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THE PITT 2.01 – 7:00 A.M.
Game of Thrones Daily
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Janaina Medeiros
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THE PITT 2.01 – 7:00 A.M.
Existem coisas que a vida não prepara a gente. De repente um golfo de choro e mil pensamentos. Saudades de coisas que não sei de que. Estou andando a esmo pelo campus da UFF, como tantas vezes andei. Vou fazer uma fala em um seminário, como em tantas vezes já fiz. Mas por que tanta emoção? São tantas coisas processadas em poucos segundos, se me derem espaço é capaz de eu falar mais do que devia? Seria vergonhoso.
Title: The Ballerina of Auschwitz | Author: Edith Eger | Publisher: Atheneum Books (2024)
Livro de novembro/2025
Frances McDormand as Fern / Nomadland (2020)
Academy Award Winner as Best Actress
Joan Didion, December 5, 1934 – December 23, 2021.
1996 photo by Brigitte Lacombe.
Terá sido mesmo um sonho?
Quem é o responsável pelos sonhos? Ele se importa?
Será que apenas sonhando ou escrevendo eu conseguia descobrir o que pensava?
O ano do pensamento mágico
Minha árvore favorita da Grajaú-Jacarepaguá
Pedestal
Gostaria de expor minha raiva
Toda indignação transbordante
A idade me atém
Penso em gritar
Esgoelar
Xingar
Matar
Explodir
Bater
Esmurrar
Reflexo
Acho feio, patético
Infantil
Histérico
Sentimento tão visceral não é sofisticado
Como expresso, então?
Não tenho uma arte para chamar de minha
Vou me desfazer em crochet?
Vou cozinhar para um batalhão?
Vou correr até arrebentar os joelhos?
Nenhuma dessas possibilidades apresenta vantagem
O que fazer então?
Chorar?
Brigar com marido?
Criar um inferno doméstico?
Manchar roupas? Quebrar eletrodomésticos?
Consumir?
Continuo no prejuízo
Não posso me revoltar
Não posso me indignar
O quer fazer com esse monte de sentir que sobe
vara o pescoço
e salta a boca em ânsia?
Engolir?
Engole!
O que faço?
Não posso arrancar os cabelos
Não quero voltar esse sentimento contra mim
Seria burrice
O tempo vai passando
Amanhã ao meio dia
O que devo reservar?
Como posso presentear minha ira?
Como faço para sair do mundo?
Não quero estar nesse mundo
Dinheiro, poder, hierarquia
Minha raiva, o que fazer com ela?
Vou transferi-la para uma caixa
Deixar bem guardada
Fazer várias embalagens
Cuidado nipônico
Dedos meticulosos
Alisa o papel, faz laços
Como ficará aí dentro? (o que voce vê?)
Uma cabeça decaptada, inchada, disforme e fedida
Indesejável sentir
Me exercito para enjaulá-la
Gostaria de não me envergonhar por tê-la
Poria em um pedestal na estante da sala
Círio Pascal
Eternamente flamejante, qual brilho cego do olhar
Sempre ali a nos iluminar
Até tudo queimar
Queime!
Exploda!
Marcele Frossard, 13/11/2025
Laksmi, Zeca Baleiro · Distantes e Tão Próximos · Song · 2023
Distantes e Tão Próximos
Distantes e tão próximos O amor em tempos ásperos
E o que dirão os astros? Tudo parece tão difícil O amor em cada passo Não faltará espaço
Distantes e tão próximos O amor em tempos áridos Despidos até os ossos De armaduras e outros artifícios
Distantes e tão próximos Cantar um novo início
Distantes e tão próximos O amor em tempos ásperos
E o que dirão os astros? Tudo parece tão difícil O amor em cada passo Não faltará espaço
Distantes e tão próximos O amor em tempos áridos Despidos até os ossos De armaduras e outros artifícios
Distantes e tão próximos Cantar um novo início
Até os ossos De armaduras e outros artifícios
Distantes e tão próximos Cantar um novo início
Até os ossos De armaduras e outros artifícios
Distantes e tão próximos Cantar um novo início
Distantes e tão próximos
Laksmi e Zeca Baleiro
Cartas para o futuro I
Rio de Janeiro, 02/10/2025
Poderia abrir essa carta te perguntando como vai. Mas achei que era perda de tempo. Colocar isso no papel e te obrigar a ler já é per si te obrigar a perder tempo. Ao reler meus diários me deparei com a sensação de que escrevo cartas. Escrevo para quem? Principalmente para você, que daqui uns anos retornará e buscará nesses textos alguma memória de quem é.
