Me permiti por meio dessas palavras me reapresentar a mim mesma, sem pedir desculpas por quem eu sou, sem abaixar a cabeça me limitando ao que supostamente minha aparência representa. Aqui estou eu. Aprendi que não é vitimismo se dar conta de sua própria opressão. Meu povo, minha raça, reis e rainhas , chefes de tribos retirados de seus países natais, arrastados através do poder de fogo, levados para outros continentes e forçados a servir. Perderam sua identidade, sua cultura foi subjugada e valores desconhecidos foram impostos goela abaixo, em uma terra estranha, uma situação totalmente hostil… Anos e anos se adequando e se adaptando, anos e anos calando e consentindo. Nasci já adequada ao novo sistema, imersa em uma cultura global, bombardeada por ideais impossíveis de serem alcançados, tentando ao máximo fazer parte da multidão. Alisei meu cabelo, mudei meus costumes e fechei meus olhos. Somos todos iguais, eles dizem, Eu posso ser igual? eu me pergunto. Sorrisos amarelos, situações constrangedoras e o sentimento constante de desconforto. Por que eu não posso fazer parte? Por que não somos todos iguais? Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza… Afinal, o que isso significa ? E assim o desconforto cresceu, minha pele não é igual à aquela que eu via tanto na televisão, meu cabelo não era o mesmo que o das meninas ao meu redor, da ponta do meu nariz até a grossura das minhas unhas… Me libertei do conceito que foi tão impregnado em mim, não somos iguais, todos humanos, sim, cada qual com sua própria cor, sua própria raça. Eu sou negra, mulher, filha de mãe e pai negros, vivo os resquícios históricos de um povo colonizado por uma sociedade branca.