Da Distopia ao Mundo que Vi
Hoje, no aconchego do lar, sonhei... Não! Não um daqueles sonhos que se têm enquanto dorme, mas um destes acordados. Um sonho, constituído de uma força vital, misteriosa... da mesma força, que também habita no já alastrado micro-organismo, de biologia modesta, a que demos o nome, “Coronavírus”.
E antes de adentrar no sonho, é importante que se diga: não existe batismo mais apropriado a ele. Ele que é um exemplo da simplicidade da vida, e que ainda assim, é capaz de arrancar a coroa de espinhos da vaidade humana. Capaz de mostrar nossa arrogância, mesmo diante da nossa ignorância, do que significa existir neste Universo...
Eis que então, como se acelerasse o tempo, vi o futuro, após o período de confinamento. As cidades estavam vivas. O comércio reabria as portas. As máquinas na indústria ecoavam o som, do capital vivo. A sociedade retomava à uma aparente normalidade.
Mas ali, eu observador, estranhamente, sintonizava qualquer coisa diferente.
Após espaço de reflexão, percebi! As pessoas estavam diferentes... havia, algo de belo nelas. Capturava-se uma atmosfera de nobreza, da qual palavra alguma seria talentosa o bastante para descrever ou traduzir. O sentir é talvez, a única forma, capaz de conduzir a compreensão do que vi...
É que as pessoas enfim puderam, diante da reclusão social imposta, pensar nos outros. O tempo livre deu espaço a pensamentos sobre o milagre que é a vida, a partir de exercícios de análise de si mesmos, refletidos em espelhos de outros.
Finalmente, os seres humanos entenderam que, para a vida, não há fronteiras. Não existem linhas-miragens traçadas para diferenciar indivíduos, posicionando-os uns contra outros. Perceberam que as dualidades – homens e mulheres, pretos e brancos, ricos e pobres – eram simplificações desnecessárias e que todos foram, indistintamente, afetados pelo vírus-vida. Ganhou chance então, a beleza das múltiplas combinações, que tornam cada de nós, singulares por esta Terra.
E a noção de tempo mudou. O entendimento da morte como algo vivo e próximo, reordenou prioridades. Os amigos se encontraram. Parentes se reuniam. Nada, absolutamente nada importante deixava de ser feito devido à falta de tempo.
O amor reinou nas ruas. Havia festas por todos os lados. As pessoas se abraçavam e beijavam, sem o pudor antes exigido. Reais conexões se formavam, fluidas, sem o peso do ego e dos medos. Amantes brindavam suas vidas ao bem-estar de seus pares, conscientes de que eram, enquanto ímpares, plenos. Havia, simplesmente, calor humano.
Às famílias, foi então dado o direito de se despedir, unidas como nunca, dos entes queridos que partiram. Elas viveram, desta vez verdadeiramente conectadas, o luto das perdas que lhes foram impostas. Puderam, enfim, sentir falta...
Em êxtase, dominado pelos sentimentos que me envolviam, num milésimo de segundo, volvi a meu lar. Em mim, morava convicção do que presenciei. Revisitei a tatuagem que cunhei em meu braço e em minh’alma, onde mora uma música que me é.
Grato por saber manejar violão, o liguei com o amplificador no máximo, deixando que o som tomasse conta de tudo. Em mim, você e todos nós, reside o desafio de se deixar ser. Brindo por ele à vida que vi, esperançoso da possibilidade, de um lampejo deste futuro.
A mudança, qualquer que seja ela, começa sempre, por nós mesmos.
Cantando, seguimos em frente!
“You may say I'm a dreamer
I hope some day you'll join us
And the world will be as one”
“Você pode dizer que eu sou um sonhador
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo viverá como um só”