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naturally {royller}
Por toda a casa podia se encontrar pertences dos membros da família Roy jogados pelos cômodos. De brinquedos a peças de roupa, organização era algo quase impossível de manter quando seis pessoas completamente atarefadas e um bebê viviam num único ambiente. Ao passar pelo corredor que direcionava para a cozinha, chutou uma boneca de sua irmã e o andador de seu irmão mais novo, que agora estava com pouco mais de um ano. Assim que se virou e descansou os olhos castanhos em Rain pôde notar que ela não fora a única passando por mudanças radicais. Os braços do garoto estavam quase completamente cobertos com tinta e diferentes artes, e o mesmo podia ser visto em partes do seu pescoço e peito. Algo que Desiree passaria horas estudando - com prazer. Ao mesmo tempo em que involuntariamente mordera seu lábio inferior correndo as orbes por todo o corpo do agora loiro, pensara no que seu pai diria se visse Rain ali outra vez, agora com o lado bad boy ainda mais aflorado. Respirou fundo, puxando todo o ar que conseguia, e então o liberou devagar, balançando a cabeça para os lados e afastando os pensamentos dúbios. – Melhor do que nuggets? Não vai ser difícil. – zombou. Sua avó materna costumava ter um dos restaurantes mais famosos de Victoria, fechado há pouco visto que com seus 92 anos ela já não conseguia passar o tempo necessário em pé para que fosse possível dar continuidade ao projeto. Com exceção de Desiree e seu irmão mais velho, nenhum membro da enorme família manifestava o menor interessa por cozinha. Devido a todos os seus anos de prática e aperfeiçoamento das técnicas, não havia nada que a morena não conseguisse cozinhar com maestria.
Para a sua noite com Rain havia preparado um ravioli de frango empanado - que com um pouco de imaginação podia virar o tão desejado nugget - servido ao molho de queijo azul e parmesão, com batatas fritas fatiadas em rodelas finas e molho de pimenta. Cada um dos ingredientes usados fora cuidadosamente pensado. Desde os favoritos de todos, já que não conhecia muito bem o gosto culinário do garoto, aos afrodisíacos, que não deixaria de usar. Pigarreou ao ouvir o que Rain disse e ignorou seus comentários sobre Noah, não querendo estender uma conversa que poderia acabar indo por um curso perigoso. – Já sim, são todas lindas, não é mesmo? Quando você vir uma fada então… Nossa, são todos incríveis. – perguntou, tentando não estender a conversa. Nos estágios iniciais de qualquer relação sempre é recomendado que se evite discutir assuntos muito polêmicos e ideais sobre a evolução dos casos amorosos. Quando tudo estava pronto, colocou os dois pratos montados com perfeição na mesa e levou sua taça de vinho até um dos lugares, se sentando em seguida. Devia admitir que a cerveja que Rain tinha em mãos não combinava muito bem com os gostos que havia preparado, mas não queria passar uma imagem exigente ou chata então ficou quieta. Franziu o cenho enquanto colocava uma garfada na boca. – Bom, eu realmente espero que esteja melhor do que nuggets. Sem ofensas. – afirmou, repetindo o gesto do garoto e então se pondo a rir. – Me deu um trabalhão te preparar isso, hein Miller. – admitiu, esperando que ele percebesse como ela havia criado expectativas para aquela noite.
Ao ouvir a pergunta sobre sua família tentou não associá-la diretamente a um potencial medo de Rain para com seu pai. Talvez raiva. Ou até mesmo ódio. Não sabia o que o garoto pensava se tratando de um assunto tão delicado e embora em seu âmago a vontade de perguntar fosse gritante, jamais ultrapassaria algum limite dele, deixando-o desconfortável, e por isso se limitou apenas a respondê-lo. – Eles foram fazer um cruzeiro até a América do Sul. Eu devia ter ido também, mas tive reunião na biblioteca ontem. – fez uma careta, mostrando seu desapontamento. A situação em que estava era a melhor recompensa pela viagem perdida, mas seu sonho de visitar outro continente ainda ficava ali, no canto da sua mente, lembrando-a que existia, e que devido á uma reunião boba de trabalho não pudera realizá-lo. – Bom, a ideia é que eles voltem daqui a duas semanas. Meus irmãos e meus pais tiraram as férias no mesmo período para poder aproveitar melhor. – explicou. Mal sabia o que a fizera sorrir naquele momento. Se fora o que Rain dissera, ou a maneira como o dissera, com tanta vergonha e timidez. Achava incrivelmente fofo - e suspeito para alguém como ele - seu nervosismo diante dela. Pequenas atitudes como aquela faziam seu coração acelerar o batimento. – É… Seria. – concordou, o olhando ternamente. Piscou algumas vezes, fugindo de sua distração e voltou a comer.
Assim que os dois terminaram, colocou os pratos na pia e fez menção de sair da cozinha. Daria um jeito neles no dia seguinte já que não seria necessária a sua presença no trabalho. No caminho para a sala, pegou uma jarra de alumínio que estava sobre o fogão ligado, dois potes circulares, um pacote de morangos, um saco de mashmellows e dois garfos. Organizou o fundue improvisado na mesa de centro e atreveu a mergulhar um morango no chocolate, logo o levando a boca e encostando-se no braço do sofá, ficando cara a cara com Rain, que se encontrava no lado oposto. – Tá me batendo um banzo… – comentou, sentindo seus olhos pesarem como sempre acontecia quando comia. – Vamo brincar de alguma coisa pra ajudar a passar? – sugeriu, envergonhada por admitir que estava com sono.
As poucas palavras de Desiree fizeram Rain ficar um pouco atordoado devido ao tom de voz que ela utilizara. Parecia que a expressão dela demonstrava, também, algo entre 'sem graça' ou desconforto. Isso fez com que Rain pensasse que havia ido adiante demais naquele assunto que agora os envolvia, por mais que tivesse ficado extremamente curioso com o fato dela ter visto não uma, mas duas criaturas místicas que ele sequer acreditava quatro meses atrás. Como era uma fada?, ele se perguntou. Elas tinham asas? Conseguiam voar, como nas fábulas para crianças? Uma sereia cantava bem e enfeitiçava os homens para matá-los, assim como nos mitos antigos? Suspirou baixinho, balançando a cabeça como se tivesse completa noção do que ela estava falando. Tinha tantas perguntas para fazer que a primeira coisa que faria ao sair da casa de Desiree era ir ao encontro de Noah, de preferência com o restante da família dele também. Além do mais, parecia que ela nunca gostava de falar disso, então ele passou a respeitar e ficou calado.
No lugar livre e de frente para ela, Rain se sentou com cuidado, observando ambos os pratos e colocando sua garrafa esverdeada quase vazia de lado. Ele sequer lembrava quando fora a última vez que comera uma refeição de verdade, feita por uma pessoa, e não industrializada e lotada de conservantes; não que ele se importasse com essas coisas, nunca lhe fizeram mal. Soltou uma risada rápida, levando o garfo até a boca e imediatamente sentido o gosto de queijo que adorava e, em seguida, empanado, como havia parcialmente esperado. "Porra, isso chega a ser perto de um orgasmo de verdade. Só não sei se é a fome ou se está realmente bom." Riu, colocando mais um pouco da comida na boca. A risada dela o pegou de surpresa, contando com a fala, e ele apenas sorriu de lado, tentando não deixar o seu lado convencido tomar conta do seu sistema e estragar aquele clima confortável. "Um trabalhão? Pode ser que tenha valido à pena, quem sabe. Já disse que sou difícil." Brincou, piscando um olho para ela e ficando de bico calado de uma vez.
Ele, como sempre, escutou atentamente o que Desiree falava, desviando o olhar apenas por alguns segundos quando se pegou pensando no pior. Não tinha pensado duas vezes antes de perguntar, e mesmo que fosse verdade, ela poderia ter pensado que agira de má fé ao fazê-lo. Isso era uma coisa que ele definitivamente não queria. A diferença entre a garota e seu pai, assim como a sua relação com cada um dos dois, era gritante e Rain sabia separar as coisas muito bem, só era curioso e impulsivo demais da conta às vezes. Tudo que ele fez foi assentir com a cabeça. "Pena que você teve essa reunião, né?" Repetiu, dando uma risada nervosa e coçando um olho. Não sabia se ela preferia ter ido com eles ou ter ficado em Victoria, aproveitando o tempo livre para vê-lo ou algo assim. Não quis perguntar também, pois podia ser uma coisa pessoal e àquele ponto não era bom criar nenhuma expectativa ruim depois de tanto tempo o fazendo. Ela tinha acabado de revelar que ficaria duas semanas sem os pais e todo o resto da sua família em casa, e Rain não sabia como se sentir em relação à essa informação. Qualquer coisa que envolvia Desiree para ele era uma maldita confusão, já sabia disso. Assim como o olhar dela que caiu sob si por contáveis segundos, fazendo que uma leve tensão se instalasse no momento por nenhum ter quebrado o contato pelo curto período de tempo.
Depois dela colocar tudo na pia, ficou quieto na sua, seguindo ela com o olhar e estranhou o fato dela ter conseguido carregar tudo de uma vez sem pedir ajuda. Ficou a olhando colocar tudo no centro, entortando a boca ao notar que ela havia acertado duas de suas comidas favoritas em uma noite. Quando ela se sentou e ele fez o mesmo, abriu o pacote de marshmallows e espetou dois com o garfo, melando no chocolate em seguida. Estava tão distraído com o sabor dos doces combinados que virou o rosto para ela com as bochechas cheias, um pouco confuso. Franziu o cenho enquanto engolia, lambendo os lábios em seguida. Pensou em como poderia resolver o 'banzo' dela facilmente, mas nem cogitou falar em voz alta, até porque ela tinha sugerido algo mais inocente e sem qualquer outra intenção. Enquanto pensava em algum tipo de jogo, também ficou na dúvida se acabaria com os marshmallows sozinho. Deu uma risada quando pegou um morango e colocou no chocolate, olhando para ela em seguida depois de mastigar e engolir. "Olha, eu diria que seria legal algum de tabuleiro, mas eu não sou muito competitivo nesse tipo de jogo, então você acabaria dormindo." Deu de ombros, passando a língua entre os dentes e pegando outro morango -- a sua fome não parecia acabar nunca. "Jogo de videogame é chato pra você..." Pensou alto, dando um último gole na sua bebida que levara até a sala junto consigo. Então, olhou para a garrafa arqueando uma sobrancelha e virou-se para ela. "Verdade ou desafio pode ser interessante." Sugeriu, dando uma risadinha depois.
Depois de pegar um punhado de marshmallows, caminhou até um lugar onde o chão estava vago para que os dois pudessem se sentar, com a outra mão segurando a garrafa que ele assegurou estar sem mais nenhuma gota. De frente para ela mais uma vez, não conseguiu conter um sorriso e colocou a garrafa no meio dos dois, logo jogando uma das bolinhas de açúcar na boca e mastigando rapidamente para tirar o gosto amargo de cerveja. "Este lado é quem responde, esse é quem pergunta." Apontou para o fim da garrafa e para o começo, assim que falava respectivamente. Girou a garrafa e, ao que esperava ela parar, terminou os marshmallows e limpou as mãos na calça sem se importar. Havia parado do jeito que Desiree o responderia, e deu uma risada pelo nariz antes de encará-la. "Verdade ou desafio, DDG?"
naturally {royller}
Dois meses haviam se passado desde que Desiree saíra correndo do apartamento de Rain. Com a rotina intensa de treinos recém instalados, Noah tinha uma frequência bem maior na vida do loiro. O que passava longe de ser algo que desaprovasse. Acreditava no potencial do primeiro dos lobisomens mesmo que tivesse conversado com ele poucas vezes e que fosse provavelmente a pessoa mais brincalhona de Victoria, e Deus sabia como o garoto precisava de um ícone que fosse realmente capaz de ensiná-lo a se controlar da melhor maneira possível. Com tanto tempo se transformando e lutando, as horas que restavam para ele eram usadas no descanso, e devido a isso, os dois passaram a se falar muito, mas apenas por Whats App. Passava longe de Roy tentar interferir na nova rotina de Rain, mesmo que seus dias na biblioteca e em casa estivessem se tornando uma tortura e os pontos altos de seus dias fossem as mensagens que recebia.
Cansada da sua perspectiva de vida, Desiree resolvera se transformar nesse tempo livre. Cortara o cabelo e mudara o estilo de suas roupas. As cores continuavam presentes, mas havia abandonado o lado “girl next door” e dado vez a algo um pouco mais edgy, com roupas mais ousadas e “na moda”, se assim pudessem ser definidas. O fato de ter sido promovida a chefe do Departamento de Perguntas e Procura fez com que se afastasse um pouco dos livros, uma vez que passava seus dias oferecendo resumos e novas opções de autores e obras literárias. Pelo menos estava sendo remunerada, finalmente. Já que não conseguia sair com Rain e passava o dia inteiro com Alice ou com sua família, Desiree acabara se dando conta do quão resumida era a sua lista de relacionamentos. Por isso, resolvera seguir um de seus sonhos deixados de lado, e entrou num curso de jazz contemporâneo. Lá fez novas amigas e ocupou seu tempo livre, além de tornear seu corpo com o exercício físico.
