L., primeiro tenho que dizer que o que me conforta saber que bloqueei vocĂȘ e âtodosâ os nossos amigos em comum; todos aquele que nĂŁo quero que vejam como eu estou ou que faça essas palavras chegarem atĂ© vocĂȘ. segundo, tenho que mencionar aqui, que nĂŁo importa o que eu faça com essa carta; ela nĂŁo vai amenizar e nem fazer o que estou sentindo por dentro passar - mas eu preciso vomitar. hoje faz vinte dias desde que vocĂȘ foi embora, hoje Ă© o primeiro dia doze depois que vocĂȘ apareceu na minha vida e que eu nĂŁo estou com vocĂȘ. um dia, duas datas que apertam o meu peito e me fazem sentir dor dos pĂ©s Ă cabeça. eu queria conseguir descrever tudo que ando sentindo por dentro, queria poder por pra fora, gritar, vomitar, fazer esse nĂł sair da garganta. mas nada que eu faça Ă© suficiente pra isso. um mĂȘs atrĂĄs vocĂȘ estava me prometendo todo o seu amor, todos os dias da sua vida, nossos filhos, nossos gatos e atĂ© suas ajudas na cozinha enquanto eu preparava alguma coisa para nĂłs duas comer. vocĂȘ me prometeu tanto coisa, L., e acreditei tanto em cada promessa. hoje sĂł tenho seus silĂȘncio e minhas milhares de dĂșvidas. vocĂȘ nĂŁo sabe o quanto dĂłi e estar doendo te perder, mas vou tentar explicar: eu acordo todos os dias sem nenhuma expectativa. dĂłi acordar porquĂȘ lembro que nĂŁo vou ter o seu âbom diaâ para começar bem. quando vou pra aula, saiu no meio da aula porquĂȘ Ă© insuportĂĄvel aguentar ou segurar a agonia de nĂŁo ter vocĂȘ em um espaço com tantas pessoas vazias e desconhecidas. quando nĂŁo vou pra aula, fico na cama atĂ© a Ășltima alternativa ser levantar e ir fazer o almoço. ligo o celular, tento conversar com meus amigos; mas Ă© ruim demais ficar nas redes sociais sem ter a sua janela me chamando e conversando comigo. troco algumas palavras com a Bella, faço algumas perturbaçÔes diĂĄrias nela; sĂł para ter algo âcomumâ no dia e volto pra cama. ĂĄs vezes tento estudar, mas meu pensamento sempre para nas interrogaçÔes que vocĂȘ deixou. vou pra netflix; mas nĂŁo tem mais nada novo pra ver. escuto mĂșsicas para tentar me acalmar, mas todas acabam me lembrando vocĂȘ â atĂ© os funks â entĂŁo desisto. vou jogar os joguinhos do celular atĂ© dar um horĂĄrio que eu possa tomar meu remĂ©dio, virar e dormir. assim, desse jeito, sem expectativas, sem graça, sem nada e ninguĂ©m. apenas mergulhada na minha infinita ansiedade e nessa saudade que dĂłi o corpo todinho. nĂŁo sei qual foi o momento que tudo desandou, nĂŁo sei quando foi que vocĂȘ começou a se cansar, nĂŁo sei quando a distĂąncia começou a falar mais alto do que o nosso (o meu) amor e nem quando tu começou deixar as pessoas influenciar - mais uma vez - na nossa relação. tambĂ©m nĂŁo sei em que parte comecei a errar. em um dia, te tinha aqui com todas nossas juras de amor, confiança e parceria. no outro, eu sĂł tinha as dĂșvidas e o teu silĂȘncio. me deixar, que antes era a Ășltima coisa que tu disseste querer, foi a coisa mais fĂĄcil para vocĂȘ. vocĂȘ nĂŁo pensou, nĂŁo olhou pra trĂĄs, apenas foi. em um dia, em fraçÔes de segundos; cair da nuvem. hoje tento batalhar com a pessoa que conheci e que me vez acreditar em cada jura de amor com a pessoa que ouvir vocĂȘ me contar e que estĂĄ mais prĂłxima de tudo que aconteceu. mas Ă© que, eu sĂł nĂŁo consigo entender onde me deixei levar e enganar tanto, como consegui acreditar em absolutamente tudo se vocĂȘ nĂŁo estava sendo verdadeira? como vocĂȘ nĂŁo estava sendo, L.? seus olhos brilhavam, vocĂȘ estava ali pra mim sempre, vocĂȘ conseguia dividir as coisas comigo, vocĂȘ todos os dias me pedia em casamento... onde tudo começou a desandar? como vocĂȘ pĂŽde esperar uma vaguinha minha para estender todos os teus medos e incertezas e ir embora, me bloquear de tudo e virar a pĂĄgina como se eu nĂŁo fosse ninguĂ©m? como se eu nĂŁo fosse sentir em cada molĂ©cula minha o teu adeus-nĂŁo-dito? como entender tua boca beijar uma boca que nĂŁo Ă© a minha, como entender uma indiferença tĂŁo fria? como assimilar que a pessoa