naturally {royller}
desireeroy:
De forma irônica e um tanto cômica, Desiree tinha Rain exatamente aonde queria naquele momento. O desconforto do garoto com a resposta era claro, e satisfazia, por mais doentio que fosse. Tinha consciência de que as vezes pegava pesado com a forma como tratava Miller, mas apenas o fazia por medo de se machucar. Cada passo tomado com ele era como pisar em cascas de ovos; Precisava ser dado com extrema cautela ou tudo se quebraria em poucos instantes. – Tudo bem. – Assentiu ao comentário da cerveja, com a visão meio turva. Sua capacidade de raciocinar estava tão lenta que quando a resposta saiu de sua boca, o loiro já se encontrava na cozinha.
Embora estivesse bêbada, não estava burra. Percebera a irritação de sua companhia, e aos poucos começava a duvidar se não havia ultrapassado os limites. Rain realmente se importava com ela mais do que qualquer outra pessoa que já conhecera, e de fato, respeitava todas as suas escolhas, seus pensamentos e opiniões. Talvez estivesse sim, sendo um tanto rígida. E por isso, assim que o seu desafio foi proferido, um sorriso brotou em seus lábios. Se era a verdade que ele queria, era tal que receberia.
Tirou a garrafa do seu caminho, bem como os morangos e marshmallows, e então se aproximou dele. Não tanto quanto gostaria, mas o suficiente para que pudesse encarar suas orbes caramelo em cada detalhe. – Eu sinto… – Respirou fundo, tentando organizar as palavras embaralhadas em sua mente. – Sinto que você me tira do chão. Me desestabiliza, de todas as maneiras imagináveis. Faz da minha vida um inferno, e dos meus pensamentos uma loucura. – Sequer piscava enquanto disparava as verdades que prendera consigo por tanto tempo. – Mas não no mau sentido. – Depositou sua mão na perna dele, com ternura. – É que por tanto tempo eu tentei lutar contra tudo isso, mas pensar no teu beijo, no teu toque, nos nossos encontros - por mais conturbados que eles possam ser, me faz querer ficar cada vez mais perto de ti. – Tal qual como a frase em sentido figurativo, a morena se aproximou de Rain na realidade. – Toda essa luta de sentimentos dentro de mim me faz fazer coisas que eu nem sequer entendo porquê faço, sabe? Quando eu estou perto de você é assim que eu me sinto. Completamente louca. – Revirou os olhos, com um leve riso, como se aquilo fosse tão óbvio que nem sequer precisasse ser externado. – Te amar me enlouquece. – Concluiu, com o tom de voz fragilizado, instantaneamente se arrependendo de expôr todos os seus sentimentos para a única pessoa que não podia saber da existência deles.
A aproximação de Desiree fez com que Rain virasse o rosto em sua direção, um tanto hesitante. Não conseguia imaginar o que ela lhe responderia e se de fato o faria, pois o sorriso que carregava o fazia lembrar de uma criança travessa que fugia das obrigações (mesmo que pequenas). Tudo que conseguiu fazer foi franzir as sobrancelhas levemente e repuxar os lábios em um sorriso mínimo e desentendido, esperando a sua resposta. Estava nitidamente tenso, ainda que o seu semblante descontraído tomasse conta de qualquer vestígio muito claro para uma pessoa levemente embriagada que nem Desiree. Apoiando os braços nos joelhos, inclinou mais o rosto na direção dela, observando seu rosto com o olhar veloz. Já tinha se arrependido da pergunta em forma de desafio. Quando estava prestes a impedi-la de dizer uma coisa tão íntima, as primeiras palavras dela saíram e ele congelou com o resto que veio.
Estupefato, mas sem desviar o olhar; o rosto demonstrando nada além da imparcialidade, mas com boca semi aberta que estragava toda a sua seriedade. Sentia um formigamento tomar conta de seu estômago e as pontas de seus dedos ficarem geladas, fazendo-o seguir cada passo de Desiree com os olhos surpresos. Ele não esperava que algo assim fosse sair da boca dela, algo tão sinceramente profundo e com uma certeza insana. Engoliu em seco com ela se aproximando ainda mais, tornando o seu olhar ainda mais confuso. Estaria ela brincando com ele? Momentos antes esvaziara todo seu ego da sua relação para com ela, e agora inflava com tanta ferocidade que ele se via sem reação. Como teria descoberto por si só que Desiree sentia isso tudo? Como teria descoberto que ela pensava nele tanto quanto ele o fazia? Nunca passaria por sua cabeça.
E agora também havia descoberto que ela o amava, mesmo que ele não soubesse o que era o amor. Não sabia ao certo o que podia concluir a partir de tamanha revelação. Ele também a amava? Amar era o desejo contínuo de querer ficar perto de uma pessoa? Amar era nunca se cansar de admirar uma pessoa e suas atitudes? Admirar uma risada e querer sempre ouvi-la? Querer mover o céu e a terra apenas para ver a outra pessoa feliz? Era a incapacidade de se ver com uma pessoa qualquer que não a amada? Rain não sabia, mas era tudo isso que sentia em relação à Desiree. Da última vez que parara para pensar sobre seus sentimentos, tinha certeza que estava apaixonado. Agora… Tinha sido apresentado a um conceito novo e mais forte, amadurecido. Ele a amava? Com muita probabilidade, sim. Comprovara tal fato ao permanecer surpreso, a boca seca e com o coração acelerado. O que seria capaz de fazer ou respondê-la sem parecer um garoto de 12 anos? Se não tivesse ouvido o que acabara de ouvir e fosse qualquer outra pessoa que não Roy, Rain teria se levantado e ido embora. Mas a situação era bem diferente.
Os segundos que refletiu as palavras dela fizeram-no acreditar que ele se sentia do mesmo modo. Que ela o deixava louco e que pensar sobre eles dois o fazia quase perder o juízo. O tanto de loucuras que havia feito por ela até agora era mais do que evidente; e faria de novo se pudesse ter a certeza de que seria levado ao exato momento que se encontrava. Observou o olhar arrependido de Desiree já mais estabilizado, puxando o ar com calma e relaxando os seus ombros. Uma vez que pensar sobre suas atitudes antes de toma-las não era um hábito seu, Rain, alternando rapidamente os olhos sobre as orbes escuras e a boca avermelhado dela, deixou escapar em um sussurro: — Então eu acho que nós dois vamos acabar num hospício — respirando fundo, umedeceu os lábios e a beijou. Ele queria ter falado algo mais, porém as palavras não eram seu forte. Por isso, tentou demonstrar toda a reciprocidade no ato e pela forma como segurava o rosto dela contra o seu como se fosse a oitava maravilha do mundo. E, também, em como seu outro braço serpenteou a cintura dela, trazendo-a para mais perto. E em como poderia ficar ali por horas que nunca se cansaria. As carícias na pele, a respiração ofegante, a apreciação do gosto amargo de vinho, os lábios levemente pousados sob os dela… Todas as pequenas coisas. Cada ato que fazia sem notar. Se apreciados, eram a prova de que Rain Miller, de fato, amava Desiree.