Era quarta-feira quando seus pais anunciaram que a família inteira iria viajar. Sabia que aquilo era apenas uma tentativa desesperada de salvar o casamento que afundava cada vez mais. – Desculpa, não posso ir com vocês. Tem reunião do conselho da biblioteca amanhã e eu não tenho como já me dar ao luxo de perder. – uma leve confusão se instalou e seus pais brigaram novamente porque sua mãe havia dito que surpreender não era a melhor coisa mas acabou cedendo ao plano “imbecil” - nas palavras dela - de seu pai, mas no fim, chegaram à conclusão de que Desiree ficaria em casa sozinha para que não perdessem todos os outros pacotes. Sendo assim, no dia seguinte viajaram enquanto a morena foi à tal reunião. O sócio mais antigo havia morrido e em sua homenagem a biblioteca seria fechada na sexta-feira. Com isso, Desiree se apressou a mandar uma mensagem para Rain. “Então…Meus pais viajaram e o pessoal da biblioteca me deu folga. Que que você acha de vir jantar aqui? Acho que até já esqueci sua cara *emoji da gota*”.
Assim que recebeu a confirmação, saiu para comprar os ingredientes do jantar, e passou seu dia livre arrumando a casa, se livrando de fotos constrangedoras e cozinhando. Ás cinco da tarde tudo já estava pronto e Desiree fora se arrumar. Os cabelos encaracolados saiam sobre seus ombros e a garota usava um par de jeans claros, uma cropped listrada, uma camisa jeans por cima e nada nos pés. Correu para a porta no mesmo instante em que escutou o barulho da campainha. – Boa noite, Wolfy. Você também melhorou muito nesses dois meses. – riu enquanto fechava a porta. – Então, você já tá com fome? Não sei se comeu algo antes de vir, mas te garanto que eu vou fazer sua barriga ter um orgasmo hoje. – disse animada. Andou até a cozinha com Rain em seu encalço e abriu a geladeira. Lá pegou uma cerveja para sua companhia e uma garrafa de vinho para si mesma. O despejou na taça e começou a colocar a mesa para os dois. – Me conta como tão os treinos! O Noah é tudo que esperávamos? – perguntou.
Os olhos cor de mel de Rain percorreram o interior da casa de Desiree, até onde não conseguia mais enxergar. Ele nunca tinha a visto por dentro, e tinha de admitir que estava um tanto quanto surpreso com o conforto súbito que sentira ao entrar. Lembrou-se que seis pessoas, contando com a garota próxima de si, moravam ali, e talvez fosse por isso o clima levemente aconchegante. Retirou a jaqueta escura, fazendo com que grande parte das suas recentes tatuagens ficassem amostra, e colocou sobre o sofá, rapidamente a seguindo até a cozinha. Antes que pudesse respondê-la, sentiu o ronco baixo da sua barriga e deu um riso fraco. “Algo entre uma fome controlada e a vontade de comer desesperadamente alguns nuggets.” Disse, risonho. Estava com um altíssimo astral e tinha certeza que nada poderia estragar a noite que teria com Roy. Pegou a cerveja um pouco hesitante, não sabendo se deveria beber na frente dela e passar de algum limite que sabia que ela tinha. Além do mais, fazia muito tempo que ele não o fazia, e também não sabia a sua atual tolerância à álcool – se é que tinha. Quando a viu pegando uma taça de vinho para si, terminou por abrir a garrafa de vidro rapidamente, logo notando que não havia perdido o costume.
Enquanto a olhava colocar a mesa, encostou-se na parede e deu um gole na cerveja, sentindo o líquido escorrer pela sua garganta de forma gélida e um tanto satisfatória. Riu em seguida com a pergunta dela. “Olha, sendo honesto, ele é muito bom, mais experiente que o Cain e tudo mais. Me ajudou bastante e eu sou eternamente agradecido por isso. Mas, falando sério, o cara é meio bobão. Eu sei que eu também sou às vezes, não precisa dizer.” Revirou os olhos, fazendo uma breve careta. “Só que ele é totalmente submisso à mulher dele, mais do que o necessário e até mais do que eu s-…” Respondeu sem pensar, principalmente na última parte, gaguejando logo ao se tocar. Engoliu em seco e virou grande parte da bebida como se fosse mudar alguma coisa, pensando rapidamente em algo para que pudesse continuar. “O filho dele também me ajudou numas paradas. Sabia que ele tem, tipo, um ano e a aparência de dezoito anos? Bizarro.” Franziu o cenho. “E a mulher dele, Maya, é sereia! Eu nem sabia que sereias existiam. Você já viu uma?” Perguntou com um meio sorriso, empolgado. Sabia que Desiree estava nessa de conhecimento sobrenatural há bem mais tempo que ele, mas não conseguiu evitar em demonstrar a animação com tudo que o envolvia agora. Menos a parte de se transformar em luas cheias, claro.
Andou calmamente até onde Desiree estava após terminar de arrumar tudo, se colocando ao lado dela. “O que você vai fazer para minha barriga ter um orgasmo? Olha, sem querer botar pressão, mas tem que ser melhor que nuggets.” Ergueu as mãos, arqueando as sobrancelhas e prendendo uma risada. “Sou bem difícil de ser conquistado pela barriga.” Comentou, dando uma risada curta logo depois. Então, se pegou observando como ela não tinha só mudado o corte de cabelo, que, apesar de gostar de cabelos longos, tinha sido uma ótima escolha, na opinião de Rain. Ela não parecia mais a Desiree que conhecera, mas isso não significava que não tinha gostado – muito pelo contrário. Notou como agora tinha mais curvas e certos lugares mais evidenciados devido à mudança. No entanto, acima de tudo, ela tinha lhe dado a famosa chance que tanto insistira e agora era uma pessoa bem mais cativante do que já achava antes de tudo. Fosse coisa da sua cabeça ou não, abriu um sorriso de lado, dando mais um gole na bebida. “Para onde sua família viajou mesmo? Eles vão demorar a chegar, não é?” Perguntou na curiosidade, torcendo para que ela não achasse que tinha algo subentendido por detrás. Mesmo que, inconscientemente, tivesse. “Não seria muito legal se... E tal...” Falou sem jeito, gesticulando e esperando que ela entendesse.
chorei
por isso rebloguei
te odeio
naturally {royller}
Rain passara várias noites em claro. Havia dias em que treinava e controlava seu temperamento com Noah Fitz por horas. (Ele era realmente um treinador melhor que Cain, afinal, era o primeiro da espécie em Victoria). Havia dias que ele passava o tempo inteiro pensando em como seria se ele tivesse outro ataque de raiva na frente da garota que gostava. Havia dias que ele brigava com o seu melhor amigo por simples coisas, mas que duravam até a madrugada. Rain não conseguia se reconhecer mais àquele ponto. Tinha passado umas semanas até que ele voltasse a ser como antes. Antes da transformação, antes de ter chegado à morte por conta do pai de Desiree.
O dia estava frio, o que já era de se esperar. Quando Rain acordou já passava das cinco horas da tarde, visto que havia se transformado noite passada e chegado apenas ao amanhecer. Apesar de tudo, não estava cansado - sentia-se mais forte e confiante. A casa inteira estava em silêncio, e ele presumiu que seu amigo já tivesse escapado de casa, pois estava em algum tipo de relacionamento com uma garota mal humorada e que ele já teve a oportunidade de conhecer antes, Farrah. Estava bem feliz por ele, no fim das contas, só assim tinha tempo de ficar sozinho. Nunca se passou pela sua cabeça que um dia ele preferiria a solidão à uma festa cheia de garotas bonitas e que ficariam com ele em um piscar de olhos.
Enquanto mexia em seu celular para checar o que havia ocorrido enquanto estava em seu precioso sono, ele bebia uma garrafa d'água sem interesse algum. A surpresa em seus olhos ficou evidente no momento em que ele leu sua mais recente mensagem, mas um sorriso lotado de diversas emoções não deixou de ser esboçado. Miller não sabia pelo o que ficava mais feliz: por Desiree ter o chamado para jantar na casa dela, ou pelos pais dela não estarem em casa. Seria interessante encontrar com o pai de Desiree, mas pelo menos não agora, não até ter algo fixo com a garota. Não queria ver todas suas chances escorregarem pelos seus próprios dedos, embora algum tipo de vingança - não tão grande, apenas o suficiente para se ver feliz e sem dívidas - viesse a cada segundo.
Quando estava perto do horário marcado, Rain estava pronto para ir. Ele ajeitou os fios claros enquanto descia a escada, dando de cara na metade do caminho com o mais novo casal da cidade; um dos mais improváveis também. A garota estava de cabelos levemente assanhados, assim como o seu amigo, no entanto, carregava a mesma expressão séria de sempre. Rain nunca havia visto Farrah sorrir, honestamente. Sem falar nada, apenas soltou uma risada metade irônica e metade alegre, pulando o resto do percurso para evitar que um dos dois falasse algo ou lhe batesse. Então, correu para fora da casa, colocando uma jaqueta escura para que o protegesse inutilmente do frio.
Não demorou muito para que ele estacionasse na frente da casa de Desiree. Aquela calçada lhe trazia más lembranças, mas abanou a cabeça para que nada pudesse estragar o seu dia. Sorrindo sozinho, como fizera todo o percurso, apertou a campainha e esperou que o belo rosto da morena aparecesse em seu campo de visão. E, quando a viu, nunca desejou tanto uma pessoa. Ela estava mais bonita ainda do que se lembrava. Antes que ficasse parecendo um tolo, sorriu novamente e deu-lhe um selinho rápido. — Boa noite, DDG — falou, animado. Os seus olhos estavam sempre grudados nos dela. — Você está linda, tenho que admitir. — Deu uma risadinha, erguendo os braços como se dizer aquilo fosse a coisa mais difícil do mundo.
The Night || @Royller
desireeroy:
Cerca de quinze minutos haviam passado entre beijos e mãos correndo soltas. Àquele ponto Desiree mal se importava mais em manter o seu antigo perfil. Sendo honesta consigo mesma, a última que ela estivera tão próxima de alguém para ter alguma relação física fora com seu antigo namorado, há mais de dois anos. Infelizmente, não podia jogar para os ares o seu perfil de boa moça para ficar com quem quisesse. As pessoas falariam, e como ninguém sabia sua verdadeira idade, somente os outros vampiros, os comentários não seriam favoráveis a ela. Ninguém ali entendia que ela era uma mulher presa em um corpo de adolescente. Para toda a eternidade.
Por mais novo que Rain fosse, a fazia se sentir inexplicavelmente bem, como se nada mais fosse importante quando estava com ele. Apaixonada? Talvez. O sorriso mais honesto se abriu quando ouviu os sussurros de Rain. Passou a mão por seu cabelo recém clareado, e fitando-o bem para que ficasse claro que a recíproca daquele elogio era completamente verdadeira, depositou um beijo terno em seus lábios, fazendo força para levantar os dois corpos. Uma vez que estavam sentado no sofá novamente, desceu as mãos até o cós de sua calça e encostou as mãos no seu abdomên, levantando a blusa conforme buscava seu peito. Rain era forte antes da transformação, mas depois dela sua musculatura desenvolvera muito mais e o contato com a sua pele quente e exposta fez Desiree se arrepiar dos pés a cabeça.
Arrancou a camisa do loiro fora e se impulsionou para o colo dele, atravessando a pernas na sua cintura. As unhas da morena arranhavam as costas de Miller com força suficiente para deixar marcas. Rain a ergueu e jogou-a no sofá, ficando no topo outra vez. O onda de sensações inexplicáveis percorriam seu corpo naquele momento. Como nenhum dos dois precisava falar nada para deixar claro que aquilo era algo que ambos queriam há muito tempo. Teria sido bobagem arquitetar todas as suas ações com relação a Rain? Deveria ter deixado as coisas acontecerem do jeito dele e talvez assim eles estivessem oficialmente juntos há mais tempo? Provavelmente, mas se tinha algo do qual Roy estava certa era que caso não o tivesse feito, aquele momento não traria metade do prazer que estava trazendo.
