Não estava mais acostumada a ter inúmeras pessoas ao seu redor, não estava. Sentia-se deslocada, incomodada, querendo rastejar para fora da sua própria pele e voltar para um cantinho escuro, encolhida e junto das lembranças, as quais tanto lhe atormentavam. Ou ser enviada a uma missão para exterminar os infectados das proximidades. Veja bem, passara dois anos inteiros vagando sozinha, sem ouvir ao menos o som da própria voz, sobrevivendo de atitudes inimagináveis. A sua luta agora era consigo mesma, em busca de redescobrir quem era. Mas como poderia? Quando somente ao fechar dos olhos, as imagens da última vez em que viu a sua filha repetiam em sua mente — os olhos sem vida, a boca ensanguentada, manchada com a carne do rosto da falecida esposa. O único momento onde conseguia esquecer, era quando conversava com Astoria, quando sentia o seu toque, quando se perdia em seus olhos. A mulher era a única com quem conseguia trocar algumas palavras, mas ainda estava em um processo. Eventualmente, iria conseguir evoluir e ter um diálogo normal com os outros campistas, ou era o que gostava de acreditar, embora alguns a evitassem.
Precisou ir à cozinha sozinha naquele dia, Murdoch ocupara-se com os conselheiros, estudando alguns planos de estratégia. Agradeceu mentalmente pelo local não estar cheio, a íris esverdeada estudava as frutas expostas e limpas, as mãos enfiadas dentro do casaco hesitavam em pegar uma para si, acabando por desistir após dois minutos de indecisão, por não ter certeza se estava permitida fazê-lo. Assim que sentou-se na mesa, foi surpreendida pelo barulho de uma faca cravando sob a madeira. Subitamente, conjurou nos traços faciais uma careta; não estava assustada, no mínimo confusa. As sobrancelhas franzidas, maxilar travado e nos lábios, se formavam quase que um biquinho emburrado. Apoiou as duas mãos sobre a mesa, levantando-se lentamente para ficar na mesma altura dx garotx, mantendo os olhos dx mesmx em sua mira tempo o suficiente para não desviar. “Não te devo uma explicação” retrucou num tom firme. Ivy conhecia x garotx de vista, já tinha percebido a sua proximidade com Astoria, mas não entendia a curiosidade em saber o que andava fazendo com a mulher, e nem por quê precisava lhe dar satisfação. “Era uma mesa muito bonita, você a estragou”
O sangue francês queimou em suas veias, quem ela acha que é? era tudo que passava na cabeça de Pierre quando recebeu tamanha afronta, o que seria natural levando em consideração a ação do outro, mas ninguém deve contar isso prx francesx. Numa primeira tentativa um pouco falha, tentou agarrar a faca novamente da mesa, que por conta da pouca força que aplicou, teve que ter uma segunda tentativa, arrancando o instrumento de trabalho da mesa de madeira e apontando para a outra pessoa - Salope! Qui pensez-vous que vous êtes? -. Resolvendo por fim abaixar a faca, talvez chamar a outra de cadela foi um pouco longe demais pra uma primeira aproximação, respirando fundo fechando os olhos por segundos, voltando a encarar a moça e apontar a arma branca, com expressão séria -A mesa supera. Eu apenas quero ter certeza que você não vai levar Astoria pro mal caminho, não tenho costume de confiar na primeira pessoa que passa naquele portão.