A origem da crença em um deus não é o medo da morte, mas sim, o medo da vida.
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A origem da crença em um deus não é o medo da morte, mas sim, o medo da vida.
Existia um homem no deserto que adorava construir castelos de areia. Todos os dias ele se esforçava para construir um conforme sua imaginação lhe ordenava. Em certos dias fracassava em seu objetivo, algumas vezes seu castelo ainda inacabado desmoronava por si mesmo, ou era derrubado por tempestades de areia ou lhe faltava água para terminá-lo. Uma dor e tristeza brotavam em seu peito por ver o fruto de seus esforços ali espalhados pelo chão. Em outros dias terminava sua obra e contemplava o seu pequeno castelo. Seu peito enchia-se de orgulho e alegria por ver o fruto de seus esforços recompensados. Todavia, em todos os dias, ao entardecer, o vento do deserto soprava e apagava seu castelo, ou os restos do mesmo empilhados no chão, grão a grão. Não importa o que fizesse para conter os ventos, não importa a beleza de sua obra, não importa o fracasso da sua construção, em todos os dias a materialização de seus esforços, seu pequeno castelo, para atender a um desejo era sempre apagado pelo vento. Mas o homem não desistia, no dia seguinte estava lá tentando construir mais um de seus pequenos castelos de areia. Assim é cada um de nossos dias, nos esforçamos para alcançar nossos desejos, mas, em realidade, alcançando-os ou não, este desejo é apagado por um misterioso vento, tornando possível que um novo desejo surja em seu lugar e nós recomecemos a sua construção.
A tristeza, a dor e outros sentimentos negativos nos enfeitiçam dizendo que eles nunca passarão, mas basta um novo desejo chegar que eles desaparecem ou pelo menos, entram em dormência.
Será que vai dar certo? Será que vou conseguir? Será que um dia vou ser feliz? Será que tudo isto passará? Sempre nos angustiamos com as incertezas da vida. Entretanto esta mesma possui uma certeza: o desejo. Todos os caminhos conduzem a um novo desejo, não importa se fracassamos ou se temos sucesso, sempre estaremos com um novo desejo para perseguir.
A origem do destino.
Assim como quando olhamos as nuvens enxergamos figuras de coisas, quando olhamos para o nosso passado temos a tendência de enxergar sentido nos acontecimentos e é a isto que chamamos destino.
Por que ficamos remoendo acontecimentos negativos? Por que ficamos alimentando preocupações? Pelo mesmo motivo que quando temos uma pequena ferida na boca, ficamos a mordiscando ou colocamos sal, apesar da dor, sentimos prazer. Puro masoquismo.
Hoje li uma frase, de um noivo que iria se casar no dia seguinte, um tanto rídicula. Ele dizia: “Amanhã seremos um”. Ora, a natureza teve o trabalho de criar dois seres humanos diferentes, cada um representando um universo próprio de desejos, instintos, ideias e pensamentos, mas a religião e estes rituais tribais querem atrapalhar a criação da sábia natureza e diminuir a pluralidade de seres unificando-os. É por isso que o casamento não dá certo, pois é necessário que cada um sacrifique a si mesmo, funda-se com o outro, diminuindo seu próprio ego, sufocando-se dentro de uma instituição abstrata e irreal em nome de regras sociais.
Devemos tomar cuidado com conceitos muito difíceis de serem definidos como deus, liberdade e felicidade. Geralmente, são meras quimeras.
Eu sei que, as vezes, depois de postar qualquer coisa nas redes sociais, você fica esperando alguém curtir.
Belas manhãs não tardam a trazer noites de escuridão.
... e é mesmo lícito asseverar que a vida humana não passa, afinal, de uma espécie de divertimento da Loucura.
Elogio da Loucura (Erasmo de Roterdã - p.54)
Remédio para as preocupações
“Si hay un remedio, ¿de qué sirve entonces la preocupación? Si no hay remedio, ¿de qué sirve entonces la preocupación?” - SHANTIDEVA - Camino del Bodhisattva.
Artigo: http://pijamasurf.com/2017/05/shantideva_demuestra_por_que_preocuparte_es_siempre_absurdo/
Diferença entre sentir e pensar
As vezes sabemos o que é certo, o que é mais lógico, mais racional para se fazer, porém, no fundo, ainda estamos fazendo/pensando o que nosso coração manda. Sempre estamos nos enganando, achando que aplicamos aquilo que é certo, o que a razão manda, mas, quando recobramos a ciência, pegamo-nos nos mesmos erros que o coração nos ordena.
Assim como cada célula de nosso corpo contém as informações de todo nosso corpo, cada um de nós contém as informações de todo o universo, que nada mais são do que nossas interpretações.
