As mãos secas como um morto, frias como um morto, se esqueceram da memória do toque. Pouco servem, esquecidas até de si mesmas.
Esquecidas sobre o corpo, abertas, no perpétuo pedido que não vem.
A linha da vida é fraca, da sorte é torta e do coração –
A voz não apazigua. Traça, inútil, ensaios da pele. Se espalha no chão querendo ser grande. Pobre.
Diz pouco por pensar que só vale dizer a quem não precisa ouvir, pois já sabe.
Tão longe encontros que não se mede a olho.
Tão perto que também.
04:32 Decide cortar as unhas do pé
04:34 Termina um pé.
Decide terminar o outro depois de um cigarro.
04:35 Acende o cigarro.
04:37 Fantasia uma grande encomenda de romances autobiográficos.
04:38 Se pergunta se poderia publicar como Suzana Flag.
Se esquece de cortar as unhas.
04:39 Apaga o cigarro.
04:40 Decide parar de fumar
04:42 Decide não publicar como Suzana Flag.
Acende o cigarro.
A náusea cobre tudo.
Cobre o corpo de abraços. A náusea cobra.
Diz ao pé do ouvido que tudo passa, basta o tempo.
Não atenta para que a falta seja de tempo. De ouvir. De tudo que vêm.
Não diz a ninguém que onde ela quer chegar se chega só.
As observações in loco da grande festa de aniversário não poderão ser utilizadas como parâmetros normatizados, visto que as cinzas, o vazio e um grande delírio de grandeza cobriam todo o chão da grande festa de aniversário.
O aniversariante esclarece que a falta de convidados é causada apenas pela ausência da lista de presença. Ver anexo 3.
Pedia pouco. Bastava um dia que fosse eterno.
Um amor, casto e breve.
Dos que duram um sorriso.
Da identificação do outro, de espanto, pelo olho que cruza na multidão.
Do dizer sim quando tudo diz não.
Como a cadeira vazia na sala.
Mas disse que a cadeira não é cadeira. É signo.
05:12 Entretém a si mesmo a ideia de ser erudito
Brinca, displicente, com pênis flácido
Não percebe que sua última ereção foi há 3 meses
05:15 Não se lembra de não ter dado a devida importância
Não percebe que todos seus gestos são herméticos
05:17 Decide dormir.
05:21 Lembra.
05:46 Lembra.
06:33 Pede.
07:00 Desiste de dormir.
Acende o cigarro.
Percebe que se esqueceu de cortar as unhas.
07:03 Tenta começar.
07:05 Desiste.
Não sabe de quê.
A tranca das portas.
As janelas opacas de pó. O pouco.
É o que temos.