Talvez eu tenha passado tanto tempo aprendendo a ser necessária que tenha esquecido como é simplesmente ser querida. Aprendi cedo a observar, antecipar, resolver, cuidar, continuar; transformei força em obrigação, responsabilidade em armadura e humor em saída de emergência, como se o meu lugar no mundo precisasse ser conquistado todos os dias pelo tanto que eu consigo carregar. E, ainda assim, existe alguma coisa em mim que se recusou a desaparecer: eu ainda me empolgo, ainda invento mundos, ainda amo coisas pequenas com uma intensidade quase ridícula, ainda quero, ainda espero, mesmo quando não tenho coragem de chamar isso de esperança. Talvez eu não seja uma casa intacta; há quartos que mantenho fechados, cadeiras que continuarão vazias e rachaduras que aprendi a esconder muito bem. Mas há luz entrando pelas janelas. Há risadas nos corredores. Há coisas inúteis que amo apenas porque amo. E talvez ser inteira nunca tenha significado não ter rachaduras, mas perceber que nenhuma delas conseguiu levar a casa inteira.
Escriturias