A medida que seus cabelos estavam nos ares, perdidos em um nó sem fim, suas botas jogadas em um canto qualquer da sala, sua blusa entreaberta, com um sutiã rendado preto aparecendo completamente e suas mãos correndo soltas para desabotoar a calça de Rain, o barulho das chaves girando na fechadura foi o suficiente para que ambos arrancassem abruptamente as línguas das bocas um do outro e se levantassem para de cara com Cain encarando-os com o sorriso mais safado do mundo. O rosto de Desiree passou de morno para fervendo em alguns segundos e ela não parou de encarar o melhor amigo de Rain, sem reação alguma até que ele desceu o olhar um pouco, e ao fazê-lo também, Roy notou que seu sutiã estava completamente livre a visão dele. Puxou os lados da blusa o mais rápido que pôde e se encolheu um pouco com a vergonha que a consumia. Não sabia se falava algo ou se deixava Rain se resolver com ele da forma que achasse mais adequada. Abaixou o olhar e passou uma das mãos no cabelo, enquanto a outra segurava a blusa.
Rain não se lembrava quando fora a última vez que se sentira daquela maneira. Ou se ele sequer tinha se sentido assim uma vez na sua vida. Não apenas por ser um lobisomem, sua pele estava pegando fogo. Sentia como se todas suas células tivessem se movimentando na velocidade da luz a cada segundo que se passava numa área mais embaixo. Ele sentia como se quisesse domá-la, mas ser domado também. Como se o pedido dela fosse uma ordem, e ele o faria em segundos. Ele se sentia como o mais belo cachorrinho de Desiree. Talvez essa fosse a definição de "entregar-se a algo além da atração" ou, como outros dizem, "ter sentimentos". Indesejáveis, para acrescentar.
Seus olhos claros nunca tinham ficado dilatados por ninguém. Nunca teve tanta vontade de foder alguém, como se dependesse disso para respirar. Nunca gostou tanto de um sorriso. Nunca gostou de cada centímetro de uma pessoa. Nunca chegou a pensar em como ficaria longe de uma pessoa; dela, principalmente após esse momento. Ele não aguentaria mais dois meses longe de Desiree. Nem se levasse uma surra todo dia. Ele não conseguiria vê-la longe, muito menos nas mãos de outro homem. Nem se via mais com outra mulher, o que com certeza tinha virado o seu mundo de cabeça para baixo, visto que nunca tivera um relacionamento sério. No entanto, para cada regra tem sua exceção.
Quando Desiree subiu em seu colo, ele não pôde ver nada além de grandes volumes em sua frente. Sem esperar um segundo, suas grandes mãos avançaram para os botões da blusa dela e logo todo o seu tronco era visível. Ele suspirou quando separou sua boca da dela por um instante para ver o que as roupas de Desiree esconderam todo esse tempo. Rain sempre imaginou como ela era sem todo aquele tecido, mas o que via na sua frente agora era dez vezes melhor. Agarrou as cinturas dela, como se tivesse a abraçando, e voltou a beijá-la com tanta empolgação que a deitou novamente no sofá, sem muito cuidado. Ele não hesitou em passar suas mãos por todo o tronco dela, em lugares mais específicos, uma vez que ela também procurava o botão da sua própria calça.
A mão de Miller estava prestes a soltar o fecho do sutiã dela para finalmente colocar sua língua em outro lugar, quando ouviu a porta ser aberta com rapidez. Levantou sua cabeça de súbito, com o cenho franzido, vendo Cain entrar na sala com um sorriso que o tirou do sério, fazendo-o fechar as mãos em punhos de imediato. Não tinha hora mais convencional para o imbecil do seu melhor amigo chegar em casa? — Bem... vocês estão em chamas, eu posso ver. — Cain caçoou ainda com o mesmo sorriso. E então fez uma coisa que explodiu a cabeça do loiro; olhou para sua garota. Não era exatamente sua, mas para Cain era. E qualquer outro homem.
Puxou todo o ar que conseguia e colocou uma almofada sobre a área antes descoberta de Desiree, apenas para ter certeza que estava coberta. Em seguida, saiu de cima dela sem tirar os olhos de Cain, que essa hora ria descontroladamente, e, sem pensar duas vezes, jogou por reflexo um dos vasos que tinha na sala em direção ao amigo. Claro que este também tinha reflexo, portanto, desviou. Sem achar suficiente, andou a passos pesados até onde ele se encontrava e o agarrou pela blusa. — O que porra você pensa que está fazendo aqui? — murmurou rangendo os dentes. Sentia a raiva ferver no seu sangue. Rain estava prestes a joga-lo para fora da casa quando ele o prendeu na parede pelo pescoço. — O que eu disse sobre controlar a raiva, Rain? — falou calmo, entretanto. Sabia que não poderia estressá-lo mais ainda, ou o loiro seria capaz de ficar tão forte quanto Cain, que era o experiente no assunto.
Após alguns segundos tentando retornar a cabeça no lugar, ainda olhou para Cain com raiva, mas já bem relaxado. — Nunca mais olhe para ela desse jeito, ou interrompa um momento como esse. Você pode escutar muito bem. — resmungou e deu uma tapa do braço do amigo, empurrando-o um pouco para longe de si. Após rolar os olhos, Cain subiu provavelmente para o seu quarto. Rain, contudo, sequer ligou para o tamanho que sua ereção estava, apenas caminhou até Desiree e fez uma careta, tentando amenizar as coisas. — Desculpa por isso, DDG.
The Night || @Royller
desireeroy:
Desde que conhecera Rain, Desiree tentava constantemente prová-lo que não importava o quanto corresse, ou o que fosse capaz de dizer, ela jamais seria mais uma de suas conquistas em vão. Odiava o fato de que Rain, com sua beleza e charme, usasse as garotas como brinquedos, e anos atrás prometera a si mesma que caso um dia fosse vista como alvo, não o deixaria ganhar. Isso se devia ao fato de que Roy nunca havia se curvado à nenhum homem, e Miller não seria o primeiro a achar que o sexo dela era o frágil.
Durante todo o trajeto até a sua casa, a morena fora repetindo para si mesma como não se deixaria vencer - algo que ela já vinha perdendo controle desde a sua primeira conversa com Rain. Para cada passo que Desiree calculava tomar, Rain tinha exatamente a única reação que a fazia perder as estribeiras. Agora os dois se encontravam frente a frente, depois de uma confissão incluindo o assunto que ela jamais ousara abrir a boca para falar, chorando que nem uma criança, na presença da única pessoa que ela não queria se deixar passar vergonha. Ótimo, pensou enquanto o loiro falava.
Desiree, uma adulta de 72 anos, ainda agindo como adolescente perto daquele menino, que ousava chegar cada vez mais perto, usando as palavras certas. Qualquer uma das vezes que Rain ultrapassava a linha da distância segura, o cérebro de Desiree entrava em estado de paralisia e nada mais funcionava. Naquele momento a voz dele entrava rouca por seus ouvidos num tom mais baixo, e em meio delas os olhos da garota focavam em seus lábios cheios e rosados. Respirava fundo, mas não conseguia, e nem queria se mexer. A mão dele secava seu rosto com delicadeza, e a distância se tornava cade vez mais tênue.
Segundos se passaram antes que Roy conseguisse obter alguma espécie de reação. Abriu um sorriso curto, e levantou o olhar, determinada a provar que Rain não era o único que sabia jogar aquele jogo. Sem falar nada, subiu sua mão com suavidade até o pescoço do garoto, e sem tirar seus olhos da boca dele, que agora brilhava devido a saliva, a desceu devagar até o seu peito, repousando-a por uma fração de segundo com calma sobre a sua camisa. Exatamente o tempo suficiente para levantar o seu olhar e encará-lo uma última vez antes de fazer algo que ele não esperaria vir dela nem em um milhão de anos. Assim que fitou suas orbes castanho-claro, fechou o punho prendendo a camisa e o puxou para perto de si, juntando os lábios em um beijo feroz, quase animalesco. Puxou para perto de si pela camisa enquanto se deitava no encosto do sofá e o garoto ficava em cima dela. Há muito tempo não sentia o gosto de Rain e só Deus sabe como pensar que nunca mais o faria a deixou.
Depois de todas as bobagens, Rain nunca esteve tão certo e firme de suas palavras. Apesar disso, sua confiança estava no espaço. Estar com Desiree, em suas palavras, era uma forma de deixar de lado tudo o que costumava ser. Em que mundo Rain Miller ficaria sem saber o que fazer, descrente e apreensivo? Ainda mais quando se tratava de uma garota. Uma garota que aparentemente o fazia de tolo. Uma garota pouco se importava com os sentimentos dele. Mas não havia nada que ele pudesse fazer em relação à isso, nada além esperar.
Rain ainda não havia testado sua paciência, acostumado a ter tudo que quer na hora que quer. Ele não sabia quando ia simplesmente desistir de tentar conquistá-la, tê-la somente para si. A sua disposição para mudar de comportamento poderia deixar o seu corpo a qualquer momento, e na hora que ela fosse, talvez nunca mais volte. Afinal, o quão burro ele poderia ser para deixar-se cair na tentação de uma simples atração novamente? Ele podia se fazer de burro às vezes, mas definitivamente não era. Para falar a verdade, ninguém nunca havia o conhecido sem toda aquela imagem que ele próprio criara. Nem mesmo Cain. Talvez Desiree fosse a primeira. Talvez não.
Ele a obserava, estática, e pensou mais de dez vezes se deveria voltar atrás com o que disse, mesmo realmente não querendo fazê-lo. Tentava ser transparente como água com Desiree, e esperava que ela estivesse fazendo o mesmo. Não queria ser tratado como um tolo, alguém que ela podia usar e abusar quando quisesse. Aquilo não era um jogo. Ele não queria machucar ninguém. No entanto, a única coisa que ele sabia era que, caso seu coração fosse dilacerado pela vampira bem em sua frente, Rain não conseguia nem pensar direito na consequência. Estava começando a ficar atônito.
Um toque. Um mísero toque fora o suficiente para trazê-lo de volta à realidade. Todo seu corpo entrou em choque, arrepiando cada mínimo pêlo existente ali, em resposta ao seus dedos gélidos. Outra dose de insegurança tomou conta de si no momento que permaneceram a se encarar antes dela agarrar a sua camisa. Então, tudo que ele esperava que não fosse acontecer, aconteceu. Ele esperava um soco, uma tapa, o seu braço quebrado e, na melhor das hipóteses, um adeus. Sinceramente, parecia que havia uma mísera menininha dentro de si naqueles milésimos de segundos. Entretanto, logo após, toda sua masculinidade e desejo pela Desiree voltaram como um raio. E, droga, ele finalmente havia tocado naqueles lábios singulares depois de tanto tempo; algo que esperava desde que voltara à biblioteca e a vira.
Miller não esperava nem em um milhão de anos que a frágil e inocente Desiree o faria ficar por cima de seu corpo magro, porém estava longe de ser algo que ele reclamaria. Apoiou todo seu peso na mão direita, onde a esquerda descia com hesitação pelo corpo dela, até parar sobre a sua cintura. Por mais que seu coração tivesse acelerado, sua respiração continuara firme. Ele finalizou o beijo com lentos estalos na boca dela, sentindo que podia entrar em combustão. Por força do hábito, abaixou a cabeça até o pescoço dela, onde passou a beijar e levemente morder a pele morna, deixando resquícios molhados por lá. — Você é insanamente linda. Caralho. — xingou baixo, deixando seu corpo pender um pouco para baixo, tocando a sua pele sensível sobre a dela. Ajeitou o rosto para beija-la novamente, enquanto descia com cuidado a mão livre pela sua calça. Já não sentia mais nada de frio.
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Com toda a ironia e improbabilidade de uma conversa como a que estava tendo realmente acontecer, Desiree apenas conseguia se por a rir. Para cerca de 5,8 bilhões de humanos presentes no planeta, um diálogo que envolvesse vampiros, lobisomens e as particularidades de cada uma dessas espécies só era realidade nas cenas de Crepúsculo. Principalmente quando esse diálogo envolvia o seu recém transformado amigo-ficante-crush tentando definir o cheiro de carcaça morta que infelizmente todo morto vivo expelia. – Acredite, durante um ano inteiro eu fiz de tudo para mascarar esse cheiro, mas apesar de enganar todo mundo, vocês… lobisomens, tendem a ter um olfato invejável. – respondeu, seguindo o loiro com o olhar.
Rain apresentava uma feição confusa, quase transtornada, e Roy sabia muito bem quanto tempo aquilo levaria para passar. Se não tivesse uma pele incapaz de envelhecer, certamente estaria entupida de marcas de expressão no rosto. Para qualquer sobrenatural uma mudança de vida tão radical quanto a da transformação era mais estresse do que se podia suportar, e Rain estava se saindo surpreendentemente bem para alguém que descobrira a pouco que havia sido transformado em um filhote de cachorro.
