Em entrevista à NME, Kings of Leon fala sobre vícios, mudanças e inspirações
Entrevista mundial de retorno exclusiva: como Kings of Leon reconstruiu sua família – e seu som
Kings of Leon, a banda mais festeira dos anos 2000, passou os últimos três anos cortando a bebedeira, organizando festivais de comida e consertando seus relacionamentos despedaçados. Com o sétimo álbum, Walls, pronto para ser lançado, Mark Beaumont vai à Nashville para ouvir como os Followills se tornaram uma família novamente.
“A câmera está pronta?” Caleb Followill suga sua terceira cerveja em um photoshoot em horário de almoço e ajusta seu par de calças verde-azuladas de queimar os olhos, a melhor para capturar os orbes reverenciados e o cetro das joias da coroa de Kings of Leon para a câmera. “Eu estou realmente ordenhando isso.” Antes que a garrafa esteja vazia, este rei rebelde está pulando no ar para encenar golpes de caratê para as lentes e estudando cada captura, balbuciando, “Meus olhos deveriam parecer mais transparentes? Talvez eu devesse ter bebido mais noite passada”.
Câmeras compreensivelmente ordenhadas, Caleb e sua banda de irmãos (e primo) se ajeitam no sofá na área para relaxar do seu estúdio de Nashville, o Neon Leon, um antigo depósito repleto de sinais de rock n’ roll de requinte. A sala de estar é minada com ótimos vinhos e licores, um cabideiro coberto com perucas e chapéus fala sobre as festas de transvestimento pós-ensaio e um letreiro neon de Michelob paira sobre o espaço de palco do tamanho de um teatro, iluminando uma fotografia montada na parede da banda de 2003, de volta a quando eles eram milenares aspirantes ao indie rock com a etiqueta de ‘os Strokes do Sul’; com cabelos caipiras e profundas narinas em sua juventude selvagem movida a cocaína.
Relatos dos Kings of Leon limpos e vivendo como Ned Flanders durante uma particularmente piedosa quaresma desde que Caleb perdeu o controle no palco em Dallas, em 2011 – caminhando para fora do palco na metade do show e levando a um hiato de um ano que foi essencial para parar a desintegração da banda – têm sido levemente exagerados.
“Eu definitivamente não estaria bebendo cerveja como agora normalmente,” Caleb insiste, esvoaçando cinzas de cigarro no carpete e erguendo uma quarta garrafa. “Nós tivemos um grande jantar na minha casa e eu fiquei de ressaca, então eu preciso beber. Mas nós passamos muito tempo sóbrios, o que na verdade é até legal.” Seu irmão baterista Nathan esfria suas botas de salto: “Sóbrio para nós é, no entanto, como tirar uma folga de três dias”.
Rindo, ralhando, fazendo piadas, batendo papo; os Kings of Leon se sentem como uma família de novo. Todos casados e todos (exceto o baixista Jared) agora pais, a banda, que foi uma das mais festeiras dos ano 2000, tem passado seu tempo de folga desde o sexto álbum ‘Mechanical Bull’, de 2013, tendo jantares do clã Followill, fumando embaixo das arquibancadas em reuniões de pais e professores e organizando festivais locais de comida, com suas esposas. “Casamento é ótimo, nossas esposas são ótimas, nossas amigas* são ótimas... As amigas das nossas mulheres são ótimas...”
*girlfriends pode significar tanto namoradas quanto amigas mulheres
KOL está encarando seu revigorado sétimo álbum ‘Walls’ da segurança de suas poderosas e boas vidas. Eles malditamente apreciam isso também. Porque apenas cinco anos atrás, Kings of Leon estava passando por um inferno em luxuosos carrinhos-de-mão separados.
2011, a turnê ‘Come Around Sundown’, em qualquer lugar da Europa. Os gritos de 50 mil fãs em um festival mal desapareceram, o refrão de ‘Sex On Fire’ – o hit revelação do álbum de 2008 ‘Only By The Night’ com seis milhões de cópias vendidas, que os impulsionou ao topo das contas de festivais do mundo todo – ainda rolando ao redor do público que partia como ácido para os ouvidos deles, Caleb sai do palco principal à meia-noite direto para dentro do seu carro particular rumo ao aeroporto.
