DIA 01
[gatilho de depressão]
Estou sentada na sala de espera do meu novo psiquiatra. Minha irmã, do meu lado, parece não conseguir calar a boca falando sobre todas as minúcias do universo de moda, maquiagem e fofoca. Como agora eu vejo tudo por dentro, só quero que ela cale a boca, mas sei que ela parece essa metralhadora de palavras porque está tão assustada quanto eu que eu possa ter um novo ataque de pânico bem aqui e bem agora e tenta me distrair. Me remexo na cadeira, meu pé não para de ficar batucando como um timer de airfryer. Eu odeio o barulho de timer e me odeio porque meu corpo insiste em ficar imitando um. Tento realmente me distrair do aperto do peito, da metralhadora de palavras e da dificuldade de respirar pegando uma revista. Infelizmente percebi, só depois de abrir, que é um catalogo de médicos da cidade. Qual o nome do meu médico? Não sei, não quero saber. Procuro a palavra Psiquiatra, logo antes de psicólogo, penso que podia olhar psicólogos primeiro, mas estou muito cansada para isso. Respiro fundo 4x, seguro 4x e solto 8x. Olho todos os psiquiatras, quase todos de óculos, com jalecos, sorrindo animadamente como se seus próximos pacientes não estivessem mergulhados em caos. Há coisas como "Especialistas em depressão" ou "Atendimento diferenciado" e pior ainda "Novo Tratamento de prevenção ao suicídio". Passo mais tempo olhando o anuncio dessa médica. Ela tem um corte channel mal feito, vestidinho tubinho que a espreme, óculos grandes e posso jurar que o novo tratamento dela deve ser: você já procurou a luz de Deus? Fecho a revista, agora minha mão batuca a capa. Odeio o som. Odeio minha irmã me perguntando o que eu sinto agora. Odeio não entender o que eu sinto agora. Odeio não conseguir falar sobre isso sem começar a chorar. Odeio olhar tudo por dentro. O médico me chama é um homem, deve ter uns 60 anos, usa uma blusa da Vans. Pergunta secreta: é minion? Não sei. Então preciso de mais tempo. Sento na cadeira e ele começa com as perguntas. Odeio perguntas também. O que te trouxe aqui? ele quer saber. Até o momento segurei todas as lágrimas e olhei ele por dentro. Engulo a seco. Abro a boca, depois fecho, ele continua me olhando, a espera. Terça feira eu cheguei para trabalhar, comecei a me sentir mal. Achei que eu estivesse com Covid ou tendo um AVC (sou obesa - check) porque meu peito doía muito e eu não conseguia respirar. Meu ouvido zumbia e eu podia sentir minha pulsação muito forte, como se fosse me estourar de dentro para fora. Me levaram ao hospital e o médico que me atendeu disse era uma crise de ansiedade. Lembro de ver toda minha família espremida na salinha quando ele disse: Ela faz tratamento? Quando chega nesse estado precisa de tratamento, ela está toda enrijecida é caso de psiquiatra. Essa parte me machucou um pouco, fiquei com vergonha. Meus pais estavam ouvindo do médico aquelas coisas, eu estava tendo uma crise de choro, meu corpo parecia que queria virar uma bola e eu não podia fazer nada sobre nenhuma dessas coisas, foi horrível. A crise voltou no mesmo dia de noite e no dia seguinte, foi ainda mais horrível. Em cada uma delas, eu via o desespero de todos ao meu redor com os barulhos que eu fazia tentando respirar. O psiquiatra escuta somente as partes que digo que passei mal, não quero falar com ele sobre como me sentia, parece errado. Ele começa uma serie de perguntas: Drogas? Cigarro? Álcool? Remédios? Nego tudo. Ele olha minha ficha rapidamente. No seu bairro tem uma ponte, não é? Você já pensou em ir lá? Raciocino por um momento meio espantada. Para caminhar? Respondo confusa, o que eu menos quero é outro médico me dizendo que o meu problema é "apenas estar muito gorda". Ele ri, depois se inclina para frente. Eu quis dizer se você já pensou em ir até lá, sabe, e... talvez pular. Dessa vez outra rodada de choro silencioso. Faço que sim, ele não imagina quantas vezes. Ele diz que tudo bem chorar, e vai me perguntando sobre a minha vida, meu trabalho, quem sou eu. Ele quer saber o gatilho. Eu acho que sei qual é o gatilho. Mas não quero falar para ele. Não quero falar para ninguém; Acho que ele entende isso depois de várias respostas vagas. Ele me explica que não devo ter medo que a depressão e a ansiedade são doenças passageiras. Não sei se todas as pessoas sabem como é entrar em choque, nem eu sei, mas imagino que esse seja o nome para quando você fica meio fora de orbita, seus ouvidos começam a zumbir e você fixa sua atenção num ponto para que ninguém perceba que na verdade você não está ali. Sua mente foi dar um passeio, foi para um lugar seguro. Sei que ele falou muito sobre isso e me explicou como tomar meus remédios, como eu ficaria bem e que ele ia me ajudar, mas eu acho que estava em choque. Sempre achei que podia ter tudo isso, mas sempre me achei forte demais. É só mais um dia ruim, é só mais uma semana ruim, é só mais um mês ruim. É só sua vida ruim. Obrigada Doutor, levanto. Meus pés me levam a saída, todo o tempo percebo que calcei minha replica de allstar favorita e que sempre que usa-los de novo vou pensar no dia que eu fui diagnosticada com depressão e ansiedade, que comprei remédios tarja preta, que chorei compulsivamente num café ao lado da clinica e minha irmã me olhava triste enquanto falava palavras para me animar. MERDA. Eu fiz todas essas coisas comigo? Eu acho que quebrei alguma coisa que não tem um conserto. Pelo menos agora eu acho que não. O médico disse que com o tempo vamos descobrir o que quebrou e vamos consertar. Ele disse que eu podia conversar com as pessoas para tentar. Mas eu gostaria de falar sem ser eu de verdade. Sem ficar me escondendo e olhando as pessoas por dentro. Vocês acham que se alguma coisa dentro da gente quebra, algum dia, ela tem conserto?
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O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias.
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