No entanto, mais surpreendente do que a tranquilidade relativa da sua companhia era a sua relutância em perceber que o mundo inteiro deveria ser visto com olhos diferentes a partir daquele momento. Desiree buscou sua mão e o puxou para o sofá, sem entender muito bem se poderia ter toda aquela liberdade. Sentou-se a sua frente e olhando com ternura em seus olhos claros, respondeu com calma – Eu sou uma vampira, Rain. Infelizmente, anos mais velha do que você pode imaginar. – liberou uma risada irônica. – Eu sei o quão difícil tudo isso tem sido para você e… – fez uma tentativa (em falso) de engolir sua saliva, visto que com todo o nervosismo de finalmente admitir aquilo, sua boca estava completamente seca. Abaixou a cabeça por alguns segundos, e a levantou outra vez, apenas para que pudesse interpretar o olhar do garoto enquanto falasse. – Eu não fugi naquela noite por medo medo de levar a culpa pelo que te aconteceu. Não te deixei lá sozinho até o Cain chegar porque sou insensível ou porque não ligo para você o suficiente para ficar ali até que você estivesse bem, e tão pouco foram estes os motivos do meu pai… Eu simplesmente não conseguia ficar perto de todo aquele sangue. E o cheiro do seu… Me deu uma sede inacreditável. Meu pai passou anos da minha vida me ensinando a não depender da morte de outras pessoas para que eu pudesse sobreviver, e isso foi possivelmente a pior experiência a qual eu já fui exposta. Não tinha forças para ficar perto de você, nem longe de você…
Àquele ponto as lágrimas de culpa já desciam outra vez por suas bochechas avermelhadas. – Se eu ficasse ali teria te matado. Sua única saída foi o fato de que eu consegui sim correr até a floresta, onde o cheiro das árvores era mais forte que o do seu sangue, e liguei para o Cain. O que no começo também não foi a melhor ideia que eu tive porque lobisomens e vampiros tem uma tendência a se detestar, e por melhor que seu amigo tenha sido, ao ouvir tudo que aconteceu, por pouco eu não tive que lidar com a raiva e desgosto dele também… Eu fico muito feliz que você esteja vivo e mais saudável do que nunca! – sorriu em meio as lágrimas. – E que agora eu não tenho mais vontade de sugar seu sangue. – forçou o início de uma risada. Por mais que finalmente contar aquilo para Rain tivesse sido excruciante, se sentia aliviada e mil vezes mais tranquila. – O Cain tem te treinado bem? Tem te contado como as coisas realmente funcionam por aqui? – perguntou, tentando apaziguar a conversa e conter os soluços do recém parado choro.
Rain queria rir com a resposta de Desiree, realmente queria. Mas o humor simplesmente não estava lá. O máximo que conseguiu fazer foi sorrir, mostrando seus alinhados dentes brancos. Ele se deixou ser guiado pela morena, e seus olhos pararam numa região mais abaixo do que as garotas consideravam como agradável ou aceitável. Apesar de saber que ela não podia vê-lo, apenas se contentou em morder a bochecha no momento que fechava sua mão livre num punho. Não poderia se descontrolar agora, de maneira alguma. Em nenhum dos quesitos ou circunstâncias.
Acontece que ele queria, sim, ter algo sério com Roy, mas ele não sabia lidar com isso. Já tivera várias paixonites por várias garotas, e todas deram no mesmo lugar: quatro, cinco noites no máximo. Com Desiree já passava disso, e ele sequer havia tentado levá-la para a cama (vontade não faltava). O fato era que Rain realmente não sabia o que fazer, como fazer para tê-la só para si. Depois de tudo que aconteceu nos últimos meses, constatou que Desiree Roy era um enigma qual estava disposto a desvendar, custe o que custar. Mesmo com esse estabelecimento de mundos agora opostos. Que se foda o oposto. Ele a queria.
Balançou levemente a cabeça para expulsar tais pensamentos um tanto insanos. Ao sentar-se no sofá, inclinou a coluna para a frente e apoiou os braços em suas pernas, o rosto sempre vidrado no dela. Qualquer palavra que escapulia da boca dela era tomada com bastante atenção. Era surreal o poder que ela tinha sobre ele, sequer podia imaginar. No entanto, todos seus pensamentos naquele momento eram retratados na grande interrogação que sua face provavelmente expressava. Ele não moveu outro músculo sequer, apesar de tudo, enquanto ela terminava sua explicação. Miller não sabia como reagir à tudo que ela lhe contara. Talvez o fato dela, por um momento, ter desejado matá-lo lhe poupasse de tanto conflito interno. Mas, uma vez que ele permanecera vivo por causa dela, toda aquela dúvida fora pro ar.
Após ela ter terminado, tudo que Rain fez foi assentir com a cabeça como resposta. Ele não queria saber nem falar de Cain naquele momento. Continuou olhando-a por alguns segundos, sério, até um sorriso esbanjando algo entre satisfação e malícia começar a se formar. — Então... — riu baixo e umedeceu os lábios — Isso quer dizer que você se importa comigo...? Que... gosta de mim? — sorriu de lado e riu fraco mais uma vez. — Falando sério. Ainda bem que você esclareceu tudo que aconteceu lá. Eu não gosto muito de lembrar, mas fico feliz que tenha me ajudado em vez de me matar. Não precisa mais se preocupar com isso, certo? — perguntou, mas soou mais como uma pergunta para si. — Já passou, e eu estou vivo, aqui, e me sentindo incrivelmente bem. — concluiu, e então se virou devagar para o lado que ela estava. — Não precisava ter chorado... — passou o polegar devagar pelo rosto levemente úmido de Desiree, com o semblante calmo.
Miller pouco se importava se ela era uma vampira, e se eles eram supostos a se odiarem. Nunca gostou muito de viver seguindo rótulos. Olhando em suas pérolas escuras, ele murmurou: — Eu realmente gosto de você, Desiree. Muito. Não foi o bastante tudo que me aconteceu? Chame seu pai quantas vezes você quiser, eu não vou desistir até ter uma chance com você. Eu falo sério. — Suspirando, ele pousou a mão na nuca dela e umedeceu os lábios novamente. — Acredite em mim.
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Durante dois meses completos Desiree se consumira com o pensamento da morte de Rain. Hoje, descobrira que ele estava vivo. Mas agora sabia que mesmo assim havia morrido. Uma vez que um sobrenatural abria mão de seu lado humano sua existência passava a ser consequência de uma série de vícios doentios particulares de cada espécie, e Rain desaparecera não por vontade própria, mas por imposição de suas faces animalescas. Contudo, dois meses não era nada perto do longo ano pertencente à sua eternidade que Roy passara abandonando sua sede de sangue. E não apenas ela. Trancada num porão com nada além de água, seu pai descia todos os dias para treinar seu controle. O sangue deveria se tornar seu alimento mais odiado.
Para qualquer vampiro recém criado, passar a detestar sangue era uma tarefa árdua, mas os pais da morena não pareciam ver as coisas dessa maneira. Machista de alma, Robert havia transformado sua mulher e a ajudado a se controlar. O mesmo método foi aplicado a Desiree. Se tentasse pegar o copo de sangue levava surras ou choques, escolhidos com base no seu humor. O seu tão efetivo método levou a garota a ter medo do sangue. Cada vez que o via ou sentia seu cheiro forte, a violência voltava a sua mente. Por isso correra de Rain, e por isso não conseguira juntar forças para ficar ao seu lado. Doía mais seu psicológico do que sua ânsia e desejo pela “droga”. Mesmo que seu treinamento tivesse ocorrido há quarenta anos, tortura não é algo que esqueça com facilidade.
Enquanto divagava em suas próprias lembranças, tomava goles e mais goles de seu café, deixando Rain falar. Tocar naquele assunto era algo que Roy não era muito adaptada ainda. Suas unhas arranhavam levemente a toalha de mesa, revelando seu nervosismo. – Eu não acho que esse seja o lugar mais indicado para conversarmos sobre isso, mas sim, eu sei bem. – abriu sua carteira e tirou uma nota de vinte dólares. A depositou sobre a mesa e se levantou, com a bolsa já em mãos. – Você veio de carro, não é? – perguntou – Vamos para sua casa.
Uma das coisas que sua família a ensinara fora como fingir ser inocente. Ninguém costumava confiar em pessoas hostis, principalmente em Victoria. Com isso, Desiree montara uma outra versão de si mesma, mais doce, conservadora e santa. Um perfil especial guardado para humanos, que facilitava as coisas quando era necessário matar alguém ou sair da cidade. Durante seus quase 70 anos no mundo, havia se mudado oito vezes. Apenas Victoria guardava seu segredo com mestria, afinal, a cidade estava entupida de outros sobrenaturais e os humanos apenas a esqueciam e, mais cedo ou mais tarde, se tornava invisível para eles. Apenas nela se sentiam seguros o suficiente para aumentar a família. Lá, adotaram Justin e tiveram os outros três filhos. Antes da depressão, obviamente.
Agora, podia finalmente respirar e agir como si mesma. Pelo menos na presença de Rain. – Sabe…Uma das coisas que mais me chamavam atenção a seu respeito era o quão cheiroso você sempre estava, mas agora, só consigo sentir cheiro de lixo. – fez uma careta para ele, e depois riu. – Mas, falando sério, mal consigo imaginar como deve ter sido doloroso para você se transformar. Sempre me disseram que para os lobisomens a dor física era insuportável. – jogou a bolsa no sofá dele e se apoiou nas costas do móvel enquanto observava o garoto fechar a porta.
Miller uniu os lábios, formando uma fina linha, e observou Desiree levantar-se de um modo parcialmente rápido. Ele não sabia se tinha feito certo em falar tudo aquilo de uma vez, explorando o lado sentimental que não tinha antes de 'morrer'. Talvez estivesse amargamente arrependido, e parecia que estavam dando contínuos socos na sua cabeça durante todo o trajeto até o carro. De cabeça baixa e com o capuz sobre ela, tinha decidido que ainda não estava pronto para encarar os habitantes de Victoria que agora ele não dava a mínima.
Quando ligou o carro, uma música suave soou pelo ambiente. Diferente das outras vezes, ele procurava qualquer outro som que o impedisse de pensar, mas tudo que Rain mais queria agora era submergir-se em possibilidades e probabilidades. Desiree era uma criatura mística que nem ele? Era uma possibilidade. Ele estava 80% arrependido de ter sido burro o suficiente de ter tocado no assunto em um lugar público? Era uma probabilidade. Não que tivesse sido burro, mas... Rain não desconfiava que para falar sobre tal assunto era praticamente confidencial. Ainda estava incerto sobre o que estava acontecendo.
Fechou a porta com um pouco de força - aprendera a controlá-la a pouco tempo -, e guardou as chaves no bolso enquanto fazia o caminho até a entrada de sua casa. Suspirou quando a observou de baixo, algumas lembranças desagradáveis tomando conta de seu sistema. Rain se via com sorte desde que os únicos moradores ali eram ele e Cain, que provavelmente ainda estava procurando trabalho por aí. Esperava que ele não voltasse para casa cedo, uma vez que não planejara uma conversa de quinze minutos. Ele deu espaço para que Desiree entrasse e, pouco antes de fazer o mesmo, olhou ao seu redor rapidamente. Havia se tornado uma mania - ou um benefício de lobisomem - estar atento à tudo.
Rain franziu as sobrancelhas, com seu olhar nas madeixas compridas, escuras e onduladas de Desiree balançando de um lado para o outro. Como ela sabia? Não tinha contado abertamente, e pensava que ela não tinha conhecimento o suficiente do que acontecera com ele, pelo o que a conhecia. Talvez ela fosse que nem ele, e nunca tivesse notado... Mas... ele fungou e fez uma careta. — Honestamente, você também tem cheiro de lixo. Não lixo... de animal morto — falou enquanto passeava pelo cômodo, e jogou as chaves na mesa de vidro. Ele não esperava uma frase grosseira daquela vinda de Desiree, entretanto, apenas levou na esportiva. Miller parou em sua frente, cruzou os braços e lambeu os lábios ressecados. — Como você sabe o que eu me tornei, Desiree? — indagou sério, a olhando de cima a baixo. — Não é possível. Você não é uma, o Cain teria me falado algo. — Negou com a cabeça e então continuou: — Não é insuportável, caso contrário, não estaria aqui — e sorriu, por fim.
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Por maior o frio que estivessem expostos, nada parecia ser o suficiente para quebrar a barreira que a cidade havia imposto entre neve e névoa. Toda a população se encontrava acobertada por uma nuvem cinza gigante que tornava tudo aquilo com uma distância superior a 10 metros impossível de se ver. De cima a baixo, Victoria parecia estar presa sob uma redoma sem vida. Tudo tinha a mesma cor sem graça e, acreditava Desiree, que a névoa era responsável pela tristeza que acometia a cidade no inverno. Os ventos frios socavam as faces de cada cidadão e não poupavam nem os mais ‘’tolerantes’’.
A maior vantagem de ser uma vampira é que a temperatura do corpo estava sempre tão baixa que sentir frio se tornara algo muito mais próximo de uma mentira involuntária do que uma verdade. O que definitivamente não se aplicava à morena naquele momento. Com a queda brusca de temperatura seu corpo tremia um pouco por baixo do casaco, e o caminho até o bar fora simplesmente torturante. O ar seco fazia com que o cheiro de sangue inibisse qualquer perfume ao faro do vampiro, e Desiree, por mais controlada que fosse, não podia negar que se sentia no meio de um beco com quinze pessoas oferecendo cocaína para um viciado em abstinência. Além disso, o cheiro de esgoto estava mais forte do que nunca naquele dia. Podia sentí-lo desde a biblioteca e agora mais ainda.