Subindo no jatinho privado da banda, com destino ao enclave na Itália, Londres ou Majorca, que eles estão usando como um centro de turismo, ele se enfia na perfeita cozinha de classe alta e folheia uma revista de música para evitar falar com seus companheiros de banda. No interior, ele se depara com uma fotografia – apenas outra gangue de catadores sujos com cabelos de drogados devorando hambúrgueres em um parada de caminhões em Birmingham, Alabama, guitarras em suas costas, projetando-se para a glória. O pavê de salmão selvagem fica um pouco amargo em sua boca. “Cara, eu tenho tanta inveja e medo de perder algo do tipo quando vejo bandas assim,” Caleb admite hoje. “Eu fico tipo, ‘Wow, isso é que é camaradagem; isso que é uma banda’. E, porra, nós estamos comendo comida chique no nosso avião, sabe? Você sente como se estivesse deixando passar algo.”
Vamos recuar uma rota abaixo da longa e insular estrada de Kings of Leon para o sucesso. Eles visitaram recitais de igreja juntos quando crianças na parte de trás do carro de seu pai, um pastor Pentecostal. Eles fizeram turnê incessantemente no início da banda, encharcados no tipo de drogas e libertinagem de envergonhar até Led Zeppelin, que veria Caleb vagando nos corredores do hotel nu no estupor da cocaína. Eles fizeram turnê tão duramente que, em 2010, seus vínculos familiares se tornaram uma camisa de força, seu amor fraternal e uma obrigação contratual.
“Depois de um tempo não é mais tipo ‘Eu vou fazer uma entrevista com o meu irmão’, é ‘Eu vou fazer uma entrevista com O Baterista; eu vou fazer uma entrevista com O Baixista’”, diz Caleb. “Olhe para qualquer banda que ainda está por aí e é clássica – você se torna ‘Eu Sou O Baterista’, ‘Eu Sou O Baixista’, ‘Eu Sou O Vocalista’. Quando vocês se reúnem nunca é, ‘Nós somos a banda.’ Nós perdemos isso, entende? Houve vários momentos em que não nos falávamos. Era tipo, ‘Cara, nós nos tornamos sócios no negócio. Nós não mantivemos nossa amizade e irmandade, tudo que somos.’”
“Tocar em shows maiores nos permitiu a privacidade que precisávamos para parar alguns dos argumentos que nós teríamos por estarmos contidos em ônibus minúsculos”, adiciona Jared. “Conforme nos tornávamos maiores, nós arranjamos nossos próprios carros e fizemos nossas próprias coisas e nos víamos apenas meia hora antes do show e durante o show. Nós fomos muito longe na outra direção. Se vocês não forem amigos e uma família então não podem realmente ser uma banda – ou nós não podemos ser esse tipo de banda.”
Mexer em álcool abundante, egos inflados e instantes de “comportamento agressivo” causou à Caleb tomar injeções regulares de esteroides em sua garganta para manter a voz viva, e você tinha uma atmosfera tão volátil quanto em um comício de Donald Trump. De acordo com Jared, KOL brigou pelas “merdas mais estúpidas... isso seria, literalmente, até por um assento de bar. Você só está procurando uma razão para brigar.”
“Nós tivemos um grande momento na Escócia quando meu ego ficou fora de controle”, Caleb confessa. “Eu quase me meti em uma briga com meu gerente, eu e Nathan brigamos. Aquele deveria ter sido o momento de Dallas, quando nós pensamos, ‘Certo, vamos parar por um segundo’. Mas nós continuamos indo e isso aconteceu em cima do palco ao invés de em um quarto de hotel, que é onde deveria ter acontecido.”
Caleb caminhou para fora do palco em Dallas no dia 29 de julho de 2011, dizendo ao público: “Eu vou aos bastidores por um segundo. Eu vou vomitar, vou beber uma cerveja e vou voltar aqui para tocar mais três canções”, e nunca retornou. Naquele momento, os problemas profundamente enraizados ao qual Jared se referia quando ele tuitou “Há problemas em nossa banda maiores do que não beber Gatorade o suficiente” foram empurrados para o primeiro plano.
