão triturados do prato, meio vomitados, colocar na boca e mastigar. Eu era um bom menino.
A figura me assistiu, impassível, até eu mastigar três pedaços de macarrão vomitado, até que no terceiro, por fim, ela me pegou pelo pulso e me arrastou pelo chuveiro. Cabe dizer que ao bom menino que vos fala, que esta também é a lembrança do meu primeiro banho sozinho. Bem, se você contar a intromissão a cada minuto da figura de cromossomos XX no banheiro, pra ressaltar pela centésima vez o quanto eu tinha acabado com o dia dela, talvez não tenha sido tão sozinho assim, mas pelo menos eu me lavei direitinho, e era o que um bom menino faria. Era minha culpa estragar o dia da figura de cromossomos XX, e o mínimo que eu podia fazer era me limpar, sozinho.
Eu queria dizer com toda essa breve introdução que Freud, meu amigo, você estava certo!
Mentira, não era isso que eu queria dizer. Mas sim de que minha genitora de cromossomos XX sempre fora a representação daquela figura na porta de vidro embaçada: Uma figura que deixava a criança curiosa com o idiota do pontinho preto na bolinha vinho em completo terror ante a ameaça de desapontá-la ou provocar sua inevitável ira.
Parece história de psicopata né? Você deve estar esperando pra ouvir onde eu guardei os corpos, ou se tenho minha mãe embalsamada num porão onde ainda vou lhe prestar homenagens esporádicas com o sangue das vítimas, mas sinto em te desapontar, eu anunciei que esta era uma história de mediocridade, então talvez o ponto alto seja esse, sinto muito.
Dessa forma, podemos quebrar todas essas metáforas e palavras que vem e que vão em conceitos mais palpáveis: A questão é que eu aprendi a viver de forma inibida com a constante expectativa de um evento aversivo inevitável, que por reforçamento foi assumido como culpa minha. Dessa forma, aos olhos dos estranhos eu era uma criança extremamente boazinha e comportada.
Lembro de um caso bem explícito sobre essa criança comportada que eu era, quando estava na rua com minha genitora e ela fumava um cigarro e me fazia andar saltitante com minhas curtas pernas tentando acompanhar seus passos apressados, segurado pelo pulso. Ao longe ela avistou uma amiga da rua, e como naqueles memes do facebook, ela parou pra conversar. Lembro de estar cansado, eu tinha ganhado um tênis que pisca quando você anda, que impressionantemente tinha boa parte da verba do design destinada as luzes que piscam e poucas ao solado, e meus pés doíam. Ao parar para conversar com essa amiga meu pulso marcado foi solto, e a conversa começou. “Como vai menina?!” pra lá, “Jura que o Marcos fez isso?!” pra cá, e os minutos foram se transformando em casas decimais. Lembro de puxar suavemente minha mãe pela camisa e murmurar “mãe, podemos ir pra casa?”. Não recebi respostas, mas a mão estática que segurava o cigarro ajustou seu ângulo para trás, e a ponta tocou meu braço. Não sei se foi intencional, posso estar sendo extremamente tendencioso, mas a coincidência é bem esquisita, não acha? No momento de perguntar se podíamos ir embora, a entidade de cromossomos XX que normalmente viraria e num tom ríspido falaria “Não me enche o saco, faz muito tempo que não vejo a (insira um nome feminino aleatório)“ em silêncio simplesmente ajeitou a posição do cigarro, e, discretamente me queimou com sua ponta. Claro que eu entendi o recado: O tênis de luzinha que machucava o pé tinha sido uma decisão minha, assim como as consequências das dores no pé, e eu era um estorvo. Como um bom menino eu me silenciei e esperei a conversa terminar, com o braço ardendo.
Queria fazer um pequeno adendo, que apesar de todas essas situações supracitadas, eu não necessariamente odeio a minha genitora. Já odiei, por vários anos, mas hoje a reconheço como uma pessoa difícil, com problemas, e sem experiência, tanto de vida quanto com crianças. O Pedro de 21 anos com um bebê no colo o jogaria pela janela, e o Pedro de agora também. Com a escolha consciente eu não quero passar minha linhagem para frente, para que seja tirada de assalto de um ventre do qual não queria sair, como no curioso caso de meu nascimento, para viver uma vida que não pediu, e ter de ser grata a ela, por narcisismo meu numa fantasia de eternidade. Prefiro encerrar minha história medíocre como o último de meu nome, e está tudo bem com isso.