O que sou agora? Além do corpo materno exausto que executa tarefas e resolve problemas infinitos como uma pilha de roupa para entrar e sair da máquina de lavar e depois subir para os armários para serem usadas e partirem novamente para o cesto de roupas, num trabalho de Sísifo. É um pleonasmo informar que é infinito.
Sebastião tem câncer. Já tentei escrever sobre isso de mil maneiras. Abri um doc e não avancei muito. Não tem uma forma de falar sobre isso sem parecer piegas. É sofrimento pelo sofrimento. Essas coisas de filme de autoajuda, com aqueles altos e baixos constantes e que torcemos pelo bem do protagonista. No meio desse caminho temos que continuar os malabarismos, agora com mais bolinhas e mais rápidas do que nunca, com o diferencial que uma delas pode colocar em risco a vida da criança.
Dentre as bolinhas estão remédios, pressionar o plano de saúde para realizar sua parte do contrato, contas, advogado, internações, limpeza da casa e torcer para que nos poucos momentos em que deixamos a criança viver um relance de plenitude de sua própria infância nada se infeccione ou de machuque.
Deus tem cumprido muito bem seu papel, junto com todos os anjos e santos, a quem deposito totalmente minha fé cega de que tudo isso é só um desses momentos difíceis que a gente atravessa e que vai ficar tudo bem. Nunca fui tão crente e tão confiante. Também não restam muitas opções. Optei por não ser um animal em sofrimento, me debatendo contra a irreversibilidade da vida.
Queria saber escrever decentemente, ter sentido, forma e poesia suficiente para expressar a relação que desenvolvo comigo mesma nesse momento. Mas me formei datilográfa: digito em tempo recorde sem pensar no que escrevo, apenas colocando as letras no papel que uma voz dita. Em relação a minha própria vida não há opção de análise, pois como nos diz Kundera, em A insustentável leveza do ser:
"Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo “esquisso” é a palavra certa, porque o esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto que o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro.”
Várias vezes encontro em mim imagens de leituras, experiências que surgem como uma forma de aprendizado que não se dá pelo exercício, mas como uma espécie de cicatriz. Não dói, mas sinto que vivi alguma parte do que estou vivendo.
Neste momento é como se minha vida real fosse um sonho e da maneira como sinto a experiência dos sonhos se misturando com meu ser, sinto que minha vida, os sentimentos se misturam com meu passado e meu futuro e que finalmente, consigo capturar o presente em sua totalidade.
A ansiedade enorme que sempre me caracterizou e que surge em momentos de trabalho intenso, com prazos e demandas, desapareceu. Só existem dois caminhos possíveis. Não sei como será depois que um deles for definido. Por hoje, escolhi que vou ser feliz com o que for decidido pelo universo, Deus, a vida e qualquer uma dessas coisas que nos ultrapassam e que decidem que um casal feliz deve ter um bebê com câncer.
Nós vamos ser felizes: caso o bebê viva e vire uma criança; caso o bebê se torne memória. Tem tantas coisas que gostaria de te contar.
Antes de engravidar, várias vezes sofri imaginando que gostaria de prever o futuro e saber se pude ou não ter filhos. Agora que tenho e nessas circunstâncias, inacreditavelmente não desejo saber o futuro e só consigo sentir gratidão. Por cada minuto de vida que passamos juntos, cada sorriso, cada momento de alegria que a criança espalhou gratuita e espontaneamente.
