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Na meia-noite de uma quinta-feira, Fênix, a mulher sombria, olhava pela janela com seus olhos escuros, quase como desvinculados da vida. Percebeu ela que um carro, ainda distante acabara de entrar na pequena vila de Cosmus. Ao veículo se aproximar da velha cabana, lia-se claramente na lateral do carro as siglas ‘DN’. A estranha mulher correu em direção a porta da casa, girou a maçaneta com cuidado, como se não quisesse assustar o silêncio absoluto. Abriu a porta e rapidamente, arriou-se ao chão pegando apenas uma bolsa que se encontrava ao lado de fora da casa. Correu em direção ao um lago, próximo a casa e nesse dia então, não foi mais vista. O carro em questão estacionou na frente da cabana. Um homem de aparência pálida, alto e de olhos tão escuros quanto o breu, desceu do carro. Com as mãos sujas ele lentamente abriu o porta-luvas, dali o tirou apenas uma lamparina velha suja de terra e uma corda, tudo o que tinha no momento. Saturno, o homem, com passos lagos foi em direção a porta daquela velha casa, deu três batidas, ninguém o atendeu. Atônito abriu-a com suas próprias mãos. De primeira impressão viu todas as lampadas apagadas e algumas velas acesas ao canto. Viu também uma lareira acessa, provando a sua consciência cética, de que alguém estava ali a pouco. Não se importando muito com isso, o pobre homem sujo, abre a primeira porta ao lado de uma mesa antiga de madeira com algumas roupas jogadas acima. Ao entrar avistou um colchão velho com um travesseiro quase branco sem definição, tudo que enxergou foi um lar temporário para aquela noite estrelada. Após horas de bom sono, Saturno acordou, ainda atordoado e de olhos fechados, apalpou o chão a sua esquerda, verificando se sua lamparina ainda estara ali presente. Levantou-se daquele colchão velho rapidamente, colocou seu sapato embarrado e abriu algumas portas tentando achar o seu caminho de volta. Quando o homem finalmente encontrou a lareira, respirou relaxado. Ao chegar no ponto de partida, saturno procurou por alguns interruptores ou velas, mas sem sucesso. De repente o homem ouviu três batidas na porta, nervoso, não abriu. A porta estremeceu, rangindo ela se abriu, do lado de fora da casa estava Fênix, a proprietária do local. Naquele momento saturno mal podia sentir suas mãos ou suas pernas, o medo dominou. Antes de que ele pudesse dizer ou fazer algo, a mulher afirmou: —Calma meu jovem, está tudo bem, pode ficar, já o tinha visto aí, apenas fui buscar algumas lenhas para a lareira. Não acho que vá me fazer mal algum, estou aqui para ajudar no que puder-— com um sorriso no rosto. Minutos de silêncio se passaram, até que saturno pegou a cadeira mais próxima e se sentou ao lado da mesa, enquanto isso Fênix bordava um paninho branco com algumas letras ainda não esclarecidas. —Fale quando estiver pronto.— Afirmou a mulher. Meia hora se passou e tudo continuava igual, até que de tom baixo mas suficientemente claro saturno falou; —Não sei quem sou ou onde estou, cheguei do nada e vou a lugar nenhum, estou sem memórias e agir sem lembranças é como querer pousar um avião no breu. Apenas sei que estou a procura de minha esposa e de meu filho e que meu nome é Saturno. Me desculpe entrar aqui do nada, mas… precisava de um lugar para ficar. Sem movimentos bruscos, o homem despiu seu paletó e de um bolso pequeno e escondido dentro da custura tirou uma foto, apontou-a em direção a Fênix, pedindo para que olhasse e perguntando se tinha visto algum dos seus mais preciosos tesouros. Fênix largou a custura em seu colo e pegou a imagem, pode-se jurar que naquela instante uma lágrima caiu pelo seu rosto. —Sinto muito, não, mas vou lhe ajudar no que puder, eu prometo. Enquanto isso você pode ficar aqui.