Quando comecei a frequentar a escolinha eu sempre fui a atração da turma. Era super animado, divertido e engraçado, o palhação da turma. Lembro de um dia que a professora Edna (um amor de pessoa), na primeira série, que adorava (e odiava) meu jeito agitado de ser, me emprestou seu avental e me pediu para ir até a sala dos “grandões” (quarta série) explicar como tinha sido o passeio da escola. E admito, por mais necessitado por atenção que eu fosse, até isso era intimidador demais, e eu fiquei roxo de vergonha e não fui.
Lembro de ter diversos talentos que eram legais pra minha idade: Era uma criança curiosa, adorava assistir o Discovery Channel alternado com meus desenhos do Cartoon Network, gostava muito das aulas de ciências, e era fanático por Hot Wheels e por desenho. Eu gostava de desenhar carros, e meu melhor presente até hoje foi uma caixa de lápis Faber Castell aquarelável de 48 cores (saudades inclusive). Meu sonho era ser um mecânico que tunava carros, e eu desenhava meus projetos idealísticos e cheios de caneta gel glitter nas folhas dos cadernos e nas sulfites soltas que achava pela casa.
Lembro que ante a esse fanatismo por desenho eu fui intimado pela entidade de cromossomos XX a usar menos folha, porque “dinheiro não dava em árvore”, e tive de começar a desenvolver técnicas pra gastar menos papel pra desenhar, dessa forma eu usava frente e verso das folhas, consequentemente com menos caneta gel, senão furava a folha.
Nesses anos primevos de primeira a quarta série eu fui muito bem em todas as matérias, tinha uma relação boa com minhas professoras e com minha escola, participava das festas juninas e ganhava vários prémios legais na pescaria. Dançava aquela música do cowboy do “quem gosta de rodeio bate forte com a mão” e tudo mais, era um barato.
Bem, talvez não fosse um barato, sei lá, mas meus olhos cansados de adulto olham com saudosismo pra simplicidade desses tempos, pras cartinhas de yugi-oh e de Pokémon, pras beyblades do camelô, e pros pirulitos dip-link que eu comprava na doceria perto da escola, no gelinho sabor “azul” e nos chicletes com tatuagem. Era legal, apesar das diversas cáries que eu peguei.
Na quinta série fui pra uma escola maior, onde tinha uma professora para cada matéria e eu ficava com 45 outras crianças na sala de aula com carteiras numeradas. Não tinha mais desenhar na lousa ou falar alto com o amiguinho do outro lado da sala, o que foi uma perda grande. E aparentemente havia competidores na idealização de ser as pessoas irreverentes da turma, os descolados, que era meu posto quase incontestável na primeira escola.
Nesse sentido, comecei a buscar outras formas de me destacar. Uma vez levei minha coleção completa de figurinhas de pokemon num fichário, cada uma colocada e organizada por ordem de evolução nos seus respectivos plastiquinhos. Tinha muito orgulho dela. Mostrei para os meus amiguinhos de sala. Quando voltei pós intervalo tinham roubado meu fichário, e eu não falei nada pra ninguém. Quando cheguei em casa e contei, minha genitora diz: “bem-feito, não deveria ter levado”. E novamente, a culpa era minha, e como um bom menino eu me convenci de que Pokémon não era tão legal assim.
Minha vivência escolar não foi tão impactante assim, não tenho grandes histórias como pular muro da escola ou colocar suco tang na caixa d’água. Foi medíocre, regular. Me acostumei a ser invisível, e incrivelmente as figurinhas do Pokémon me ensinaram que eu deveria ficar em silêncio sobre minhas preferências. Lembro que quando decidi isso, um menino me dava reguadas constantemente, e eu nunca o revidei, até que um dia o empurrei na parede quando não aguentava mais, e coincidentemente a professora me viu. Novamente, minha culpa, eu não deveria ter reagido, culpa minha, prometo que vou ser um bom menino.
