Têm dias que, simplesmente, é muito difícil sair da cama. O apego do meu corpo a ela é tanto que acabo prolongando a estadia; o que me custa, obviamente, taxas e juros extras. É como um vício, uma dependência. Acabo morrendo um pouco mais a cada minuto, mas é terrível ficar distante dela. Agarro-me aos travesseiros, ao cobertor, reviro-me de um lado a outro, e não a deixo. Que criatura mais fiel; será? O meu estômago vazio revira, dolorido, não lhe dou atenção. Hoje foi um desses dias difíceis. Lutei arduamente para sair, espreguiçar-me, iniciar o dia mais cedo. Nem sempre a insônia surrupia a noite, ainda que seja uma ladra na maior parte do tempo. Prolonguei, estendi o tempo na cama. Uma vadia muito aconchegante. Penso que o meu “empreendimento autônomo” favorece o meu descaso com a vida. Não há ninguém, sequer um despertador, para me impulsionar a ir a qualquer lugar que seja. No entanto, há tarefas a serem concluídas. “Você é fotógrafa, têm fotos para entregar.” “Ah, é!”. E lá vou eu, desempenhar um esforço tremendo para colocar os pés no chão, espichar-me feito espiga para longe de quem desejo, e manter o corpo moído empertigado durante o resto do dia para, à noite, encontrar-me com minha amante: a insônia. A cama não reclamará se, como de costume, atrasar-me com ela também.