Assim que Rain abriu a porta do café e deu espaço para que ela passasse, o alívio percorreu todo o seu corpo e toda a sua mente. Agora sim poderia voltar a ser uma garota perfeitamente, ou melhor, quase, normal. Sentou na cadeira e no mesmo instante em que viu o garçom, pediu um mocaccino. O barulho das pessoas conversando, o aquecedor ligado, as luzes acesas dando vez a decoração colorida do estabelecimento e o cheiro de café e salgados diversos fazia esquecer o ambiente mórbido que se encontrava do lado de fora. Mas nada se comparava ao fato de estar tendo como companhia ninguém menos que Rain Miller. Esse sim mantinha o sorriso em seu rosto independentemente da tristeza alheia. Olhou para os lados e se inclinou para frente. – Você não acha que o prefeito deveria… – fora interrompida por Rain. Deixou de lado a crítica brutal que faria ao governo de Alan Lowe e suas definições limpeza, e focou apenas no que o loiro dizia. Com um sorriso compreensivo plantado no rosto, pôs-se a falar. – Esqueça isso, com meus problemas lido eu. – apoiou sua mão sobre a do garoto e fez uma leve carícia em sua pele quente.
Miller continuou a falar e sua próxima frase caiu sobre a garota com um impacto forte. Sua boca ficou entreaberta enquanto fitava-o, tentando decifrar o significado que havia por trás do que tinha dito, e rapidamente sua mão foi tirada de perto dele. Desiree se jogou no encosto da cadeira, sem deixar de olhar em seus olhos por um segundo sequer. Por isso o cheiro de esgoto estava tão forte, a pele de Rain tão quente, seu corpo tão mais forte, e seu sumiço ainda se mantinha inexplicável. Tudo se encaixava com uma mestria fantástica. A única coisa que ainda continuava duvidosa era a consistência de seu sentimento, mesmo com a barreira Montecchio-Capuleto que fora instituída entre eles. Antes que Roy pudesse responder qualquer coisa, o garçom apareceu com os cafés. – O-obrigada. – forçou um sorriso.
Enquanto tomava um gole de sua bebida, o garoto continuava a esperar uma resposta. E com um tom muito cauteloso e apreensivo, Desiree respondeu. – Bom, eu acredito que existem coisas nesse mundo que nós não conseguimos explicar, e acredito que você não tem que ter medo de fazer parte delas, porque com o passar do tempo tudo fica mais fácil. – disse, na esperança de Rain compreender sua mensagem. – E você? – finalizou, tentando se manter o mais humana possível, apenas para o caso de suas constatações serem incrivelmente loucas e Rain estar apenas tentando puxar conversa da pior forma possível.
Batucando rapidamente os dedos de um modo impaciente na mesa, Rain abaixou a cabeça enquanto o fazia. Alguns fios loiros escaparam do capuz que os escondia anteriormente, mas ele não se importou. Desiree demorava demais para dar uma resposta, e a desconfiança passou a crescer de modo que seu maxilar estava trincado. Ele não sabia mais se contava, se retirava a pergunta ou se simplesmente sairia do local com a pouca vergonha que lhe sobrava. Miller não sabia se tinha pego em algum ponto fraco dela ou algo semelhante, e também não era tão burro para pensar que não havia nada por trás daquele silêncio um tanto perturbador. Puxando todo o ar que conseguia, só conseguia se aconselhar a pensar duas vezes antes de fazer qualquer coisa – não só com Desiree.
Os olhos caramelados de Rain foram dominados e camuflados pela sua pupila, que crescera tão rápido ao óbvio nervosismo emitido por Roy. Era como se ele pudesse farejar a adrenalina escapulindo da sua pele e entrando em contato com o ambiente. Um tanto quanto agoniado, Rain retirou o capuz e tomou grandes goles do seu café, sentindo uma onda fervente descer pelo seu esôfago, que fora até um pouco confortante naquela situação. Sequer se importou em agradecer o garçom. O olhar dele seguia os movimentos de Desiree como se ela fosse fugir a qualquer momento, e ele logo estaria em sua frente, impendindo-a. Cansado de esperar, ele respirou fundo mais uma vez e encostou na cadeira de modo desleixado, com as mãos dentro do bolso para aquecê-las. E quando ela finalmente o respondeu, tudo que ele fez foi franzir o cenho e expulsar qualquer outro sentimento do seu sistema que não fosse a confusão.
Parecia que o tempo tinha parado enquanto ele analisava cada palavra dita por ela. Lambendo os lábios ressecados, ele deixou uma pequena risada escapar depois. "Isso quer dizer que você acredita, estou certo?" inquiriu com um arquear de sobrancelhas. "Poderia ter sido mais direta, DDG" ele revirou os olhos enquanto sorria. "Até parece que não me conhece." ajeitando-se na cadeira novamente, Rain apoiou os braços na mesa e aproximou seu corpo. "Eu gosto de coisas objetivas." enquanto ditava, passava os olhos por uma Desiree Roy sentada, sem a confiança usual que ela costumava ter sobre ele. Rain podia quase vê-la desconfortável, mas não sabia se devia-se ao seu olhar, à sua pergunta, ou à ambos. De qualquer maneira, aquilo o fez sorrir.
"Entremos no seu jogo então," ele começou, divertido. "Eu acredito que a vida nos mostra a realidade no último resquício de sanidade. Acredito que somos forçados a acreditar em determinada coisa, como em Deus, por exemplo, quando estamos com a vida por um fio e não morremos. Como se Ele tivesse descido à Terra e dado uma segunda chance. Acredito que, desprezando o desespero do momento, nada que lhe passou pela cabeça foi em vão. Tudo acontece por uma razão, Desiree." Miller suspirou, riscando a mesa de leve com suas unhas curtas. "Você sabe minhas razões, não sabe?" ergueu o olhar para ela. "Sabe por que eu estou aqui, nesse momento, vivo, conversando com você e não com outra pessoa. Diga que sabe." Franzindo as sobrancelhas novamente, só que desta vez mais para si mesmo, ele se deu conta que dissera tudo. Da mais forma subjetiva possível, e esperando que ela se importasse apenas com uma parte de sua confissão, porque ainda não estava pronto para ver Desiree Roy reagir à uma das coisas que ela provavelmente mais temia.
The Night || @Royller
Por mais que Rain não me dissesse nada naquele momento, eu sabia que ao me olhar, via meu pai, e sabia muito bem o quanto o odiava. Se minha sensibilidade não me pusesse em sua pele, se fosse incapaz de ver sua alma, se não tivesse crescido conhecendo sua situação e aprendendo o que deveria fazer para não desencadear seu extremismo incontrolável também o odiaria. Ali, parada a frente de algo que eu lutara tanto para não deixar controlar minha vida, pude notar que o alívio de não ter que aceitar o que eu julgava ser verdade falava mais alto do que os outros milhões de fantasmas que ainda acompanham a mim e a Rain, mesmo que agora o ponto de vista fosse outro.
– Estive… Por ai. – sussurrei, tentando manter o silêncio da biblioteca. – Eu ainda não consegui me acostumar com tudo que aconteceu. As coisas ficam tão confusas na minha cabeça. O que eu poderia ter feito e o que realmente fiz. As atitudes de meu pai que engoli e todas as mudanças em minha vida pra poder manter uma farsa que eu nem sei mais se foi certo… Não foi fácil me adaptar a uma nova rotina desde que você… bem, sumiu. – admiti, sem ter peito para olhá-lo nos olhos. – Mas sei que do seu lado deve ter sido muito mais difícil, quer dizer, eu estou aqui reclamando dos meus erros mas você também teve que arcar com eles, e de uma forma muito mais dolorosa que a minha. – dei meia volta e peguei o último livro do carrinho. A carta direcionada a Rain depositei no bolso dos jeans.
– Por muito tempo não conseguia ver nada sem pensar no que havia feito a você. A biblioteca, a praia, os carros… Tudo, de alguma forma, fazia eu lembrar de você. Não por qualquer outro motivo, mas pelo jeito que eu pus um fim naquela noite. – depositei o livro no seu devido lugar enquanto falava. – Ontem tomei coragem e voltei a trabalhar, o que é uma ótima notícia visto que eu começava a cavar meu próprio buraco e me afundava cada vez mais. – encostei a cabeça na prateleira, ainda sem ter coragem de fitá-lo. – Deus! Como a Alice me disse que eu deveria tomar alguma atitude, mas vocês não sabem o que é matar alguém. Ah, se soubessem, veriam que “tomar uma atitude” não é nem de perto tão fácil quanto parece. – virei para o loiro sem conseguir esconder as lágrimas de alívio que agora corriam minha face. – Eu não imaginava que você quisesse, ou ao menos fosse conseguir me ver depois do que aconteceu. Te devo um pedido de desculpas. – olhei diretamente para suas orbes mel pela primeira vez naquela tarde.
Não consegui prender a risada quando ouvi uma de suas cantadas mais uma vez. – Vou te poupar dessa vez. Como uma pequena recompensa. Acho que te devo uma, afinal. – passei a mão no rosto para secar as lágrimas. – Meu turno acaba dentro de… – chequei o relógio de pulso – exatos três minutos. – Vou pegar o casaco e nos encontramos la fora.
Enquanto caminhava até o balcão com o carrinho nas mãos, a carta no bolso e Miller ficando para trás, tentei tirar o sorriso do rosto mas não conseguia. Me sentia tão leve naquele momento que nada poderia acabar com meu bom humor. Pus o sobretudo preto e troquei as sapatilhas por botas da mesma cor. Com a bolsa pendurada em meu ombro, prendi o cabelo em um rabo de cavalo alto e pus as luvas de couro. Tudo isso durante uma corrida desajeitada até a saída da biblioteca. Fazia um frio de 3 graus em Victoria e o simples ato de colocar os pés fora do prédio de concreto, com inúmeros aquecedores já me deixava ridiculamente pálida e com o nariz vermelho. Uma rena ambulante, podia-se dizer. – Tem alguma sugestão de para onde podemos ir, ghosty?
Eu escutei cada palavra que Desiree disse com muito cuidado. Ela falava muito baixo, mas ao mesmo tempo parecia querer falar mais e mais, como se tivesse com tudo entalado na garganta desde o ocorrido e queria liberar tudo agora. Meu coração acelerou consideravelmente quando eu a vi se afastando de mim de repente, e imediatamente fiquei em seu encalço. Eu não queria perdê-la de vista, principalmente quando ela ainda achava que tinha sido culpa dela. Ainda estava decidindo como, mas eu voltaria para casa apenas quando eu ajeitasse todo o mal entendido que com a maior probabilidade possível passava dentro de sua cabeça. Ela não merecia nada disso.
O sorriso em meu rosto foi gigante e totalmente involuntário quando ela soltou que lembrava de mim, então eu me lembrei que era a porra da culpa que sentia. Fechei a cara quase que no mesmo instante. O meu subconsciente ficava me enganando a cada palavra que Desiree pronunciava, e a realidade me socava a ilusão de volta. Havia um conflito interno dentro de mim, e eu não tinha ideia de como pará-lo. Apenas engoli em seco como se tudo fosse junto, e permaneci ouvindo-a, com aquela voz levemente rouca, baixa e que era um tanto quanto angelical na minha opinião. Era estranho. Ela calava e ainda assim dançava com os demônios que cresciam dentro de mim. Eu não podia deixar isso acontecer, não podia estragar tudo.
Me veio à mente que eu deveria ter procurado-a antes. Assim que eu fugi do hospital com Cain, eu deveria ter ido atrás dela. Ter dito que eu estava vivo, bem, e que meus novos genes que se fodessem. Se eu não tivesse esperado tanto tempo, talvez eu não estivesse nessa briga confusa que crescia a cada segundo. Porra, ela mal conseguia me olhar! Como eu conseguia ficar feliz por vê-la, só para piorar minha situação, uma vez que eu podia ver que ela não estava totalmente bem? A parte de trás dos meus olhos e minha garganta ardiam. Eu não sabia bem por quê, mas esqueci tudo que rodeava minha mente ao que vi lágrimas escorrendo de suas orbes lindas e castanhas. O que eu poderia fazer? Ela realmente não sabia que seu nome fora a primeira coisa que veio na minha cabeça assim que acordei? Ela não se ligava que se fosse uma qualquer outra pessoa para mim, eu teria sumido do mapa para sempre? Desiree não era qualquer pessoa, muito menos para mim. Eu que devia um pedido de desculpas à ela. Merda.