Talvez meu maior holofote e humilhação tenha sido um concurso que teve na escola de Miss e Mister, onde a sala elegia duas pessoas, um menino e uma menina para desfilarem na frente da escola toda, para que os professores jurados decidissem quem ganharia. Bem, no meu caso, incrivelmente eu me candidatei e fui escolhido, talvez para passar vergonha, eu não sei ao certo. Eu era uma criança gorda, e isso era uma coisa importante quando se tem 12 anos de idade. Portanto parti para o desfile, peguei minha melhor camiseta que no caso era emprestada do meu tio André, que era a melhor representação de figura masculina que eu tinha e de fato produzi uma linda faixa escrito Mister 5ªH numa tira de tecido TNT. Parti para o desfile, subi ao palco com minha coleguinha, andamos de mãos dadas, e quando olhei pra baixo, esperando ver aquela validação, vi meus coleguinhas de sala gargalhando e apontando pra mim. Realmente, fui escolhido por ser gordo. Culpa minha, se expor nunca dá certo, prometo ser um bom menino no futuro.
Cansado de ser o menosprezado, e como diria algum pensador aí, sei lá quem, “o sonho do oprimido é se tornar o opressor”, então já cheguei na 7ª série naquele pique. Zoar? Chamar de gay? Xingar o pai, a mãe? Era minha praia. Eu era um bully, mas de palavras e humilhação. Atazanei tanto um menino que um dia ele levantou e me socou no rosto. Tinha um outro garoto que o zoava também, e ele estava sentado comigo, mas a agressão foi pra mim, acho que tive boas referência de como diminuir alguém, sei lá. Não revidei, eu estava errado, revidar é ruim. Eu devia ser um bom menino e não estava sendo, falha minha.
Cheguei no ensino médio e a minha genitora tinha sido internada por dependência química. Eu desejava receber a notícia da morte dela todos os dias, esperando que isso me aliviasse do fardo que eu carregava, mas isso nunca chegou, e eu sou grato aos delírios hormonais que passaram e me trouxeram culpa por pensar nisso. Lá estava eu, e garotas eram meu novo foco (spoiler pra frente, depois eu descubro que gosto de garotos também), quem sabe um relacionamento me ajudaria a me destacar, ser querido? Tava na cara que eu não era uma figura pública, depois de ir pra uma escola grande percebi que eu não tinha o carisma pra ser o queridinho da turma, e quando fui pras garotas percebi que eu não tinha o carisma pra ser um namorador. Pelo menos eu tinha, sei lá, League of Legends? Não que seja uma boa coisa, longe de mim, mas pelo menos dava pra passar um tempo com gente, e era legitimamente bom.
Minha primeira namorada foi uma menina da escola, que só virou minha namorada quando saiu da escola, no caso. Ficamos num vai e vem muito tempo, e realmente, eu não era muito desejável, não acho que seja culpa dela. Se aparência não era meu forte, nem o carisma, talvez meu coração? Sei lá, sensibilidade? Também não sei o que ela viu em mim. Talvez tenha sido pena? Enfim, ela foi a primeira garota que legitimamente foi gentil comigo naquela escola, e para alguém desesperado por validação como eu estava, isso era maior e melhor que qualquer outra coisa. Eu estava sedento, apaixonado, perdidinho de amor. Trocávamos mensagem, conversávamos noites, e era bem legal. Quando ela se mudou pro interior começamos a web namorar, mas nos víamos esporadicamente. Claro, na frequência que dois adolescentes sem dinheiro conseguiam, que é mais ou menos 3 meses. Durou 2 anos nosso namoro. Terminamos pois ela já não preenchia esse meu vazio, a atenção já não me era suficiente, comecei a cobrá-la de muitas coisas que ela não tinha o dever de me dar, afinal, ela não podia suprir tudo que eu precisava, e não podia ser o centro do meu mundo, né? Falha minha. Relacionamentos também não eram minha praia. Eu não era um bom garoto, sempre cagava no pau. A culpa é minha, vou tentar melhorar.
Nesse período descobri algo que me deixava animado, como os desenhos de outrora: Escrever. Descobri no mundo da escrita uma liberdade de expressão de coisas que eu nem imaginava que existiam comigo, descobri que poderia escrever sobre universos que só existiam na minha cabeça, e viajar numa imaginação que eu só via ilustrada em desenhos infantis, mas nunca tinha sentido de fato. Era sentar no computador com uma xícara de café quentinha e vomitar um textão maneiro com uma imagem de fantasia daora pra acompanhar. Juro que eram mais poéticos que isso, mas bem menos pessoais. Não se pode ter tudo na vida né? Escrever, ao mesmo tempo que era incrível, se abriu para uma coisa que eu não esperava encontrar. Sabe aquele vulto na porta embaçada? Não necessariamente a pessoa minha mãe, mas aquele terror ante a uma figura humana sem forma, um julgamento, um conceito que vinha com aquela imagem: Aquilo pra mim representava toda essa cobrança, todo esse imperativo de se reprimir, de ser um bom menino, de me calar, de guardar. E bicho, coisa guardada uma hora sai.