Cancelando todas as datas agendadas, a banda se dispersou pela América. Matthew e Caleb pararam de beber por um tempo, Nathan “parou de falar com eles quando eles param de beber”. Caleb enfurnou-se em Nashville com sua nova esposa, a modelo Lily Aldridge, divertindo-se no seu restaurante de massas favorito com uma tripulação de anti-bajuladores, para estourar sua bolha. “Eu me cerco de pessoas que não beijam meu traseiro”, ele diz. “Pessoas que tiram sarro de mim. Se eles vissem essas calças, eles ficariam tipo, ‘Jesus Cristo, o que você está fazendo?’. E sujeitos mais velhos que já se divorciaram cinco vezes. Isso foi importante para mim, ser apenas um cara na mesa de poker apostando o tipo de coisa de ‘Eu vou com tudo dentro’, mas aquele cara vai falar ‘Eu tenho mais dinheiro que o Caleb, eu vou entrar com tudo também’”. “De quem estamos falando aqui?”, pergunta Jared. “Bill Gates?”
Hoje, Caleb olha para trás para seu principal ponto de ruptura em público e o vê como uma benção. “Eu não lembro a maior parte disso. Eu sinto como se tivesse havido o tipo de situação de uma hipertermia, mas foi um milagre. Isso mudou a maneira com que fazemos as coisas, nos fez abordar isso de forma diferente e entender que o que estamos fazendo é ótimo e estamos animados com isso, mas se você se sobrecarrega, você se sobrecarrega. Isso trouxe muita coisa à tona sobre a banda, entre nós... Aquilo foi o que nos fez perceber [nós havíamos perdido nossa amizade] e ganhá-la de volta.”
Embora você não vá vê-los balançando-se em um bar em uma desgastada Transit tão cedo, a camaradagem de Kings of Leon está de volta com uma vingança. E com isso vem o fogo da idade; um desejo ardente de abandonar todos os sons e as práticas familiares, derrubar suas paredes criativas. Caleb faz uma careta. “O último álbum [‘Mechanical Bull’], nós estávamos definitivamente indo com tudo e tentando muito, mas nós ficamos em uma zona de conforto da qual nós tentamos nos descascar nesse álbum ao não fazê-lo aqui no estúdio, não usar o mesmo produtor, realmente desafiando a nós mesmos. Nós queríamos fazer coisas onde coçássemos nossa cabeça pensando, ‘Puta merda, isso é certo, isso é errado?’”. “Eu sinto que talvez nós flutuamos através de alguns álbuns”, o guitarrista Matthew concorda. “Nós passamos pelos ritmos e apenas fizemos o que sabíamos que funcionava e estava tudo bem. Mas houve um sentimento definido de ‘OK, nós deveríamos fazer uma mudança’”.
Você acha que você perdeu seu diferencial? Caleb aperta os olhos, desconfiado. “Você acha? Se houvesse um filme feito das nossas vidas, nos últimos anos nós tivemos muitos diferenciais. Aqueles são os momentos do filme que você quer ver! O que estávamos fazendo no começo era história de livro, clássico, o que uma banda deveria ser; as drogas e as bebidas e as meninas. Agora nós consideramos o que estamos fazendo um pouco mais e se isso é perder seu diferencial... Talvez, eu não sei. Quando você olha para bandas que ainda tinham seu diferencial, a maioria deles, a música deles era uma merda então não importa a porra do diferencial.”
Para agitar seu som e fazer músicas que eles estavam “nervosos sobre”, KOL abandonou os planos de gravar o sétimo álbum na mansão que comprou ao lado de seu estúdio e retornaram para LA, onde eles gravaram seus primeiros álbuns. “Nós tivemos um pouco de magia em Los Angeles”, Caleb diz, e com o produtor Markus Dravs pressionando-os para colocar a clássica composição de Nashville antes de pedais de efeitos e descartar qualquer coisa que soasse como Kings of Leon, eles encontraram um pouco de magia de novo.
‘Walls’ não é apenas o som de KOL rompendo suas barreiras musicais experimentadas e testadas e derramando-se nos reinos do Talking Heads, Arcade Fire e Joy Division. É uma exposição reveladora de costuras psíquicas mais escuras do que Caleb se sentiu confortável em explorar antes. No seu lado mais leve, ideal para escutar dirigindo à noite, o primeiro single ‘Waste A Moment’ é a história de uma garçonete e seu amante texano malandro, chegando em LA embebido em seu sonho hollywoodiano. ‘Conversation Piece’ é uma “canção de aniversário” no estilo ‘Sem Surpresas’ que Caleb escreveu para sua esposa, que por muito tempo sonhou em se mudar para a Califórnia, mas que mudou de ideia depois de ter morado lá durante a produção do álbum. No seu lado mais escuro, ‘Over’ disseca os problemas de Caleb com bebidas, drogas e fama através dos olhos de uma estrela do rock perseguida por paparazzis, enforcando-se no jardim de sua mansão em LA; uma canção que ele estava preocupado em escrever no caso de, como algumas letras antigas, se tornar uma profecia.