Depois de assentir e esperar ela sumir do meu campo de visão, cocei o olho direito e me apoiei com cuidado em uma estante. Pensava nas minhas ações cautelosamente e quais coisas eu revelaria naquela tarde. Eu tinha a impressão que se contasse qualquer coisa, por menor que seja, ela iria embora, e nada disso teria valido a pena... Que se dane. Eu era uma pessoa nova agora e ia deixar isso claro. Uma onda imensa de satisfação tomou conta do ambiente e eu sorri largo. Sozinho. Feito um idiota que eu sabia que ainda era; e por ela, também. Era uma das minhas origens que ainda fazia parte de mim.
Andei com passos largos até a saída da biblioteca e, mesmo que o frio não me incomodasse muito devido à minha situação, puxei o capuz para cobrir o topo da minha cabeça e enfiei as mãos no bolso do casaco de novo. Desiree ainda não tinha chegado, e eu balançava uma das minhas pernas um pouco impaciente, como um cachorro fazia com o rabo. Droga, por que ela fazia isso comigo? Não podia ser uma garota mais... acessível, em meus termos antigos? Mordi meu lábio com força. Que se dane meus termos antigos. Desiree seria minha em algum futuro próximo.
Sorri de novo com sua aparição repentina, e ri com o seu 'apelido'. Bem, mais ou menos. Ela parecia de bom humor, e isso me favoreceria muito. Agradeci mentalmente à qualquer um dos deuses que pudesse existir, e pisquei pra ela de novo, como se aquilo fosse uma nova piada interna. "Hm... nós podemos ir para o café do outro lado da rua," sugeri, olhando para o estabelecimento um pouco perto de nós. "Não precisamos ir de carro e poderemos nos aquecer." Dei de ombros e sorri ao que ela concordou. Sem hesitar, passei um dos meus braços pela sua cintura e caminhei até a outra rua com ela bem próxima de mim, aproveitando para esconder a ponta dos meus dedos dentro de sua blusa. E eu não conseguia tirar o maldito sorriso do rosto nem quando empurrei a porta para que ela pudesse entrar.
Nós nos sentamos em uma mesa no canto, mas onde ainda poderíamos ver a calçada do nosso lado através da parede de vidro. A temperatura havia felizmente havia aumentado, e eu pedi um café simples quando um garçom chegou. Desiree fazia o pedido dela enquanto eu reprimia o sorriso olhando para seu rosto pálido de nariz levemente vermelho, que ia sumindo aos poucos. Respirei fundo quando o garçom sumiu de vista e comecei a balançar a perna de novo sem querer. "DDG, você..." eu mordi o lábio novamente, abaixando o olhar para a mesa. Depois de um tempo, olhei para ela de novo. "Você tem que me prometer que não vai mais se sentir culpada, ou então eu não vou me sentir à vontade para contar tudo que quero. Eu nunca falei tão sério na minha vida," engoli em seco, encarando-a. “Você... acredita em seres sobrenaturais?" perguntei num tom baixo, quase inaudível se não fosse pela nossa distância. "Seja honesta."
The Night || @Royller
“Rain, a esse ponto sei que você morreu, e me dói tanto escrever essas palavras por quê carrego a culpa de não apenas ter sido responsável por sua morte, mas por ter causado-a muito tempo antes de seu definitivo fim. Desde o momento em que nos conhecemos você me provocou sentimentos que eu não queria admitir. Com todas as cantadas de mau gosto, encontros atrapalhados, péssimos julgamentos… De tanto tentar te odiar acabei me convencendo do contrário, e te deixei correr atrás de mim simplesmente porque não considerei que, um dia, a soma das minhas ações iria resultar no fim das suas.
Irônico, não? Como deixei tudo isso começar sem saber que ao mesmo tempo já estava colocando um fim. Sei que se você ainda estivesse vivo, certamente me diria que não foi minha culpa e tiraria alguma brincadeira com a minha cara, suficientemente idiota para me fazer rir e esquecer o peso que carrego. Ultimamente costumo pensar que talvez não fôssemos destinados a algo mais que uma amizade, mas acredito que a morte de um conhecido qualquer não me faria sentir tão mal. Mal porque por mais eu consiga te imaginar insistindo que eu não provoquei o caos que pôs um fim na sua vida, eu sei que desde que atendi aquela ligação do meu irmão falando da discussão com papai, as medidas tomadas deveriam ter sido outras.
Convivendo com uma família tão instável quanto a minha, a maior lição que havia aprendido fora a de que manter a paz não era mais uma opção, e sim um dever. Desde o incidente do ano novo, os dois homens que viviam comigo não trocavam sequer uma palavra, pareciam desconhecidos um ao outro, se odiando secretamente com a maior ausência de motivo existente. O incentivo oferecido por meu irmão havia desencadeado uma série de acessos raivosos por parte de papai, que dividia seus humores entre a raiva e a tristeza profunda. Eu sempre achei que conviver com uma feição diferente da que ele costumava apresentar seria mais fácil, entretanto, o tempo acabou me humilhando com sua verdade imutável e poder de controle sobre a minha vida. Claro que eu continuei sem acreditar que as coisas podiam ficar piores, até que fui estapeada com outro golpe.
Para mamãe, que já não aguentava mais papai - e diga-se, de passagem, ainda não aguenta, qualquer pequena mudança no equilíbrio familiar que ela tomara tanto cuidado para construir, abalaria todo o resto. Eu sabia que se ela soubesse que papai provocara sua morte, o principal pilar que sustenta a minha família desmoronaria em um único e cruel baque. Só Deus sabe como doeu perder a única pessoa que me dava um pouco de atenção nessa cidade mórbida, engolida em seu próprio frio e escuridão. Por isso, não consegui me dar ao luxo de contar para mamãe tudo que havia acontecido. Fui egoísta, e não poderia aceitar mais uma dose dessas.
O que se sucedeu é bem fácil de imaginar.
Fiquei quieta, como deveria ser. Larguei o emprego e me concentrei nos trabalhos da casa que ninguém mais conseguia fazer. Parei a faculdade por alguns meses em prol de ajudar a família. Papai se afundou mais ainda na sua depressão, e hoje, quase não se levanta mais da cama. Mamãe esta dormindo no meu quarto, porque não suporta os suspiros de papai ecoando pelo cômodo a noite toda. Eu? Durmo na sala, uma vez que todas as camas estão muito bem ocupadas, com exceção da vaga ao lado de papai, e essa, me perdoe, mas não consigo ocupar. Todo mundo com mais de treze anos se fala pouquíssimo ultimamente, e eu passo o maior tempo possível fora de casa.
Curioso como mesmo em segredo, você tenha dado seu jeito de ocupar todos os espaços, não é? Até que isso me agrada um pouco, devo dizer. Costumava reclamar todos os minutos de que naquele carnaval constante em que eu vivia, não sobrava espaço para pensar. A biblioteca era meu refúgio. Hoje, o que mais tem é pensamento. E mesmo assim decidi voltar a trabalhar. Fui ontem reassinar o contrato, e hoje, já escrevo do meu balcão. Com Alice contando todas as suas fofocas dos últimos meses enquanto o faço. Nos tornamos as melhores amigas do mundo e ela tem me ajudado bastante com todos os problemas que enfrento.
Com páginas e mais páginas de uma carta que nunca vai ser lida acabei esquecendo de te contar porque comecei a escrever. Embora tenha sido tudo muito rápido no começo, e em seguida irritantemente devagar, tive a sensação de que você estava por perto ontem na biblioteca, o que é bem curioso, visto que esse é o único lugar no qual eu achei que você conseguiria me deixar em paz.
A Alice já está me chamando para devolver os livros às prateleiras então quem sabe da próxima vez que seu fantasma resolver me assombrar eu volte a escrever, não é? Tente não se manter muito afastado!
Beijos, DDG.”
De todas as minhas atribuições na biblioteca a pior de todas era a redistribuição de livros. Organizar inúmeras vezes a bagunça de outras pessoas me soava extremamente cansativo. Coloquei a carta embaixo de todos os livros e comecei a coloca-los nas prateleiras, como de costume. Assoviava uma canção qualquer num tom baixo enquanto caminhava entre os corredores. Foi ai que tive a sensação outra vez.
Com o canto dos olhos, poderia jurar que havia visto Rain. Eu achava que não passava de um engano amigável, mas pela segunda vez consecutiva? Talvez eu devesse me demitir outra vez e procurar um hospício porque aquelas memórias definitivamente estavam afetando meu psicológico. Sem conseguir resistir, retrocedi meu caminho alguns metros e lá estava ele, parado á minha frente como se nada tivesse acontecido. Larguei o carrinho e comecei a andar em sua direção. Mal acreditei no que ouvi. E também não consegui juntar as forças necessárias para responder por um bom tempo. Ainda boquiaberta, apoiei a mão em seu rosto, só para ter certeza de que eu não estava enlouquecendo. Sem pensar, o abracei com toda a força. – Não acredito que você está vivo!! Meu Deus, como-como o Cain conseguiu te salvar? Onde você esteve? Tá tudo bem? Achei que eu tivesse te matado. – Joguei, sem ao menos respirar. Com um suspiro, desci da ponta dos pés e não consegui mais esconder o sorriso. Toda a culpa e todo o peso que repousava sobre meus ombros durante os últimos dois meses largara-me e finalmente, me permitia respirar outra vez. Deixar de ser assassina realmente trazia um alívio e tanto.
Meu sistema parecia ter congelado quando eu a vi caminhando em minha direção. O que mais passava pela minha mente era quantas tapas ela tentaria dar para me fazer sentir dor. A forma como ela se movia até mim realmente me fez acreditar que ela ia me bater, eu podia ver em seus olhos. Nunca tinha me sentido tão nervoso na vida até ela parar em minha frente e me encarar. Talvez eu desejasse que ela me batesse. Minha covardia de ter me escondido por um mês inteiro e por somente ter procurado-a no ápice do desespero... Eu resisti à vontade de encolher o meu corpo quando ela ergueu o braço. Mas, principalmente, depois dela tocar em mim, eu percebi que agora realmente tudo fazia sentido.
Eu não tinha quase morrido por causa dela, como Cain alegou depois de eu ter contado tudo. Eu não morri por causa dela.
Desiree me abraçou com tanta força que quase me sufocou. Com o instinto de abraçá-la de volta e com o maior agradecimento possível pipocando na minha cabeça, eu pressionei o corpo dela contra o meu com mais força ainda. A puxava tanto para perto de mim que meu corpo inteiro formigava, o cheiro dela me deixando louco. Sem conseguir resistir, aproveitei para encostar meu rosto na divisão do pescoço e do ombro dela, ao mesmo tempo que eu implorava para que ela não me largasse. Era a primeira vez que ela demonstrava um tipo de afeto que eu conseguia notar que gotejava sinceridade.
Eu me sentia uma pessoa completamente diferente em relação ao mundo agora. Às vezes tinha vontade de visitar a família que me restava - que antes eu não me importava - com medo de que algo pudesse acontecer comigo novamente, às vezes eu tinha certeza que Cain se tornara minha única família - meu irmão. Às vezes eu queria jogar a minha frustração para a primeira pessoa que retribuísse meu olhar na rua, e às vezes eu queria ligar para minha mãe e contar tudo que aconteceu para me sentir mais leve. Queria finalmente descobrir o que havia acontecido com meu pai, mas a coragem me faltava. Queria esquecer que isso tudo tinha acontecido, mas a lua cheia sempre me lembrava que eu não podia. E por mais que eu odiasse admitir, eu queria que o pai de Desiree pagasse pelo o que ele fez comigo. O rancor não costumava fazer parte da minha rotina, entretanto agora eu o sentia 24 horas por dia. O que me surpreendeu, no entanto, foi o fato dele ter simplesmente evaporado naquele instante. Como se nunca estivesse lá.
Apertei meus olhos quando ouvi sua série de perguntas, soltando-a de meus braços ainda hesitante. Desiree estava claramente aliviada, e eu me senti culpado por ela ter se achado a responsável esse tempo todo. Comecei a amaldiçoar Cain por ter tentado jogar a culpa nela, mas eu sabia ele não tinha feito de propósito. Ninguém tinha feito nada de propósito, exceto pelo pai dela. Imediatamente tranquei o maxilar e desviei o olhar enquanto apanhava o livro que tinha voado da minha mão. O coloquei no lugar devido e fiz de tudo para a expressão dura desaparecer. Todos os meus sentimentos se reviravam no meu estômago, e eu necessitava externá-los de qualquer maneira que fosse.
