Eu sinto como se estivesse em um quarto escuro.
Não há saídas. Não há janelas. É só um compartimento profundo, enorme e impossível de se entrar - quem dirá de sair.
As lágrimas que escorreram há pouco tempo já começam a secar, e logo meu rosto torna-se grudento onde elas estiveram instantes atrás.
Eu não consigo enxergar nada, mas sinto a poeira.
Eu não sei aonde estou, mas sei exatamente onde me localizo: é a minha cabeça. A escuridão que me cerca são meus sentimentos, e esse quarto não é uma prisão, é só o meu isolamento.
Eu não entendo porque dói. Eu não sei porque doeu. Eu não sei nem mais se dói, meu corpo já deve ter se acostumado à agonia. Agora não passa mais de um torpor.
As lágrimas, no entanto, queimaram. Elas queimaram porque eram os sentimentos que vieram à vida e escapuliram em forma d'água, fazendo seu caminho pelos meus olhos, que pareciam estar úmidos demais, com uma frequência constante.
Não há ponto sobre o que digo. Eu apenas dedilho esse teclado na esperança de tentar compreender os males que insistem em perfurar essa minha alma, sufocar minha respiração e fazer de mim uma escrava da aprovação.
Eu não via a escuridão, a tão leal parceira, havia tempos. Creio que passei meses sem tê-la a tomar-me nos braços e caminhar por aí como uma mãe confortando um bebê. Era como naquele balanço que ela me embalava: para frente e para trás, como uma canção de ninar, o compasso em harmonia com a melodia da música cantada. Era o inferno.
Havia a ausência da luz, e fazendo-lhe companhia, havia a ausência do calor.
E, sobretudo, havia o vazio. O indomável e profundo vazio, que não se media tampouco como se mede a dor, e também se fazia incompreensível assim como se faz o padrão do sofrer.
Ai, vidinha de merda! Não te quis por instante algum, e vejo-me estranhamente viciada em tê-la sempre à minha sombra.
Se ao menos a minha lírica fosse mais poética, e a minha dor menos concreta. O foda é que ela é palpável. Ela se faz sentir ao toque.
E fecho olhos uma vez mais e enxergo a escuridão mais afundo.
E mais uma vez: patética.