selva de pedra
Estava aqui pensando em um novo emprego, gostaria de um emprego melhor na área que eu gostei de trabalhar e que logo iriei receber meu diploma, Moda. Eu gosto do meu trabalho atual trabalho em uma loja de vestuário no shopping perto de casa, no fundo seria muito simples se não fossem as dificuldades de sobreviver no Brasil. Não me baseio em dados científicos apenas em minhas experiências vividas e nas minhas recentes reflexões sobre minha vida em minhas curtas horas de descanso entre concluir meu bacharel e trabalhar para sustentar meu sonho.
Começo contextualizando a aventura selvagem que é sobreviver na cidade de São Paulo apenas pela minha perspectiva pessoal. Sou mulher, tenho 25 anos, sou estudante de uma reconhecida universidade pública estadual na capital de São Paulo. Nesse momento eu esperava estar em um bom estágio, pagando minhas contas sozinha, aproveitando a vida boemia da cidade e estudando para finalmente receber meu tão sonhado diploma e trilhando meu caminho para minha independência financeira. Mas está muito difícil encontrar um bom emprego hoje em dia, não só para mim, mas para meus amigos também. Viver na capital e transitar em diferentes regiões da cidade permite observar que em pouco tempo, ruas e outros espaços públicos que costumavam ser apenas de transeuntes se tornaram residência para famílias pobres que se encontram em situações de vulnerabilidade social.
Eu trabalho em uma loja de shopping, e essa experiência acrescenta mais informações à minha reflexão sobre viver no intenso frenesi de São Paulo. Do caminho da kitnet que alugo no centro histórico da cidade ao meu trabalho em um shopping no centro da capital mais rica do Brasil, é ver pessoas pedindo comida em todas as esquinas e ao entrar no metrô não é diferente. No caminho para meu trabalho como vendedora de uma loja de vestuário localizada em um grande shopping tradicional na avenida mais cosmopolitana da cidade, a gloriosa Avenida Paulista, é possível encontrar vários moradores de ruas em barracas e o que mais me impressiona é ver duas famílias coabitando ali na calçada, em frente à uma agência de banco. São duas barracas e em cada uma delas moram um pai, uma mãe e um bebê. Nessas barracas da calçada da avenida Paulista, esses dois bebês são cuidados por seus pais desempregados e é perceptível que alguns trabalhadores, moradores e até mesmo turistas fazem doações de alimentos para essas famílias. Depois de observar isso, eu entro em uma enorme construção de concreto que é lotada de produtos caríssimos, marcas de luxo e serviços especializados. Trabalho lá por 8 horas seguidas fazendo pessoas adquirirem vestimentas que as vezes nem precisam.
Penso que é muito infeliz uma sociedade que seja tão injusta, muitas pessoas em situação de insegurança, sem acesso aos seus direitos básicos para sobreviver e poucas pessoas podem fazer uma compra de mais mil reais no débito, apenas na loja em que trabalho sem contar as compras nos concorrentes. E tento me enxergar no meio desse processo complexo da nossa sociedade pautada em consumismo, eu sou a mão de obra barata que tem que trabalhar de pé o dia todo, que não recebe um vale-refeição que me permita comer um prato feito no almoço, sem espaço físico no meu ambiente de trabalho para descansar nesses curtos minutos de alimentação e repouso, sendo muitas vezes tratada mal por clientes que fazem parte das classes mais ricas do país que estudam nas melhoras instituições de ensino e ocupam cargos importantes em diferentes empresas nacionais ou multinacionais. Mesmo trabalhando e fazendo faculdade o que sobra é muito pouco e mal dá para ter um momento de lazer ou ociosidade, penso nas pessoas que trabalham em shopping e em como esse trabalho é exaustivo e pouco agradável. Se em São Paulo estamos assim, imagine em regiões mais pobres do país.
Ao encarar todo esse cenário, penso que as riquezas não deviam ser concentradas em poucas pessoas, mas distribuídos adequadamente pois se aqui em São Paulo estamos assim, imagine em regiões mais pobres do país. Não são somente as pessoas de sobrenomes chiques, com casas em várias cidades, que frequentam apenas lugares luxuosos que podem viver tão confortavelmente em detrimento do sofrimento e miséria de outros cidadãos. Se toda a comunidade tiver acesso à educação básica gratuita, sistema de saúde gratuito e direitos trabalhistas garantidos pela democracia pode-se idealizar uma melhoria de qualidade de vida para todos. Essa opção de realidade poderia ser motivada pelo ideal de viver em uma comunidade inclusiva, empática e equalitária com o propósito de construir uma sociedade mais agradável de viver em um país com tanto potencial de desenvolvimento científico e econômico como o Brasil.