Eu passei gradativamente a escrever menos fantasias incríveis com torres voadoras e cada vez mais mergulhar nessa repressão e nesses sentimentos intocados, os textos ficaram intensos, pessoais demais, e a única coisa que me ligava com a fantasia eram as metáforas, onde pra falar de mim eu usava um eu lírico de um lobo negro de olhos amarelos andando por uma floresta soturna. Eu me rasguei nesses textos, esvaziei como um balão furado, soltando fagulhas daquilo que estava bem guardadinho dentro de mim. Gritei por texto, espanquei o teclado em fúria enquanto escrevia, digitava absorto, imerso, maníaco. E assim se seguiu até os dias de hoje. Não consigo escrever sobre mais nada que não sobre mim. Talvez seja mais fácil que falar, que se destacar, que se fazer ouvir. Aqui tá escrito, aqui você segue meu ritmo, pela norma da língua portuguesa para quando eu mando você parar com uma vírgula, viu, tipo agora. Dessa forma eu posso me expressar da maneira mais genuína possível, numa linguagem neutra e que todos que leem devem o fazer da mesma forma. Aqui eu posso tagarelar sobre escrever um texto dentro de um texto, e tá tudo bem.
A questão é que eu nunca soube lidar com esse recém-descoberto “sentimento”. Nunca soube lidar com essa sombra, como colocaria sabiamente o Jung, que espreitava no meu cerne. O que era essa constante busca por aprovação? O que era esse vazio? O que eram esses sentimentos de êxtase seguidos de uma baixa extrema? O que era esse júbilo e esse inferno, as torres voadoras com frutos mágicos e o lobo soturno que fazia metáforas existencialistas numa clareira a meia luz?!
Fui, consequentemente, jantado por esses sentimentos. Surgiram hábitos disfuncionais, como beber e eventualmente fumar, matar aula, vadiar, me masturbar compulsivamente. Eu sempre fui a piada da minha família, era filho da ovelha negra, então imagino que as expectativas sobre mim nunca foram as mais altas. Saí da escola e entrei num cursinho, desesperançoso com o futuro, sem perspectivas de carreira. Não sabia o que eu queria fazer, e o que me movia pra frente era um único desejo “eu quero levar uma vida tranquila”. Vida tranquila pra mim significava ter dinheiro, então achei que eu queria ser médico.
Naquela época eu ainda acreditava numa falácia que eu tinha contado pra mim mesmo: “eu vivi uma vida difícil, com uma mãe viciada em drogas e agressiva e violenta pra aprender a cuidar dos outros. Eu vivi minha vida para ficar forte e resistente, e quem cruzar meu caminho não precisar viver algo parecido”. Não preciso nem dizer quantas falhas tem nessa frase né? Só de escrever já me parece absurdo. O que eu sou? Um messias? O expurgador do pecado da humanidade? Se toca Pedro adolescente, a vida não é assim não meu chapa.
No cursinho eu me percebi sem muita vontade de estudar, puta negócio chato do cacete. Eu curtia vadiar, tomar café barato na cantina e bater papo com as pessoas realmente legais que tinha no cursinho. O clima era mais adulto, você podia sair da aula quando queria, não precisava pedir pra ir dar uma mijada, e a galera era mais cabeça, então era legal, eu curtia muito o ambiente. Mas reconhecendo minhas limitações e entrando em contato com pessoas que queriam cursar medicina e estavam perdendo os cabelos no 5º ano de cursinho pra passar, eu desisti na hora. O que eu ia fazer da vida? Sinceramente, meu desejo era fazer igual aquele filme com a trilha sonora do Eddie Vadder, como era mesmo? Natureza Selvagem? O cara queima o dinheiro dele, sai andando no Alaska pra buscar o significado da verdadeira liberdade e acaba morrendo envenenado num ônibus no meio de uma geada. Parecia perfeito, curtir e morrer jovem sem ter o nome sujo na praça.