Paz e vida são coisas contraditórias. Bem se diz quando uma pessoa morre que ela foi descansar em paz, pois em vida não há paz.
eu
Em um frio dia de inverno, alguns porcos-espinhos agruparam-se para compartilhar calor e não congelarem. Logo começaram a sentir os efeitos de seus espinhos uns sobre os outros, forçando-os a se afastaram. Quando a necessidade por calor os persuadiram a se reunirem, a desvantagem dos espinhos se repetiu, lançando-os entre dois males, até descobrirem a distância apropriada para conseguirem se suportar. Da mesma forma, a necessidade social que decorre do vazio e da monotonia da vida dos homens, os levam a se reunirem. Mas, suas desprazerosas e repulsivas qualidades os afastam novamente. A distância apropriada que acabam descobrindo, possibilitando que se aturem juntos, é a educação e as boas maneiras. A quem não a mantenha, recomenda-se na Inglaterra manter distância. É verdade que, em virtude desta apropriada distância, a necessidade por calor não é completamente satisfeita, porém, ao menos, evita-se espetar. No entanto, quem quer que tenha uma grande quantidade de calor interno, preferirá manter-se afastado da sociedade para evitar dar ou receber problemas e aborrecimentos.
Schopenhauer, Parerga e Paralipomena, Cap. 31, §396.
Com um ou dois anos de idade, temos uma "personalidade de 360 graus", [...] somos uma bola de energia; mas um dia percebemos que nossos pais não apreciam certas partes dessa bola. Eles dizem: "Você não consegue ficar quieto?" ou "Não é bonito tentar matar seu irmãozinho". Atrás de nós temos uma sacola invisível e, para conservar o amor de nossos pais, nela colocamos a parte de nós que nossos pais não apreciam. Quando começamos a ir à escola, nossa sacola já é bastante grande, e aí nossos professores nos dizem: "O bom menino não fica bravo com coisinhas à-toa", e nós guardamos nossa raiva na sacola. [...] Depois fazemos o colegial e passamos por outro bom processo de guardar coisas na sacola. Agora quem nos pressiona não são os malvados adultos e, sim, o nosso próprio grupo etário. [Quando adultos, chegamos conservando uma fina fatia daquele globo de energia], o restante do globo está na sacola. [...] Quando colocamos uma parte de nós na sacola, essa parte regride. Retrocede ao barbarismo. Imagine um rapaz que lacra a sacola aos 20 e espera uns quinze ou vinte anos para reabri-la. O que ele irá encontrar? É triste, mas toda a sexualidade, selvageria, impulsividade, raiva e liberdade que ele colocou na sacola regrediram; não apenas seu temperamento se tornou primitivo como elas agora são hostis à pessoa que abre a sacola. O homem ou a mulher que abrem a sacola aos 45 anos sentem medo. Eles dão uma olhada e vêem a sombra de um gorila se esgueirando contra a parede; ora, qualquer pessoa que veja uma coisa dessas fica aterrorizada! [...] Cada parte da nossa personalidade que não amamos tornar-se-á hostil a nós. Ela também pode distanciar-se de nós e iniciar uma revolta contra nós. Vamos supor que miniaturizamos algumas partes de nós mesmos, as enrolamos como um filme e colocamos dentro de uma lata, onde elas ficarão no escuro. Então uma noite — sempre à noite — as formas reaparecem, imensas, e não conseguimos desviar nossos olhos delas. Estamos dirigindo à noite, fora da cidade, e vemos um homem e uma mulher numa enorme tela de cinema ao ar livre; paramos o carro e observamos. Algumas formas que foram enroladas dentro da lata (duplamente invisíveis, por estarem só parcialmente "reveladas" e por terem sido mantidas na escuridão) existem, durante o dia, apenas como pálidas imagens numa fina tira de celuloide cinzento. Quando uma certa luz se acende por trás de nós, formas fantasmagóricas aparecem na parede à nossa frente. Elas acendem cigarros: ameaçam os outros com revólveres. Nossa psique, portanto, é uma máquina natural de projeção; podemos recuperar as imagens que guardamos enroladas na lata e projetá-las para os outros ou sobre os outros. O marido pode rever sua raiva, enrolada na lata por vinte anos, no rosto da mulher. A mulher que sempre vê um herói no rosto do marido, certa noite, vê ali um tirano. [...] Quando colocamos muita coisa na nossa sacola particular, o resultado é nos sobrar pouca energia. Quanto maior a sacola, menor a energia. Algumas pessoas têm, por natureza, mais energia que outras; mas todos nós temos mais energia do que nos é possível usar. Para onde ela foi? [Para a sacola, é claro!] [...] Já que a lata (ou sacola) está fechada e suas imagens permanecem na escuridão, só podemos ver o seu conteúdo quando o lançamos — com a maior inocência, como costumamos dizer — lá fora no mundo. E então as aranhas se tornam más, as serpentes astuciosas e os bodes libidinosos; os homens tornam-se lineares, as mulheres passam a ser fracas, os russos deixam de ter princípios e todos os chineses se parecem. Apesar de tudo, é precisamente através desse "mar de lama" dispendioso, prejudicial, ruinoso e confuso que acabaremos por entrar em contato com a lama sob nossos pés.
Robert Bly - Cap.1 - Livro: Ao encontro da Sombra