“Em várias dessas canções eu seguro o que digo porque às vezes isso passa, às vezes isso acontece”, Caleb diz, como uma vítima de uma maldição de filme de terror. “Mas a banda me disse, ‘Diga o que você quiser dizer, não se preocupe com o que vai acontecer no futuro’. Então ‘Over’ é uma canção muito obscura. Há uma bela árvore no quintal da casa que estávamos alugando e havia muitos paparazzis envolvidos; não realmente para mim, é mais para minha esposa – ela recebe muito disso. Os paparazzis; é tudo sobre isso e o momento em que você desiste de tudo. Eu nunca considerei [suicídio], mas eu sempre escrevi sobre isso muito bem. ‘California Waiting’ e músicas como ela, elas são todas sobre o momento em que alguém cede e diz, ‘Isso é tudo para mim, eu estou fora’.”
A morte aparece em larga escala em ‘Walls’. O impetuoso new wave ‘Find Me’, inspirado em Lily convencida de que seu hotel em LA era assombrado, é sobre alguém se apaixonando por um fantasma que está o perseguindo (existe uma palavra para isso? “Sim, ‘sexy’”, responde Caleb), enquanto ‘Muchacho’ é um elogio fúnebre de rumba no estilo David Lynch para o “amigo favorito de todos” de Caleb e um velho associado de KOL, que recentemente morreu de câncer. O álbum inteiro, na verdade, é uma homenagem à sua influência sobre a banda. “Ele era um cara muito desafiador”, diz Jared. “Ele viria na estrada com a gente e estaria envolvido em setlists e ele queria que a gente tentasse coisas novas e queria nos manter sempre alertas. Seu falecimento foi uma grande parte da razão pela qual nós nos desafiamos.”
Claramente chateado, Caleb abre outra cerveja e anda pela sala. “O que fizemos com esse álbum é tudo que ele tem tentado nos convencer a fazer por 10 anos, a partir da forma que nós abordamos tudo. Ele estava lá para tudo, mas quando isso aconteceu nós todos realmente nos conectamos com o que ele queria de verdade.”
Os Kings de 2003 olham para baixo, para nós, da parede, alegremente inconscientes dos ensaios e dos triunfos que virão, perdidos em seu próprio mundo de hedonismo hirsuto. É verdade que você costumava voar celebridades de toda a Europa para vilas mediterrâneas para orgias de drogas Bacchanalian? Caleb quase se engasga com sua cerveja, gargalhando. “Fantástico! Apenas imprima isso, isso soa incrível! Nós costumávamos levar o Donald Trump para orgias, ótimo.”
Os portões de memórias inundam abertos. Nathan se lembra de ser deixado para trás no Grand Canyon. Jared se lembra de acidentalmente encontrar-se numa festa de metanfetamina em Phoenix – “Nós estávamos tentando ficar de boa, mas estávamos ficando tipo “Foda-se isso, nós estamos saindo porque eles podem tentar lutar contra nós’”. Todos eles recordam-se sobre seu primeiro jatinho particular, “um avião de hélice que quase caiu”. Jared: “Foi o voo mais assustador de toda a nossa vida”. Caleb: “Quando nós aterrissamos, eu vomitei na pista”. Matthew: “Eu beijei a pista”. Alguém gritou, ‘Arranje-me um avião particular melhor!’? Jared: “Eu digo isso em todos os voos”.
Uma família de novo, de volta no auge de seus poderes coletivos, mastigando a gordura, batendo papo, ordenhando seus equipamentos. NME aponta para a foto: o que você diria para aqueles caras? Caleb suspira. “Continue seguindo em frente. Cara, eles parecem incríveis pra caralho”. Nathan: “Compre imóveis”. Matthew acena, “Eu daria a eles algumas coisas para apostar. Mas, talvez, não mude nada – é apenas muito assustador. Você precisa ter as coisas ruins para obter o que é bom”. O inferno sabe, Kings of Leon beberá a isso.
Tradução e adaptação: equipe PKBR.
Fonte: http://www.nme.com/features/return-of-the-kings-how-kings-of-leon-rebuilt-their-lives-and-their-sound#zuiEeo9DqjVQdzYh.01