Mas como falta coragem nesse que vos fala, eu abaixei os padrões em questão de notas e pensei em cursar psicologia. Um adolescente fodido da cabeça, problemático, que nunca tinha feito terapia e tinha ideias absurdas de dobrar colher com a mente (a ultima parte é só um chiste) indo pra um curso idealizado e não conhecido, qual era a chance de dar bom?
Eu digo: Alta. Deu bom mano, eu vou me formar ano que vem. Achou que vinha outra merda? Hoje não meu parceiro, tem algumas coisas boas na minha vida também, e a faculdade foi uma feliz surpresa pra mim. Me apaixonei pela psicologia, ela é incrível, linda, maravilhosa e cheirosa (pelo menos na imagem mental que tenho dela). Mesmo sendo um vagabundo no cursinho eu passei pelo prouni na melhor faculdade de psicologia do país, a PUC-SP, puta lugar FODA, acredite, e esse é um dos poucos ganhos da minha existência do qual realmente tenho orgulho de dizer que fui eu que fiz e foi mérito meu.
Faculdade, vida nova, estudando em Perdizes com a elite financeira de São Paulo. O que podia dar errado? Literalmente tudo. Acabou as partes felizes do texto, sinto muito. Passar na faculdade foi bom, ficar nela foi uma merda. Não digo pelo curso, eu legitimamente AMO a psicologia, acertei em cheio na escolha (as cegas e se propriedade, totalmente impulsiva) da graduação, mas na prática a teoria é outra: Faculdade de elite, meus colegas de classe todos alunos do São alguma-coisa, escolas fodas de São Paulo, que custam uma fortuna, muito crânios, iam pra europa nas férias, falavam de rolê internacional como se fosse ir no shopping. Eu, habitante da grande São Paulo, não necessariamente pobre mas longe de ser rico, sem nenhum contato com desigualdade social porque né, a maioria dos habitantes daqui tá na mesma, e meus círculos de convivência eram bem homogêneos nesse sentido. Fui aprender o que era “pão e circo” no cursinho, e fui correndo contar pros meus amiguinhos de curso como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Recebi olhares do tipo “a gente aprende isso na 4ª série cara”. Desprezo. Culpa minha, já aprendi que não posso tentar me destacar. Cadê o bom menino?
Entrei em parafuso, seja pela graduação que tava puxada, por sentir que eu não pertencia a aquele ambiente de elite e não merecia estar ali, pelo desgaste das longas 2h30 que eu gastava até a universidade para ter um curso integral, pegando horário de pico insalubre, etc. Me peguei completamente surtado no final do primeiro ano de graduação, excruciantemente massacrado por aquele vazio dos textos, supracitado. Eu legitimamente queria fugir e sumir igual o filme do cara que morre no ônibus, e eu num acesso de impulsividade tranquei a faculdade.
Agora que a merda é jogada no ventilador meu parceiro, segura as pontas que vamos mergulhar.
Tranquei a faculdade com a ideia de que eu iria experimentar coisas, cozinhar, fazer cursos, blá blá blá, mas o que aconteceu de verdade no ano que fiquei fora da graduação foi o seguinte: Fiquei BASICAMENTE deitado na minha cama, olhando pro teto, moribundo e completamente consumido por esse vazio e a deriva no meu próprio desespero. Busquei terapia nesse meio tempo, mas não bati o santo com a terapeuta, e saí de novo, um horror. Foi um ano que passou como uma eternidade, olhando pro teto, com as costas doendo de tanto ficar deitado, comendo pouco ou quase nada, e simplesmente existindo.
Numa epifania, exatamente na qual eu tranquei a faculdade, eu reabri minha matrícula, plau, tava inscrito de novo. Eu tava sofrendo mais parado em casa do que na PUC, então bora pra PUC de novo, mas dessa vez decidi que ia ser diferente, que ia tentar ser low profile, que ia ficar na miúda. Várias experiências da minha vida me mostraram que ser visto é sinônimo de agressões externas e humilhação, então minha maior estratégia seria voltar e ficar na encolha, não ser visto por ninguém, entrar mudo e sair calado.
Ironicamente essa foi a estratégia que mais deu certo, porque logo na primeira semana já estava conversando com várias pessoas na sala, que me acharam tímido e vieram trocar ideia comigo, que maravilha! Deu certo pra cacete, caladinho, bancando o tímido que na verdade era só alguém com pavor crônico da rejeição alheia eu consegui conversar com pessoas!
