Embora não fosse seu primeiro show, era difícil manter a calma minutos antes de entrar em cena. Apesar de soar como uma grande artista, Willa sempre tocara em pequenas baladas com os mais diversos públicos, desde algo mais underground até um ninho de gente podre de rica que adorava David Guetta, que era o caso da noite em questão. Aquele era provavelmente o set mais chato e cafona que já tivera a oportunidade de montar, mas o trabalho a chamava e se quisesse continuar ganhando dinheiro para manter a si mesma e ao pai viciado era melhor suportar a situação.
Enquanto tomava conta da casa com seus remixes, assistia a diversas pessoas reagindo às drogas que eram vendidas ali dentro. Ainda que alguns casos fossem razoavelmente engraçados de serem flagrados, achava deprimente o estado que alguém poderia chegar por conta de algumas pequenas pílulas ou ervas. Vê-los de tal forma a lembrava do quanto sofria para cuidar de seu pai. Por conta disso, sempre preferiu manter-se no seu bom e velho cigarro. Jamais conseguiria largá-lo e não via a hora de deixar o palco para alimentar o vício.
No instante em que a última nota ecoara pela casa, um grupinho de jovens pedia bis, porém ela só queria dar o fora dali o quanto antes, então fez um rápido agradecimento silencioso ao pessoal que a olhava ansioso e tratou de ir direto ao bar pegar uma cerveja. A relação de Willa para com baladas era estranha, ainda que trabalhasse como DJ e frequentasse diversas boates, era o lado de fora que mais lhe agradava: som num volume razoável, espaço pessoal e a liberdade de poder fumar tranquilamente, além de ter a oportunidade de selecionar melhor alguma possível foda para o fim da noite, mas com o tipo de frequentador da noite, era bem possível que dormisse sozinha..
Para a sorte de Royal, as vendas pareciam melhorar naquele canto; mais próximo da porta, e possivelmente mais lotado, ali estavam todas as pessoas que ainda não haviam tido a oportunidade de provar nenhum tipo de viagem louca naquela noite, dando para o próprio Royal a oportunidade de faturar o suficiente para que ele próprio pudesse usufruir mais daquela noite: querendo ou não, o tráfico se esgueirava como uma teia de aranha, e, infelizmente, não era tão grande ao ponto de ser a própria predadora. Portanto, sabendo o quanto deveria para seus fornecedores, era necessário vender sempre um pouco mais para poder contar com algo para si, e ali, havia faturado o suficiente para aquela semana -- se fosse louco, não apareceria por nenhum lugar na noite seguinte.
Decidiu, por fim, dar uma pausa. O frenesi dentro da boate não era seu local favorito, apesar de ser o melhor para seu trabalho, e portanto, não tardou a caminhar para o lado de fora, onde poderia, em paz, fumar sua própria erva, de preferência, a melhor que tinha. Uma indica pura e bem crescida. Os passos eram lentos, como se tentasse se fundir à multidão, mas duvidava que alguém sequer prestava atenção em si: um novo DJ já subia para tocar um novo set de músicas cafonas e irritantes, além de uma briga ter começado próxima aos banheiros. Sabia, portanto, que ninguém o incomodaria em um local mais tranquilo.
Atingindo um ponto onde a música não fazia seus ouvidos doerem e fazendo com que sua estranha vontade de se misturar ali passasse, não demorou a sacar o beck já preparado anteriormente, acendendo-o sem muita hesitação, o primeiro trago fazendo com que o corpo do traficante relaxasse aos poucos. Deixou que os olhos vagassem, sem se importar muito com o tempo que levava para o novo trago, antes de finalmente puxar assunto com alguém que parecia próximo o suficiente para isso. “O som daqui é sempre esse?”