“Isso não é uma miragem, não se preocupe, DDG.” Tentei aliviar a tensão repentina piscando para ela. Um pequeno sorriso se formou no meu rosto novamente. “É... é uma longa história. Você não acreditaria, afinal de contas, levou cerca de três semanas para que eu o fizesse.” Fiz uma careta ao pensar na dor que eu sentiria mensalmente. “Bem... na medida do possível. Eu estive em vários lugares, mas em lugar nenhum. Confuso. Um pouco perdido. Irritado o tempo todo. Tentando lidar com o que houve...” Me aproximei dela com cuidado, temendo assustá-la por alguma razão. Não queria dar nenhuma resposta concreta antes de convencê-la que ela nada tinha a ver com a surra que eu tinha levado. Eu levantei o queixo dela com um dedo, obrigando-a a olhar nos meus olhos. “Isso não aconteceu, Desiree,” eu murmurei. “Não importa o que você diga, não foi você. E nada no mundo vai me fazer pensar o contrário. Sinto muito ter feito você pensar dessa maneira durante esse tempo.”
Tinha a necessidade de dizer mais coisas. De dizer tudo que passou pela minha cabeça naqueles minutos finais, da minha conclusão que me fodia a cada segundo. Das minhas dúvidas, incertezas, inseguranças e da minha covardia. Da minha vida de ser sobrenatural, e ainda contar que meu melhor amigo também era um. Eu imaginava Desiree como a minha consciência, porque eu devia tudo à ela. Eu precisava falar. Mas eu também não queria falar. Queria olhar para o seu rosto, memorizar cada detalhe e tê-la para mim o mais breve possível. Queria deixar claro que eu tinha mudado em todos os aspectos possíveis por conta dela. Porém, quais eram meus limites naquele momento? Ela tinha mesmo sentido minha falta, ou fora apenas a "culpa" que a fizera ter tanta surpresa e alívio ao me ver? Desiree nunca mais iria querer olhar na minha cara depois desse encontro "inesperado"? O pai dela viria atrás de mim se descobrisse que eu ainda respiro? Eu esperava que sim. Mas Desiree ficaria com raiva de mim se eu desse o que ele merecia? Droga, droga. Droga. Tudo agora parecia ganhar uma interrogação no final. Odiava essa sensação.
“E você... onde esteve?” perguntei largando o seu queixo, pondo as mãos nos bolsos da jaqueta e pressionado os lábios numa linha fina. “Só Deus e Cain sabem como eu te procurei, Desiree. Merda.” praguejei olhando para o chão, rindo com ironia. “Tenho tanta coisa para te falar e te agradecer, mas não quero atrapalhar o seu turno de maneira alguma." balancei a cabeça em concordância. "Não na mesma seção, pelo menos..." ri levemente, rolando os olhos pela biblioteca. "Você vai me levar para seu chefe novamente? Por estar vivo, bem em sua frente...?" 'E por estar testando meu autocontrole mais uma vez?' eu completei mentalmente, e abaixei e inclinei um pouco a cabeça para olhá-la na mesma altura.
The Night || @Royller
desireeroy:
“Pai, que horas o jantar fica pronto? Tô morrendo de fome!” gritei enquanto subia as escadas na direção do meu quarto. O dia na biblioteca fora extremamente cansativo e era nessas horas que mais agradecia por morar em um lugar onde a cama não ficava a mais de quinze passos de distância do banheiro. Cresci naquela casa, e nunca, nenhum cômodo dela mudou. Todos os pontos eram conhecidos. Embora fosse bastante pequena, tinha sido construída sobre um ideal antigo, imperial. Tinha um pequeno hall de entrada que dava de frente para as escadas. Uma de suas laterais era ocupada pela cozinha e a outra pela sala. O andar de cima possuía três quartos. Um para meus pais e meu irmão recém nascido, um para Justin e o terceiro era dividido por mim e por minha irmã. Esta, para minha sorte, tinha uma festa do pijama naquela noite e Justin tinha acompanhado mamãe para deixa-la na casa da amiga. A oportunidade caíra como uma luva, pois estava morta com as provas do colégio e o turno na biblioteca logo depois. O que menos precisava era de gente no meu pé.
Nunca fui o tipo de pessoa que escuta músicas românticas, mas minha tpm ou a paixonite crônica que lutava fortemente para evitar me faziam desejar loucamente tomar banho escutando Ed Sheeran. Na verdade, desconfiava que meu amor platônico começava a tomar um rumo perigoso pois ouvia a voz de Rain até dentro de casa. Seu tom de voz suave ecoava por meus ouvidos. Tão bom que parecia até verdade. Foi aí que escutei meu pai respondê-lo, e só então me toquei que a voz que ouvia não era mera fantasia, mas sim, uma verdade que eu custava a acreditar naquele momento. Corri para a porta e a deixei entreaberta, sentando-me no chão para tentar ouvir o máximo que pudesse do motivo que atraíra Rain até minha casa. Um sorriso tomou conta de meu rosto tão rápido quanto foi embora, ao ouvir meu pai bater a porta sem deixar o loiro entrar. Corri o mais rápido que podia para o parapeito da janela, na tentativa de ver se ele realmente tinha ido embora. Foi então que o vi me esperando no andar debaixo, com uma cara de cachorro pidão.
O resto passou rápido demais.
Pulei a janela e desci com cuidado até o jardim, de lá, corri com Rain no meu encalço até a rua. A aquela altura já estava com uma dose de adrenalina tão grande no corpo que não parei até ouvir o grito de meu pai. Tinha que ser. Milhões de fugas sem remorso, sem culpa, sem graça… e só naquela ele resolvia dar o ar da graça. Congelei meus passos no mesmo minuto, medrosa como sempre fui. Virei calmamente acreditando que tudo ia sobrar para mim. Pra quê? Como se estivéssemos sincronizados, no momento em que virei, vi Rain receber o primeiro soco. Gritei. E gritei inúmeras outras vezes porque a raiva de meu pai apenas aumentava e, consequentemente a surra. Eu e ele sabíamos que o que o incomodava não era Rain, e sim sua raça. Vampiro nato como meu pai sempre fora, humanos não eram sua companhia preferida e nada no mundo tinha força maior para impedí-lo de concluir sua tarefa - principalmente com uma boa dose de sangue em jogo.
O que se passou em minutos pareceu ter levado horas. Meu pai correu para dentro de casa quando sua consciência finalmente conseguiu alerta-lo que estava prestes a cometer um assassinato. Mal ligou para mim, ou para o garoto que largara praticamente morto no meio da rua e honestamente, eu também não queria que ele ligasse. Assim que o perdi do meu campo de visão corri para perto de Rain e não foi preciso muito mais do que virar seu corpo e vê-lo com os olhos fechados, inchando pouco a pouco, e o sangue escorrendo de seu nariz e sua boca para que eu me afastasse, não apenas por carregar a culpa de tudo aquilo em meus ombros mas para protegê-lo. Seu cheiro me atraia tanto quanto o resto de seu corpo. Saí de perto dele o mais rápido que consegui e algum tempo depois de conseguir me acalmar, fiz a primeira coisa na qual consegui pensar. Liguei para Cain e implorei por ajuda, sem mencionar o que meu pai havia feito. Achei que poderia me livrar daquele fardo por algum tempo.
A última coisa que eu me lembrava eram passos pesados se aproximando do meu corpo jogado no asfalto. Os mesmos passos ecoavam pela minha cabeça enquanto minha consciência acordava e me mandava mexer pelo menos um dedo para sinalizar que ainda estava vivo. Uma dor singular tomava conta de cada centímetro dos meus músculos, como se minhas células tivessem entrado em estado de ebulição, se fosse possível. Movimentei minha cabeça devagar e arrastei meu braço até ao meio da minha barriga, já não sentindo mais tanta dor. Eu abri os olhos, entretanto eles apenas chegaram a ficar cerrados por conta da claridade. Estava tudo muito branco, com muita luz e eu não sentia dor nenhuma. Então tudo veio à tona.
Desiree. Pai de Desiree. Briga. Desiree. Desiree. Dor. Desiree. Eu estava morto?
Senti o meu ritmo cardíaco acelerar junto com minha respiração. Eu não poderia respirar se estivesse morto, poderia? Será que eu realmente morri? Segundos depois, eu já conseguia ver tudo normalmente. Uma cama sustentava o meu corpo deitado e uma agulha estava inserida em minha mão, levando soro até minhas veias. Uma televisão ligada estava de frente para mim e grudada na parede, me mostrando alguma cena de algum desenho animado. Meu outro braço estava engessado e eu estava sem camisa. Um lençol fino e branco cobria o resto do meu corpo, e eu não sabia se estava vestindo alguma parte de baixo. Eu estava no hospital, era óbvio. Ou talvez eu estivesse alucinando enquanto minha alma era puxada para fora do meu corpo.
“Droga. Ainda tinha tantas coisas para fazer.” Não tinha percebido que tinha falado em voz alta até ouvir uma risada amplamente conhecida. Era a última que eu esperaria ouvir naquele momento. Virei meu rosto levemente para a direita, de onde a risada veio, e observei Cain sentado no sofá, ainda rindo. Cain ia me acompanhar na morte? Eu estava morrendo e ele seria a última pessoa que eu veria? Caralho. “Porra, não poderiam ter mandado alguém melhor para me dar adeus?” supliquei olhando para cima, como se alguém além dele pudesse me ouvir.
“Quer dizer que se você realmente estivesse morrendo e eu fosse a última pessoa que aparecesse nos seus últimos momentos, você ficaria insatisfeito? Muito bom. Eu não sou uma de suas putas!” ele falou alto com uma voz afetada e eu não me controlei quando comecei a gargalhar no mesmo nível. Cain riu também, mas logo cessou a risada e levantou-se. Eu rolei os olhos quando ele se aproximou com um sorriso que debochava da minha situação. Afinal de contas, eu sequer sentia dor. Contudo, eu senti o ar pesado no momento em que Cain suspirou e se apoiou na cama. “Eu não morri mesmo, morri?” perguntei mais para mim do que pra ele. “Não,“ ele começou, suspirando novamente. “Essa é a realidade, mas agora infelizmente é uma totalmente diferente da que você vivia.” completou, sério. Franzi a testa. “O que você quer dizer com isso?” Mais um suspiro. Eu estava começando a me irritar. “Fala logo, cacete!” gritei sem querer, sentindo meu rosto esquentar. Ele não parecia assustado com a minha ação, entretanto.
Grunhi quando senti a agulha mexer na minha mão. “Tira isso,” eu mandei olhando para a agulha, tendo ciência de que ele odiava quando eu começava a dar ordens. Caralho. O que estava acontecendo? O que tinha acontecido? Aonde estava Desiree e o pai dela? “Eu tiro, mas você precisa se acalmar, Rain” disse com a mandíbula travada, e eu assenti depois de alguns segundos. “Preciso lhe contar várias coisas” comentou enquanto retirava o objeto. “Você não vai chamar a enfermeira ou algo assim?” Cain rolou os olhos. “Não precisa de uma enfermeira. Consegue se sentar?” perguntou olhando para o meu braço engessado. Assenti novamente, olhando para ele também. Haviam algumas assinaturas ali, e assim eu soube que era real. Mas não havia sinal algum de Desiree. Eu estava ali indiretamente - ou apenas diretamente - por sua causa. Ou por causa do pai dela, que seja. Eu só conseguia sentir raiva. Sentei-me e chutei o lençol para fora da cama, ajeitando o meu corpo para que eu ficasse de um modo confortável.
Depois de inspirar e expirar três vezes calmamente, pedi para que ele começasse a me explicar o que havia acontecido depois que eu tinha… Desmaiado? Morrido? Não importava. “Devo começar com o fato de que não sei exatamente nada do que aconteceu antes.” ele ajeitou o cabelo, sentou na beira da cama e eu dei de ombros. “Enfim. Acordei com uma ligação da sua paixonite há três dias. Ela não me disse o que aconteceu, e tudo que eu entendi foi que você estava perdendo muito sangue e precisava de ajuda. Quando eu cheguei ao endereço, vi que seu estado era mais que deplorável,” ele dizia enquanto coçava o nariz, e eu senti um bolo se formar na minha garganta. “Você estava machucado dos pés à cabeça. Porra, sabe o que foi ver meu melhor amigo lutando para respirar? Eu agi sem pensar, Rain. Sinto muito por isso.” Não consegui entender o que ele quis dizer. O que diabos ele tinha feito? Então, como um flash, tudo fez sentido. “VOCÊ MATOU A DESIREE?” eu rosnei ao mesmo tempo que berrava.
Sabe-se lá o que eu estava pensando quando arranquei o gesso da minha mão em segundos e me preparei para avançar em cima dele. Os olhos de Cain estavam arregalados quando ele gritou um “NÃO!” bem mais alto. Eu já estava em pé, com a gola da blusa dele amassada em minhas mãos. Podia jurar que estava cuspindo fogo. “Fique quieto, Miller, e apenas me escute.” ele falou lentamente, com tanta seriedade que eu não o reconheci. Ele também não parecia me reconhecer. Merda. Rapidamente ele se livrou de mim, trancou a porta do quarto, pegou uma blusa de uma sacola e jogou em minha direção para que eu a vestisse. “Continue,” pedi engolindo em seco. “Eu não matei a Desiree. Ela sequer estava lá quando eu cheguei.” explicou com uma expressão raivosa. Logo depois se acalmou. “Olhe, eu sei que parece loucura, mas… lembra de todas aquelas lendas que contam por aí, de seres sobrenaturais, místicos?” eu concordei apertando os lábios e ele prosseguiu, respirando fundo. “Eles existem. Eu sou um deles. Eu o salvei. Você é agora um de nós.” ele soltou pausadamente. Tinha a absoluta certeza que minha face estava uma exibindo uma interrogação. Não fazia sentido. O único ser racional que existia era o ser humano. Ele só podia ter fumado uma muito grande. Não fazia sentido nenhum. Depois de um tempo, eu ri. “Prove.” E ri mais ainda.