Pô, agora parece estar rumando para um final feliz né? Não, não está. Vou me resumir bem resumidinho, e vai parecer uma piada comparado com a quantidade massiva de texto até o presente momento, mas segue aqui:
Conheci uma menina que conseguia ser mais da elite que muitas pessoas da PUC, o pai era dono de uma pedreira foda, ela morava na região mais nobre da Paulista, o pai tinha sido prefeito de uma cidade do litoral (não vou citar nomes pra evitar exposição), endinheirada até o talo. Ficamos muito amigos, demos vários rolês juntos, e longa história curta, ela me odeia e me ameaçou de morte e usou toda a influência dela pra me queimar na faculdade.
Uau, isso ficou muito resumido devido a quantidade absurda de detalhes e firulas que eu escrevi até agora né? Ainda mais pra um negócio tão importante, mas sinceramente, tudo que você precisa saber está contido no parágrafo anterior. Pessoa rica e influente, baixíssima tolerância ao estresse, problemas amorosos externos que tive participação, ódio, influencia usada para me queimar por todo o campus da PUC a ponto das pessoas torcerem o nariz ao me olhar e eu estar fadado pra sempre a fazer trabalho de grupo sozinho, etc.
Nesse momento, eu nunca tinha tido um ataque de pânico na minha vida. Se um trouxão da internet ameaça te matar você pensa “preocupante, mas foda-se”, agora uma pessoa rica, influente, com pedreira, ex prefeito e o escambau, não te ameaça na sua cara, mas os amigos dessa pessoa (que também te odeiam) ficam preocupados e vem te contar que ela quer contratar alguém pra te matar, aí parceiro, aí é terror na certa. O que uma pessoa dessa faz com um fodido como eu? Sabe meu endereço, tem dinheiro e motivação. Dois palitos pra dois jagunços me pegarem e me desovarem ali na Serra da Cantareira pra eu nunca mais ser achado.
Nesse momento eu comecei a ter um terror de frequentar a universidade. O local que já era aversivo por si só, pronto para me lembrar de quanto eu era pobre e fodido e não merecia estar ali agora tinha protagonistas ativamente fazendo com que eu não me sentisse querido naquele lugar. Todos do campus me odiavam, me olhavam torto e me maltratavam, e o lugar que era metaforicamente hostil se tornou hostil de fato, e eu comecei a ter ataques de pânico ao pisar pra dentro da faculdade. Eu suava frio, coração palpitava. Tinha dias que eu sentava no primeiro banheiro que tinha próximo a entrada e começava a chorar, e ficava o expediente todo chorando.
Não deu outra, eu corri pra um psiquiatra, disse tudo que tava rolando comigo e ele me receitou antidepressivo e um Rivotril sublingual pra quando eu tivesse um ataque de pânico. Pedi uma receita, fui na secretaria da faculdade e tranquei o curso uma segunda vez, 6 meses depois de ter retornado, pronto pra uma nova vida. Quer moleza mastiga água né?
Fiquei 6 meses em casa de novo, completamente paralisado de terror e cada vez mais consumido por aquele vazio que me sondava desde a adolescência. Quisera eu dizer que fiz algum progresso, mas eu estaria mentindo. Surtei num dia e joguei meus remédios na privada e dei descarga, abandonei a terapeuta, e mais do que nunca nesse momento estava sendo atormentado pelo fantasma da morte, me chamando, com uma voz bem sedutora.
2019, vida nova, retornar para a faculdade. Não vou cometer o mesmo erro, dessa vez não vou falar com literalmente ninguém. Vou pegar uma matéria em cada turma pra não ter que ver as mesmas pessoas mais que uma vez na semana, serei um fantasma. Plau, a menina que me ameaçou de morte como monitora de turma. Puta que pariu, eu nunca vou ter paz na vida, eu tenho certeza disso. Lutando contra todos os fantasmas e medos que me assombravam, eu deixei a história a par pra pessoas de confiança, caso algo me acontecesse eles saberiam o que rolou e possivelmente eu seria vingado num tribunal (claro que sim, um zé ninguém contra uma pessoa extremamente poderosa, no máximo ia ter uma multa e você ia estar picotadinho na Cantareira ou passando no Datena, seu imbecil). Ano correu até que bem, comecei academia no meio do ano, voltei pra terapia, tudo tava na moral, até com namorado novo eu estava, amigos pra ver todo fim de semana, viagens esporádicas. Foi um ano bom, legitimamente.
