Corpos secos
Leitura obrigatória em 2020, Corpos Secos passa longe da narrativa habitual sobre zumbis ao tecer um painel da selvageria “conforme o país vai morrendo”. Quando uma doença derivada de agrotóxicos transforma seres humanos em mortos-vivos, os chamados corpos secos do título, quatro personagens – Mateus, Murilo, Regina e Constância – precisam lutar pela própria sobrevivência. Ao longo de 190 páginas que flertam com o gore, este romance escrito por Luisa Geisler, Samir Machado de Machado, Natalia Borges Polesso e Marcelo Ferroni nunca perde de vista seu real objeto de interesse: a sociedade e como reagimos no momento em que tudo vira sombra.
Mateus tem a doença e não manifesta sintomas, por isso é estudado num hospital de São Paulo. Murilo, irmão de Mateus, precisa enfrentar a realidade e deixar de ser criança para salvar a si, a família e Baleia, seu peixe. Regina está próxima de Mato Grosso, epicentro da crise. Constância, engenheira de alimentos no sul, precisa salvar a si e a Conrado, seu irmão. Quando a epidemia rompe todas as barreiras de controle, os quatro precisam entrar em movimento e tentar chegar a Florianópolis, alardeada no rádio como única cidade segura.
Da primeira à última página, Corpos secos é um delírio inspirado nas melhores tradições cinéfilas e literárias. De Érico Veríssimo a Quentin Tarantino, passando por Graciliano Ramos e o exploitation setentista, tudo ressoa a vertigem, os gêneros literários se sobrepõem e a adrenalina contamina cada parágrafo. Poucos são os instantes de calmaria, e ainda assim uma placidez difusa, que parece esconder a que veio.
Discutindo temas como homossexualidade e religião, Corpos secos abraça o caos enquanto sintoma do mundo exterior em tempos de coronavirus. Cada tiro, cada lágrima, cada corpo estendido no chão é um aviso para espiar a vida lá fora e perceber que não há situação ruim o bastante: quando “reina a paz da cidade morta”, tudo é possível. No fundo, estamos todos buscando a ilha.
Nota: ✩✩✩✩✩