que mais estava me fazendo bem, a pessoa que mais eu confiava e passava serenidade no nosso relacionamento foi a primeira a soltar a ponta? o que eu te fiz para merecer sĂł tua indiferença e silĂȘncio? vou dormir sempre com o vazio de ter passado mais um dia sem vocĂȘ. sem sua voz, sem suas graças, âeu te amoâ e fotos de coisas aleatĂłrias do seu dia. eu sinto falta de vocĂȘ o tempo todo. em cada pedacinho da casa. porquĂȘ em cada lugar daqui, eu vivi algo com vocĂȘ. mesmo estando sĂł do outro lado da linha. enquanto meu coração estĂĄ sendo consumido pela saudade e falta. minha alma se desfaz em cada pensamento solto que vaga em toda parte dentro de mim. eu nĂŁo sei em que momento tudo desandou, onde vocĂȘ perdeu as esperanças, onde seu amor deixou de existir ou quando nĂłs duas deixou de ser a melhor coisa da sua vida. eu nĂŁo sei porque um dia antes de partir, tu tinha me feito todas as juras e promessas. e eu tento lembrar qual o momento que tudo desandou, eu tento voltar ao tempo e procurar os vestĂgios e ainda nĂŁo consigo encontrar. e lateja ainda mais nĂŁo encontrar um porquĂȘ e fico nessas dĂșvidas tĂŁo cruĂ©is que sacode tudo por dentro. enquanto escrevo essa carta, meu celular nĂŁo para de tocar. tenho tantas amigas precisando de mim, pessoas interessadas em me conhecer, publicaçÔes para responder: mas nĂŁo consigo. eu nĂŁo consigo fazer nada que me ajude a seguir em frente, mesmo querendo. porquĂȘ no fundo eu sei que serĂĄ mais um degrau longe de vocĂȘ. no fundo, Ă© isso: eu nĂŁo queria seguir, nĂŁo queria partir, nĂŁo queria te deixar. Ă© devastador saber que tenho que por um ponto final em tudo que sonhei, sentir â e ainda sinto â e vivi com vocĂȘ. doĂ nĂŁo saber se estar bem, se estar comendo, arrumando a casa, tentando achar algum trabalho ou se estar colocando as suas series em dia. doĂ nĂŁo saber nada sobre vocĂȘ. tento me conformar com uma ausĂȘncia que nĂŁo vai mais ser preenchida. tento lembrar da Ășltima vez que conversamos, tento lembrar sempre da sua indiferença e frieza para tentar seguir com esse pouco orgulho que me resta. doĂ saber que a Ășltima coisa que tenho que fazer na minha vida, Ă© falar com vocĂȘ. vocĂȘ nunca vai saber o quanto dĂłi amar vocĂȘ. o quanto ainda dĂłi amar vocĂȘ. daqui a dois meses estarei voltando pro Brasil e eu nĂŁo vou mais poder correr para sua casa para te abraçar, nĂŁo vou mais poder te beijar, tocar seu corpo, fazer vocĂȘ rir, fazer carinho nas suas costas e nem sentir cada partĂcula e molĂ©cula do meu corpo se arrepiando com seu toque. eu nĂŁo vou mais te sentir e isso dĂłi tanto. lateja tanto. estou tentando seguir em frente. mas sempre acabo vestindo sua blusa e abrindo a sua caixinha; relendo sua carta, sentindo seu perfume, pegando nas tuas coisas que me deu como forma dâeu ter sempre algo seu aqui. me dĂłi tanto cada uma das suas coisas. dĂłi tanto saber que elas sĂŁo sĂł lembranças daqui pra frente e sĂł. acabou e ainda continuo amando cada coisinha sua. cada coisinha que vivemos e compartilhamos. como entender que acabou, que vocĂȘ nĂŁo me ama, que vocĂȘ Ă© uma idiota se tudo que vivemos juntas nesses Ășltimos meses me mostram que vocĂȘ Ă© a melhor pessoa para eu estar e amar? como entender que elas nĂŁo existem mais para vocĂȘ, que nĂŁo foram verdadeiras ou suficientes se elas foram as melhores coisas que jĂĄ vivi na minha vida? tem uma semana eu tentando segurar esse choro que me rasga toda por dentro. segurando essa dor que sĂł tira as minhas forças. eu ando tĂŁo cansada, L., ando tĂŁo esgotada de sentir tudo e nĂŁo ter nada. vocĂȘ nunca vai saber o que Ă© ir ao cĂ©u e ao inferno por uma Ășnica pessoa. vocĂȘ nunca vai saber como doĂ a melhor coisa que aconteceu na sua vida, ser a mais devastadora e dolorosa de todas. vocĂȘ Ă© o meu veneno e meu antĂdoto em um mesmo corpo. e saber disso acaba comigo todos os dias. eu sinto sua falta e ainda te amo com todas as forças que me resta. mas eu nunca mais vou deixar vocĂȘ saber disso. (ainda sem tinta), Clara.