2020, pandemia, trancado em casa sem tomar sol, recaída terrível no vazio que me sondava. Medo, pavor, gente morrendo a torto e a direito, negligência, Bolsonaro genocida na presidência. Não tinha como ficar radiante também, convenhamos. Mas no meu caso, o isolamento me massacrou de uma forma que eu não achei ser possível. Era uma lenda que eu tinha contado pra mim mesmo, de que eu era low profile, que era reservado, que não precisava das pessoas. Cara, interagir com gente dói, mas eu não sou nada sem outras pessoas. Fechado comigo mesmo só a perdição me aguarda. Eu só existo no outro, pra mim eu sou o pior ser que existe, e conviver só comigo, fechado por 2 anos me foi terrível.
Piora vai, piora vem, estamos aqui, momento atual.
Queria fazer um pequeno adendo, eu prometi que esse texto não teria final feliz, e eu fui meio verdadeiro nesse sentido. Na verdade esse texto tem dois finais, dependo das minhas atitudes que se seguirão posterior a ele. Há dois momentos que você pode acabar lendo esse texto: Ou você está chorando (ou comemorando) porque eu deixei de existir, ou você deu algumas risadinhas no meio porque eu ainda estou por aqui e tive coragem de te encaminhar tudo isso.
Queria dizer que esse texto pode funcionar tanto como um testamento quanto como uma carta de recomeço, eu não sei dizer ainda, o futuro é muito incerto.
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Caro Leitor,
Queria dizer que se esse for um testamento, seu título, “agradecimentos finais” é irônico. Não agradeço bosta nenhuma. Tirando alguns gatos pingados que foram excepcionalmente incríveis na minha vida e fizeram tudo isso valer a pena, até certo ponto. Se esse for um testamento, quero que saibam que vocês não têm culpa de nada. Pensem no Pedro que não queria sair do útero e foi obrigado a existir, arrancado com bisturi e tomando palmada, finalmente tomando uma decisão por conta própria sobre essa existência compulsória.
Por longos anos fui um sujeito que raramente experimentou a estabilidade, tendo como constância na vida um sofrimento indescritível. Não me entendam mal, tem gente que supera isso, eu sei que é possível, eu sei que é viável, mas se eu não tiver mais por aqui quando você estiver lendo, saiba que eu só me cansei, cansei de me debater, de me sacudir, de nadar contra a corrente. Só fui descansar, e é isso.
Aos que deliberadamente se esforçaram pra tornar minha vida pior ou excessivamente mais difícil que o normal. Aos que cagaram na minha cabeça, me maltrataram e fizeram eu sentir que tudo que acontecia era culpa minha: Eu não me matei, VOCÊS me mataram. Não individualizem esse momento, não me culpabilizem, nós vivemos num mundo material, vocês contribuíram pra isso, seus lixos. Vivam com isso, chorem por isso, eu não me importo, porque se você leu isso no contexto certo, eu não tô aqui pra me importar.
Foram vocês que me mataram.
Agora pra atenuar o clima, se você leu até aqui e eu ainda existo e te encaminhei isso, não foi algo que encontraram no meu computador antes de um suposto velório, parabéns, eu ainda existo, yay! Não posso dizer que a vida é boa, mas se isso chegou até você através das minhas próprias mãos, eu tomei coragem pra tentar encarar, mais uma vez, esse vazio que me sonda, no maior espírito brasileiro de sofredor convicto. Não posso dizer que a vida é boa, não posso dizer que eu tenho esperanças, não posso afirmar nada do tipo, mas como os drogadictos dizem: “um dia de cada vez”.
Eu estou disposto a continuar tentando. Não prometo nada a longo prazo pois o futuro é cheio de incertezas, mas se ainda estou por aqui significa que por hoje, eu venci, e só isso é um momento pra celebração.
Agradeço por todo o carinho e amparo, a minha terapeuta e ao meu psiquiatra, e aos meus amigos e familiares, se eu estou aqui é com a ajuda de vocês, e se esse for o final correto do texto, agradecimentos finais, como num trabalho acadêmico, é para vocês.
Obrigado por tudo, inclusive por ler minhas baboseiras por tanto tempo.