Pode até não parecer, mas eu gosto da chuva.
Gosto da chuva da manhã, aquela que pega todo mundo desprevenido, que faz o dia vestir um casaco de fim de tarde.
Gosto da chuva da tarde, que refresca o clima, silencia a pressa e faz a tarde parecer noite.
Gosto da chuva da noite, que abraça a gente como um cobertor fofinho, embalando os pensamentos até eles adormecerem.
Ah... mas é da chuva da madrugada que eu mais gosto.
Você quase nunca a vê. Na maioria das vezes, dorme enquanto ela acontece. Às vezes, apenas a ouve entre os sonhos. Outras, sente um cheirinho perdido tocar os seus sentidos.
E, quando amanhece, ela já foi embora, mas deixou pequenos bilhetes por toda parte: o céu, às vezes azulzinho, às vezes coberto de nuvens; as plantas exalando um perfume e brilho vivo; a terra molhadinha; os raios de sol dizendo: "Estou aqui, mas hoje não quero te incomodar."
É essa chuva que faz a manhã parecer mais leve. Uma leveza que tem cheiro de terra molhada e gosto de recomeço. Como se a madrugada tivesse lavado o mundo em silêncio e deixado, sobre tudo, uma fina camada de esperança. Como se a esperança também soubesse chover durante a madrugada.