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@raizdapalavra
João
Menino-passarinho
carrega o sol na mão
a mãe
o chamou João
No coração-ninho,
abriga outros passarinhos
No bico
a palavra carinho
Deixa
rastros de raio de sol
comporem estradas
Para o vento
fala do amor e da dor
que carrega no peito
é
azul
Anterioridade
Na sala turquesa,
o sol projeta no chão
a sombra do encosto da cadeira
onde costumavas sentar
Na estante,
o cachepô espelhado
reflete partes de porta-retratos
E colocou lado a lado
você maduro
e minha mãe bem jovem
E então, percebi
que tua ausência
antecede meu nascimento
Escafandro
Abriu os olhos e não pode acreditar no que acontecia ali, em pleno mar, luz do sol intensa, após um mergulho, um objeto dourado semelhante a um escafandro lhe encarava. Anotou no diário o fato e uma observação _ Não comentar com o psiquiatra.
Infância
Na goiabeira florida, tinha goiaba madura e, dentro da goiaba um bicho.
— Bicho de goiaba é goiaba. — disse meu amigo — Pode comer.
Não me convenceu.
— Por acaso você já viu um pé de bigatos? — perguntei.
Depois, a formiga passeou pelo meu braço, e ele disse:
— Come, faz bem pra vista.
Também não me convenceu.
— Por acaso você já ouviu falar de oculista?
“Acho que meu amigo não é tão lá meu amigo e nem dos bichos”.
Resolvi deixar todos eles em paz. Fui embora.
Por um só dia
Por só um dia eu queria
que o sol aquecesse na medida certa
e pudéssemos olhar direto para o astro
sem que ficássemos cegos
Queria acordar e ver
nas primeiras páginas de jornais
entrevistas com bailarinas
As mídias, por um só dia
narrariam casos triviais
singelos
As estatísticas revelariam
o número de ninhos de passarinhos
nos parques das cidades
Por só um dia eu queria
acordar e caminhar sem medo
Brincadeirinha
Vi-te-bem
e fiquei com vontade
de te enviar
uma flor-beija
meu mundo ficou parecendo
doce-algodão
Você parecia
A luz-anos de luminosidade
Queria ser
Um heroi-super
E dizer sem lero-lero
Que te quero-quero
Me-quer-bem?
Morada
Casa singela
jardim de flores
quintal de frutas
janelas abertas
vó, mãe, amor
Pesadelo
Foi um terrível sonho
nele eu era a caça e ao mesmo tempo o caçador
como um gigante medonho
eu me alcançava e me fazia sentir dor
Minhas mãos grandes feriam
o eu pequeno que tentava escapar
sentia a dor dos machucados
e sentia a dor de machucar
Me agarrei com força
para em mim mesmo dar o golpe fatal
meu eu pequenino era passarinho
e sabia que era o final
E então exaustos
suspiramos
e nosso suspiro foi tão triste e tão profundo que juntos
acordamos
Um bicho comendo o outro
A cortina de renda da janela que abria para o alpendre balançava, dando concretude à brisa e à maresia. Anoitecia, hora de cheiros de frutas caídas pela areia, de mar e de sabonetes. As estrelas se acendiam aos poucos.
A mãe chamava _ Vamos tomar a fresca.
A família reunia-se na varanda, para conversas de todas as vozes ou para o silêncio do descanso.
Nas paredes, rãzinhas silenciosas espreitavam os insetos.
Uma vez, o pai, observando-as, pensou alto (ou ensinou uma lição?) _ A vida se resume a isso... um bicho comendo o outro....
Bananeira
Plantei bananeira
o mar virou céu
o céu virou mar
Nada mudou ao redor
mas dentro de mim tudo era estranhamento
Paixão
Quando se deu conta
o coração galopava
com a simples presença dela
e as mãos teimavam em permanecer geladas
um novo ânimo lhe encontrava pela manhã
músicas esquecidas voltavam a sua memória
e então sorria
justificava o não justificável
via sinais do universo no mais absoluto cotidiano
Quando se deu conta não podia fazer mais nada
Apaixonara-se
toda razão ficou subvertida
Lutava contra
e quanto mais lutava mais afundava-se
nesse mar imenso, misterioso e insondável que é a paixão
Sem lugar
Ordem. Sem Lugar. Sem rir. Sem falar. Bate palmas. Piruetas.
Trás e frente. Bate Quedas.
A bola batia na parede e voltava para nossas mãos. Ganhava quem cumprisse as ordens e não deixasse a bola cair. Muitos anos depois me surpreendi pensando nessas palavras tantas vezes repetidas em brincadeiras.
Espero que a Ordem não nos tire a criatividade. Que exista Lugar e respeito para todos serem quem são. Que possamos sempre Rir,e que nosso riso seja alto e livre. Que nada nos impeça de Falar. Que saibamos Bater Palmas reconhecendo as conquistas alheias. E que sejamos leves a ponto de dar Piruetas imaginárias.