Eu abro a torneira da esquerda.
Me lembro de quando minha mãe escreveu um Q e um F em cima das torneiras do box, para eu não me confundir quando fosse ligar o chuveiro.
As letras continuam escritas ali, de lápis.
A água cai rapidamente.
Eu tiro a roupa, abro a porta de vidro e entro debaixo do jato de água corrente.
Passo as mãos nos meus cabelos molhados, de olhos fechados.
A música que sai do meu celular ecoa nas paredes do banheiro.
Um dos lados do meu box é uma janela fosca para o lado de fora da casa, o que faz com que, toda vez que ligo a luz do banheiro, vários mosquitinhos e mariposas fiquem pousados ali, do lado de fora.
Eu posso vê-los de um ângulo diferente, sem focar nas suas asas, mas sim em seus corpos finos.
Com o tempo, os insetos atraem as lagartixas.
Ah, como eu amo assistir as lagartixas.
É como degustar de um coliseu particular, e poder assistir todos os dias, enquanto me ensaboo, uma luta de gladiadores ferozes.
A primeira lagartixa a chegar é mais gordinha e eu chamo ela de Penélope.
Vejo como ela vai andando lentamente, para não assustar suas presas, como um leão na savana.
Suas patinhas ficam lindas pressionadas contra o vidro da janela.
De repente ela corre e come.
Dá seu bote.
Engole sua presa de uma bocada só.
As mariposas e os mosquitos não tem nem chance.
Outras lagartixas vieram depois, e eu pude assistir seu banquete de camarote.
Depois da Penélope veio o Elvis, depois a Samantha e por fim o Frederico (que tinha o rabo quebrado, e, coitado, não conseguiu comer nada).
Desligo a água para me ensaboar.
Com a bucha passo sabão pelo meu corpo todo, me deixando inteira branca.
as solas dos meus pés, meu pescoço, minha barriga.
Me aperto e me esfrego, me sinto, faço massagem.
Tomo meu tempo.
Ligo a torneira de novo e deixo a espuma escorrer.
Como fica linda a minha pele enfeitada com gotículas de água!
Me parece mais real.
Limpa.
Sento no chão do box e fecho meus olhos.
Deixo as gotas escorrerem por mim.
A água se acumula na junção das minhas coxas, formando um laguinho.
Me levanto deixando meu laguinho se desfazer e seguir o fluxo até o ralo.
o vapor deixa os vidros embaçados e eu escrevo algumas frases bobas com a ponta do meu dedo.
Escrevo poemas que não vou terminar.
Escrevo mentiras, só para ver como me sinto ao escreve-las.
Desligo a água quente, deixo só a fria, e me forço a ficar embaixo do chuveiro.
O choque térmico me acorda.
Tiro a moleza de dentro de mim.
Dou alguns pulinhos e fecho a torneira fria, pego a toalha azul que está pendurada e me enrolo nela.
Abro a porta do box e saio.
Olho no espelho embaçado e passo minha mão sobre ele, para conseguir me olhar nos olhos.
Me olho.
Me vejo.
Penso:
“Que banho bom.”
E volto para minha vida.