multidão. cidade. concreto. prédios. calçada. bombas de gás lacrimogênio. pessoas assustadas com o ritmo da cidade. pessoas assustadas com a violência cometida. o homem na padaria toma café e lê o jornal. televisão ligada. as mesmas notícias na hora marcada. buzinas. panelaço. perucas e um sapato furado. a mulher chora pelo ônibus perdidos. os trens pararam. a cidade parou, as pessoas correm sem destino. todos presos no centro da cidade. todos quem? os ratos observam a dança das baratas. os ratos observam a mudança de tempo. chuva. alagamentos. crianças chorando. táxis submersos. ônibus cheios. helicópteros cortam o céu para chegarem a tempo. champanhe. destino: zona norte. jardim paraíso. paradiso. o adolescente apreensivo. a música alta do fone de ouvido. os gritos de quem bebeu de mais no bar da esquina. o empresário sempre atrasado. a modelo de salto alto esperando um taxi. a madame sem motorista. todos querem chegar, mas poucos fazem por merecer. a vida é dura como o chão da cidade. é flexível como a lama que invade casas, museus, escolas, bueiros, barracos e palácios. a lama é para todos. um roleta aleatoria. você pode ser o próximo sorteado. o porteiro do edifício velho. o cinema caindo aos pedaços. a melancolia de quem vive de passado. os jovens que querem resignificar o presente para serem lembrados em um futuro. que futuro? que futuro os espera? não existe futuro debaixo do concreto molhado. gotas de chuva, a mulher de cabelos molhados falando ao celular e pedindo um taxi. as bolas, o sapato, o vestido. ela precisa de amor, de uma capa de chuva. o mendigo que discute a relação com seu cachorro. o vendedor de pipoca, que observa sua invisibilidade diante da multidão. todos olham para a natureza em meio ao concreto. a chuva é egoísta, é o centro das atenções assim que chega em um lugar. ela não sabe que só perde seu posto para o sol. tão forte, tão fatal. os sinos da igreja, os padres e suas batidas. cinquenta ave maria e cinquenta pai nosso. fifty, fifty. assim caminha a humanidade. assim caminha a humildade. assim caminhamos para a umidade. os barracos com gatos elétricos. as televisões ligadas. a falta de interpretação daquilo que não significada nada. os livros no lixo. as palavras jogadas fora. as linguagens perdidas. a falta de ponto e virgula. não existe linguagem que sobreviva a uma avalanche de lama. o marrom corrompe as entranhas de norte a sul. atire o primeiro preconceito quem estiver livre de qualquer critica. o moralismo nosso de cada. o moralismo que sobrevive nas esquinas, disfarçados com mascaras de galãs. não queira ser surpreendido. o feminismo absoluto. o sistema gerador de noticiais fáceis. os factoides. as manchetes. as bancas de jornais vazias. as vendas, as editoras, os donos e as contas. a lista de debitos. as demissões em massa. os escritórios. as salas de reunião recheadas de egos, vazia de significado e profundidade. cadeiras vazias. janelas abertas. o voo livre daqueles que não servem mais. o voo livre daqueles que não se deixam moldar. o voo livre daqueles que dizem não, mesmo querendo dizer sim. meu querido. minha querida. não acredite em discursos fáceis. receitas de bolas. o feijão com arroz diário. a nova moda agora é. eu preciso ter um insight por que o briefing me disse que o brainstorm foi maravilhoso. o nosso budget tá curto, mas eu vou fazer um call pra tentar dar um upgrade nisso. te ligo amanhã asap. as soon as possible. a língua portuguesa sangra, três gatinhos morrem e um prédio desaba. a língua portuguesa sangra. os livros choram dentro das lixeiras, sem capas. a casa do conde é maravilhosa. a casa do conde tem prateleiras cheias de cristais. garfos de ouro. privadas de prata. tapetes persa. a música ambiente: um barulho sonífero. as roupas de seda. a vontade de acender um fósforo e provocar um incêndio digno de hollywood. a empregada negra vestida de branco dos pés a cabeça. a estante de livros fake. o mobiliário de madeira. a caixa de charutos. o pulmão preto. as dores, os exames, as cirurgias. a fome e a falta de comida. as demissões. a falência. as aparências. a localização privilegiada de uma casa vazia. nada é como antes, nem hoje será como ontem. os ratos assistem a valsa de baratas, tão delicadas. a chuva derrete o penteado daqueles que se levam a sério. o adolescente caminha sem medo de se molhar. a manifestação passa, o próximo tema vem vindo. o sol toma seu lugar. os ônibus voltam a circular. não existe mais contemplação, só pressa. o cotidiano e suas fatalidades. mais fortes do que um acidente de carro, insignificantes aos olhos daqueles que fazem parte. salve a mulher que deitou no asfalto. essa sabe aproveitar a vida. doses de adrenalina, na estrada perdida. um carro não ousaria atropelar esse exemplo de liberdade adquirida. a prazo ou a vista?