Cain revirou os olhos novamente. “Eu não queria ter feito isso, Rain, eu juro. Mas era a única forma de você não morrer. Tenho certeza que a Desiree acha que você não sobreviveu,” ele cruzou os braços. “Cara, quer uma prova? Olhe para si mesmo e me diga desde quando você poderia ter quebrado um gesso em dois míseros segundos e ter partido para cima de mim? Mesmo que envolvesse sua paixonite?” ele arqueou uma sobrancelha e eu fiz o mesmo. “Rain, preste atenção. Eu sou um lobisomem, não totalmente um ser humano. Nós, lobisomens, temos a capacidade de nos curar rapidamente. Eu injetei meu gene em você sem saber se você sobreviveria ao processo, mas aqui você está. Você é um lobisomem agora.” Eu preferia ter morrido ao invés de estar tendo uma conversa dessas. Aquilo era loucura. Insano. Totalmente irracional. Impossível de ser verdade, mas…
2 meses depois.
Eu realmente era um lobisomem, e nunca tinha me sentido tão bem na vida. Era complexo, mas verdade. Minha vida tinha mudado bastante depois daquela noite. Principalmente por ter procurado Desiree pela cidade inteira e não ter ouvido notícias nenhumas do seu paradeiro. Até o dia em que eu visitei a biblioteca casualmente e reconheci de longe as madeixas escuras, onduladas e singulares que ela tinha. E, cara… eu não consegui me conter em voltar lá no dia seguinte que eu sabia que ela trabalhava.
Não fazia ideia do que falaria ou perguntaria pra ela, mas eu estava na biblioteca de novo, na seção que eu tinha a conhecido. Passei vários minutos por lá, bisbilhotando alguns livros alheios até sentir sua presença pelo canto do olho. Não fiz nada além de levantar o olhar da página do livro e a ter em meu campo de visão. Eu pensei que ela não tivesse notado minha presença, mas segundos depois a vi retornar com os olhos arregalados e dando passos pequenos para trás. O meu sorriso foi involuntário. Era claro que era Desiree, e era claro que eu não perderia a oportunidade. Diminui o sorriso quando ela parou bruscamente.
“DDG, parece que você viu um fantasma.”
The Night || @Royller
Com o olhar voltado para o chão lutava para controlar a ânsia de meu corpo, uma vez que correr era o único ímpeto que possuía enquanto cravava as unhas fundo por toda a tez exposta por mim palpável, na mais frágil tentativa de perder o foco no desejo culminante. Agarrava-me às pernas como uma criança e chorava em desespero, mesmo que não entendesse ao certo por quê estava fazendo-o. E o motivo da confusão? Este se dava ao bombardeamento dos diversos acontecimentos que, de alguma forma, mantinham-se vivos em minha memória sempre no replay, e aos sentimentos que tomavam conta de cada neurônio.
Ao fundo era possível escutar o canto das diversas corujas habitantes da floresta Bloomingdale e o barulho do vento arrastando as folhas das árvores não afastava o cheiro incomum que tanto me seduzia. Os anos de treinamento que carregava nas costas haviam me tornado uma pessoa - ou melhor, ser vivo - em plena consciência dos atos tomados. Sangue não me atraía mais. Havia aprendido a viver tão bem sem ele que mal o reconhecia como algo diferente. Mas naquela noite, algo tomou conta de mim. Observava o corpo do garoto que eu mal conhecia e tão omitidamente me via cada vez mais apaixonada jazir fraco no chão, com cortes profundos e órgãos feridos. É tão dificil aceitar que em questão de segundos sua imagem a respeito de uma pessoa possa mudar. E mal me refiro a Rain. Refiro-me a meu pai.
Crescemos em uma família grande, sempre cheia de problemas, e mais cheia ainda de alegria e amor. A imagem que carregava comigo era a de pai protetor e lutador. Daqueles que fazem de tudo por seus filhos. Que viram noites no trabalho para conseguir um pouco mais de dinheiro, e que mesmo quando não o fazem, ficam acordados até que cheguemos à nossa exaustão infantil pelo simples fato de que ver-nos felizes é o maior descanso que ele poderia obter. E com minha mãe, tudo era amor, não muito diferente de seu padrão. Eles me fizeram acreditar que príncipes encantados existiam, e que bastava procurar um pouco, alimentar a esperança a todos os momentos e sempre se agarrar a fé. Do resto o destino cuidava. Por incrível que pareça, era assim que eu começava a me sentir a respeito de Rain. Lembrava-me dos beijos no pôr-do-sol e de suas atitudes. A forma como as tomava sempre me encantou - embora jamais vá vir a admití-lo. Seu semblante também só ajudava-me a suspirar incessantemente, e com o passar dos dias via-me em meio a um perfil romântico. O qual eu sempre conheci bem, mas nunca pensei que corresponderia. Cada respiração perto dele parecia conto de fadas. Com a única diferença sendo a que este havia acabado de terminar.
Hoje, recordei-me da imagem de protetor de meu pai, mas não da forma como deveria. Foram breves os meus minutos de Romeu e Julieta e mais breve ainda era a respiração de Rain, que com muito sangue ao seu redor lutava para sobreviver. Minha única dúvida era por quê me sentia tão resistente. Incapaz de controlar algo que eu vinha controlando por anos. Sentada na beira daquela floresta, com meu pai dentro de casa limpando o sangue de suas mãos, assistia uma pessoa inocente morrer simplesmente porque eu havia me tornado fraca. Porque sabia que por mais que quisesse, aproximar-me dele apenas arrancaria seus últimos suspiros de vida. Merda de misticidade.
Estar em uma linha tênue entre a realidade e o mundo desconhecido trazia um mal estar maior do que eu conseguiria imaginar. O ardor em meus olhos não provinha apenas do esforço que eu fazia para mantê-los abertos, e sim do pensamento sobre nunca mais perambular pelas mesmas calçadas frias, pensando se deveria, ou não, encher o peito de atitude e arriscar todas as poucas chances que eu sabia que tinha. Ela era uma maldita droga e eu tinha certeza que um dia morreria de overdose, mas não imaginava que seria tão cedo. Eu estava, naquele momento, morrendo em todos os sentidos literais da palavra, de todos os modos. Era cada um mais doloroso que o outro, e a única coisa que faltava para acabar com tudo era um coração partido. Conseguia sentir os pedaços escapulindo em minha boca, pintando o asfalto de vermelho. Apesar disso, eu não conseguia culpá-la.
Ainda que meu corpo tivesse dormente e não conseguisse mais sentir nenhum tipo de dor física, o barulho da minha respiração entrecortada era censurada pelas batidas frenéticas do meu coração no ar denso, como se estivesse fazendo de tudo para continuar a bater. E doía. Doía porque eu já não queria mais isso, não queria lutar para sobreviver; eu não conseguiria de maneira alguma. Não queria nada além de olhar para a face que tinha o domínio do meu corpo e da minha mente nos últimos meses. Observar bem seus traços uma última vez, o seu sorriso envergonhado que fazia meu estômago se contorcer. Desiree era a garota mais linda que eu já havia conhecido, e eu queria tê-la perto de mim. Para me acalmar, para me beijar e dizer que tudo ia ficar bem. Não ia, mas seria apenas uma desculpa para ouvir a voz dela. O meu peito começou a doer mais ainda, ao que eu finalmente admiti em meu subconsciente: eu sabia que não poderia realizar o meu último desejo. Eu não teria um futuro.
Quando eu fui à casa dela, nunca imaginei que me encontraria neste estado logo depois. Na ponta dos meus pés, um ardor os queimava levemente, recordando-me da ferocidade e determinação que havia dentro de mim quando bati na porta com a maior das expectativas. Quem a abriu foi o pai dela, mas aquilo não me abalou ou me fez desistir. Mesmo que nunca tivesse ido à casa de Desiree, sabia que ela estava lá. Não existia um outro lugar que fosse seu suposto esconderijo e, cara, eu estava cansado de espera-la na biblioteca, ouvindo Alice dizer todos os segundos que ela não estava disponível no momento. Ela sempre estava, e eu sempre me dava por vencido e ia embora. Dessa vez eu estava decidido a não ir, e também não estava com um humor muito bom para aturar as desculpas. "Boa noite," o pai dela disse. "O que deseja?" Tudo que eu fiz foi sorrir de um jeito irônico, totalmente contra minha vontade. "Boa noite. Desiree. Ela está em casa?" perguntei mesmo sabendo a resposta. E, para ser bem sincero, estava pouco me importando com a educação. Como já concluí, ela estava me deixando louco. O fato de me ignorar só piorava a situação.
O pai dela me analisou por alguns instantes, como se estivesse me julgando. Eu tinha noção que não era o tipo de garoto que andava com pessoas do estilo de sua filha, mas não era para tanto. Por fim, ele respondeu, "Não, não está." sendo curto e grosso. Contive a vontade de atravessar a porta. Ela sempre estava, porra! O máximo que eu consegui fazer foi cara feia. "Bem, eu tenho certeza que..." eu comecei a falar calmamente, mas ele interrompeu. "O que você quer com a minha filha?" indagou em tom lento e rude.
Eu deveria ter notado que aquilo era um sinal, que deveria ter ido embora e simplesmente ter aceitado que ela acabaria com os meus sentimentos uma hora ou outra. Era irritante como conseguia pensa-la como a mocinha da história, ao mesmo tempo que às vezes a via como a vilã. Por fim, eu consegui ver o rosto dela em algumas fotografias atrás do homem diante de mim e, de alguma forma, aquilo me acalmou. "Eu só quero... vê-la. Chamar a sua filha para sair," disse, coçando a nuca. "Mas ela vem me ignorando e eu achei que deveria vir até aqui." Ele olhou torto para mim e repetiu, "Chamar a minha filha para sair..." pensou por alguns instantes, até que disse: "Não precisa mais vir aqui, ela não está em casa." e fechou a porta na minha cara.
Engoli toda a fúria no mesmo instante. Seria capaz de arrombar aquela porta, mas se o fizesse, claramente não adiantaria de nada; só pioraria. Dei alguns passos para trás, olhando para toda a extensão da casa e ouvindo a voz do pai dela falando algo que não consegui identificar. Estava tentando adivinhar qual janela era do quarto dela, quando finalmente a vi. Desiree olhava diretamente para mim através do vidro, e eu não pude deixar de abrir um sorriso ao olhar o seu rosto, ao vivo e em cores. Sem pensar duas vezes, comecei a andar para o lado que sua janela estava localizada e observei como ela pulou do parapeito, caindo perfeitamente no chão. E, então, correu. Correu tão rapidamente para a floresta, que tudo que se passou dali em diante foi como um flash. Eu a seguiria, se não tivesse ouvido um "Desiree!" ecoar até meus ouvidos e em seguida ter visto o pai dela me encarar com os olhos em chamas.
Fui um covarde, disso eu tinha certeza. Mas era melhor do que ficar parado, tentando explicar algo que eu sequer sabia o que era. Seria em vão, portanto andei com passos rápidos para a rua. Não fui rápido o suficiente, porque fui agarrado pela jaqueta e senti o primeiro soco na bochecha. Eu conseguia senti-lo novamente, jogado no chão imundo e frio. Toda a dor dos socos e chutes de repente me atingiu de novo, e mais sangue escorreu pela minha boca. O pai dela me ergueu do chão, prestes a dar provavelmente um último soco, quando eu reagi. Eu não estava pensando quando chutei a barriga dele, ou quando dei uma cotovelada em seu rosto. Aquilo não foi o suficiente, no entanto. Pensei que ele estava cambaleando, mas na verdade só foi buscar algum tipo de ferramenta que eu não consegui identificar no momento. E a dor preencheu todo o meu corpo de novo, enquanto ele gritava "Não toque na minha filha!" com todos os pulmões.
Eu me perguntava se a mãe ou os irmãos estavam em casa. Ou se concordavam com o pai, ou se o temiam. Se ela o temia. Várias possibilidades atravessaram a minha mente, todavia, eu só conseguia pensar nela. Por que havia fugido? Por que estava fugindo de mim?
Ainda não conseguia responder.
A última coisa que passou pela minha mente foi que não havia mais volta. Eu estava perdidamente apaixonado e... morto. Não conseguia dizer qual dos dois era pior.