Capítulo I - Precedentes - Revival.
- Precedentes -
“Um dia do mês de um ano. Sentado na sala de embarque, a hora está próxima. A textura deste papel casa perfeitamente com a ponta da caneta a qual escrevo estes dizeres numa folha que talvez esteja no lixo em minutos.
Pensando...
Algumas vezes, eu desejaria estar me vendo sendo o Gunther sem o caos pré-estabelecido. Provavelmente eu estaria sendo o homem com uma rotina como a de milhões. Mais um na multidão daquele mar sem fim de pessoas insignificantes em uma cidade insignificante. Ou então eu estaria sendo um senhor do campo, apenas querendo uma bela visão de um litoral num pôr do sol de verão. Um Balconista dando conselhos vazios para um alcoólatra que insistira em desabafar a sua certeza em estar conduzindo seu relacionamento conturbado de maneira correta. Seria talvez eu o alcoólatra? A complexidade, a exigência de um significativo trabalho mental que a incerteza me dá me fascina.
Outrora, disseram-me que, uma vez que o corte profundo fora feito, as cicatrizes permanecerão no lugar do que antes era pele ilesa. E eu acho que essa é a coisa mais difícil que temos que suportar por andar pelo vale da sombra da morte. Mas, sobretudo, estarei a não sangrar? As pessoas que eu amo ensinaram-me a nunca tornar-me a vítima, viver sem desculpas e lamentos, ser íntegro. Mas para ser forte, antes não é preciso viver em fraqueza?
Eu tenho sonhos, e se uma convicção me foi entregue, foi a de que o esforço de um trabalho duro pode me fazer acordar e perceber que alcançar o que estava em minha consciência enquanto dormira pode ser palpável, pode tornar-se real e isso me faz deixar de querer mergulhar numa falsa nostalgia.
Algo me diz que não existe coisa mais saudável a se fazer. É chegada a hora.
Gunther Artemiev”
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