— Disse fênix, com piedade. Agradecido saturno a cumprimenta e pergunta seu nome: —Fênix—, responde ela, com frieza sem nenhum motivo aparente. Alguns dias se passaram, nenhuma visita a mulher recebera. Apenas algumas pessoas da vila batiam na porta pedindo seus bordados e encomendando suas toalhas, mas Fênix nunca as deixara entrar. Saturno aos poucos descobriu que Fênix era viúva e solitária, sem amigos e praticamente sem vida. Percebeu também que não importava o que acontecesse, ela nunca largava seu bordado branco ainda a acabar. Mas isso não importava mais, por que a essa hora do dia ele já tinha decidido que seria hora de partir a procura de sua família. Na manhã de domingo, Saturno acordou com o intuito de contar a Fênix sobre sua partida e agradecer a estadia. Levantou-se do colchão, agora sem tanta poeira e foi até a mesa de entrada, onde estava a mulher. Arrastou uma cadeira a frente dela e tocou sua mão com delicadeza, como uma pétala de rosa, repetindo as palavras: —Está na hora de ir, afinal, um homem sem memórias é um homem sem passada, presente e pior, sem futuro. Agradeço por tudo que me fez e espero que nunca esqueça, mas não sei se posso confiar em minha mente, afinal, ela já me traiu uma vez– falou Saturno com um sorriso de meia boca. —Espere mais, fique, vai tudo dar certo acredite.– afirmou a mulher– —Mais um dia ou dois, disse o homem, facilmente convencido. Durante 24h saturno procurou pela vila por informações, mas todos pareciam desatualizados, foi então que decididamente resolveu abortar as buscas naquele local. Passando das 22:00 horas, saturno ainda vagava pelas ruas de Cosmus, sem esperanças próximas, apenas com um objetivo em mente. Apressado e de passos rápidos, logo chegou ao chalé, abriu a porta se sentindo em sua própria casa. Percebeu que Fênix não estava então resolveu vasculhar pelo chalé a procura de algo que lhe possa ajudar nos próximos rumos. Saturno encontrou uma porta fechada, ao final do corredor, nunca avistara antes, caminhou em sua direção e tentou-a abrir, nada, apenas silencio, a porta estava trancada. Aquela porta verde o havia intrigado, então após alguns empurrões e socos a porta se abriu. Dentro da pequena salinha em frente a porta havia pilhas e pilhas de jornais, o homem achou muito estranho, mas quem era ele, para julgar tamanha esquisitice. Ele pegou alguns dos jornais e viu que todos eram remetentes a mesma data; com um sorriso maroto pensou -cada louco com suas manias-. Folheou um dos jornais para ver algo de interessante e ao chegar na página 11, o seu mundo parou, sua memória foi voltando aos poucos, sua cabeça deu voltas e mais voltas, nem mais piscava o coitado homem. Seus olhos começaram a latejar e a ficaram vermelhos,seu rosto paralisou. Na pagina havia escrito: homem preso acusado de assassinar mulher e filho rouba carro do departamento de necrotério (DN) e foge. Havia também mais uma nota: Encontrei os corpos de sua mulher e seu filho no porta-malas do carro, sabendo que perdeu a memória, tentei te salvar de problemas, os enterrei no quintal ao lado do lago e do vovô Beijos da mamãe, Fênix. Saturno viu aquela sena se repetindo mil e mil vezes em sua mente, até que não pode mais, se entregou a dor, caiu ao chão, abraçou a morte. Em poucos segundos, a esse mundo não mais pertencia, após um acidente vascular cerebral, o homem morre de olhos arregalados e mais vivos do que quando mortos, mais mortos do que quando vivos. Ao chegar em casa, Fênix se depara com a a situação. Sem pânico ou desespero Fênix o pega pelo braço e o arrasta por toda a casa, dá uma pausa ao chegar a porta, mas logo continua puxando seu filho. Já fora de casa, passou por algumas árvores e matos, levando-o até o lago. Ao lado do lago já havia uma cova preparada a ele, ela a estava cavando a manhã toda. A mulher pega seu filho e o joga na terra, sem ao menos fechar seus olhos e acima de sua cabeça joga o paninho branco que a dias costurava, agora com a possível leitura, no pano estava: “Aqui jaz Saturno.”
Regido por Saturno, Daniela Medeiros. (via poegrafar)
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