Ter a criança não me tornou mãe. O Samuel me tornou mãe antes, no sentido da desistência, do fazer o que não se quer, da doação, do serviço, do amadurecer, desse amor que não se sabe quando surge. Sebastião, em sua curta vida me tornou algo muito maior e inexplicável. É como se algo divino nos tocasse e nos fizesse sentir a essência da vida em sua incomunicabilidade e ausência de sentido. Uma vida sem propósito, apenas vida, que assim como brota espontaneamente, se esvai sem explicação. Obrigando-nos a viver no agora, na certeza de que tudo irá se resolver, de que nossas vontades são insignificantes diante da magnitude paradoxal da vida.
O pensamento, as palavras, o raciocínio não alcançam essa dimensão da vida. Só o sentir. Esse desabrochar, esse arregaçamento da alma, essa ferida putrefada, isso que acontece tudo ao mesmo tempo. O indizível.
Não sei como você está, mas espero muito que não esteja sofrendo. Estou preparando muitas coisas para o futuro e quero muito que tenha condições de se erguer.
O sofrimento é solitário, mesmo que passemos com alguém que sofre pelo mesmo mal que nós. Não culpe ninguém. Não se isole. Chore. Chore de se desfazer, até que o chorar pelo chorar não faça mais sentido. O amor é algo muito maior. Algo que supera o sofrimento. O amor é se abandonar. É "o abismo que chama outro abismo" (Sl 42,8). É encontrar na intimidade o mistério. Essa tem sido minha curiosidade atual: o mistério.
Diz Leonardo Boff num de seus livros: “A fé consiste fundamentalmente numa atitude radical de abertura para o Mistério de nossa existência e de sua acolhida amorosa, modificando o caminhar humano. Crer em Deus é um modo de viver a vida como confiada, entregue, colocada em Suas mãos; é uma maneira de totalizar todas as nossas experiências e interpretar o mundo, vendo-o a partir do desígnio de Deus e ligado umbilicalmente à Sua divina realidade.”
Outro dia, de madrugada me deparei com ele. O mistério. Esse enorme ser que parece se esconder dentro de uma profundidade de oceano, mas que vive em mim. Lá experimentei a sensação de que tudo está como deve estar, nem um fio de cabelo a mais ou a menos. Mas isso já é tema para outra carta. Em outro momento, quando a vida me der outro intervalo como esse de hoje, te escrevo.
Até mais, até breve
À espera dos bárbaros
O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado? Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje. Que leis hão de fazer os senadores? Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se ergueu tão cedo e de coroa solene se assentou em seu trono, à porta magna da cidade? É que os bárbaros chegam hoje. O nosso imperador conta saudar o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe um pergaminho no qual estão escritos muitos nomes e títulos. Por que hoje os dois cônsules e os pretores usam togas de púrpura, bordadas, e pulseiras com grandes ametistas e anéis com tais brilhantes e esmeraldas? Por que hoje empunham bastões tão preciosos, de ouro e prata finamente cravejados? É que os bárbaros chegam hoje, tais coisas os deslumbram. Por que não vêm os dignos oradores derramar o seu verbo como sempre? É que os bárbaros chegam hoje e aborrecem arengas, eloqüências. Por que subitamente esta inquietude? (Que seriedade nas fisionomias!) Por que tão rápido as ruas se esvaziam e todos voltam para casa preocupados? Porque é já noite, os bárbaros não vêm e gente recém-chegada das fronteiras diz que não há mais bárbaros. Sem bárbaros o que será de nós? Ah! eles eram uma solução. (Konstantinos Kaváfis)
“Never waste your time trying to explain who you are to people who are committed to misunderstanding you.”
— Dream Hampton
“Nothing of me is original. I am the combined effort of everyone I’ve ever known.”
— Chuck Palahniuk, Invisible Monsters
Jardim Botânico, 11/02/2023
Marcele Frossard
Luz e sombra, Jardim Botânico/RJ
11/02/2022
Marcele Frossard