CANDLES
essa semana quis muito escrever
11/ algo passeou pelos meus cantos internos mais obscuros deixando um gosto amargo na ponta da língua das coisas que não falei. nas manhãs chuvosas me perguntei se tudo poderia ser diluído com a água gelada que escorria do começo da rua pelos canteiros até morrer em um monte de areia de um prédio em eterna construção. nas manhãs em que o Rio Jauaperi cheira a pão assado, idosos se exercitando e cimento. nessas manhãs que deixam o resto do dia o clima feito estufa. 13/ os braços dos passageiros do ônibus brilhavam devido as pequenas partículas de suor e a luz medonha do sol, era bonito, daquelas coisas tão bonitas que a gente quase esquece o quão agonizantes podem ser. senti tua falta ontem enquanto dava o laço no tênis encardido do carnaval e tinha gosto de pasta na boca. 15/ senti tua falta nas horas em que abro os olhos para a luz e vejo teus cabelos enrolados adormecidos no travesseiro ao meu lado lado engolida pelo lençol com cheiro dos nossos perfumes e sexos. senti falta do caminho diagonal até a casa de Lelê, senti falta de errar as tampas dos potes de plástico e ela rir na cozinha. senti falta do ruivo de Maria, da risada cor de rosa de Neto, dos planos intergaláticos com Pedro, do peixes em Aurora, até do gêmeos e capricórnio nas irmãs Monteiro. a rotina rasga a gente, meu bem. longos ritmos mecânicos, coisas para fazer, guardar, encaminhar, montar. toda essa infinitude verbal. 10/ e eles não me escutam, eu falo baixinho demais, sabe? meu timbre de mulher não alcança a compreensão cognitiva deles. sendo assim, eles vencem pelo cansaço, deitam nas minhas costas, descansam no meu quarto, fazem barulho, não me deixam dormir, enchem minhas mochilas de coisas peçonhentas, me fecham as portas, fazem o meu gato engolir a chave, dizem que não vou. eles não me querem aqui. 16/ eles não me vêem. eles não me enxergam. eles me ignoram, meu bem. eles me ignoram e essa notícia veio como um caldo; lançou-me na areia cortante, girou meu corpo, engasgou minha garganta. a água que, antes doce, lava o meu corpo escorrendo pelo chão salgada.
13/ acendi as três velas em formato de girassol que roubei do brechó da minha mãe. acendi um incenso de mirra que você me deu e tem a lembrança do teu cheiro, provavelmente pelo jeito que me sinto e não pelos componentes químicos. a fumaça sutil se encaminhava para a janela. as luzes desenhavam sombras: livros, travesseiros, meu corpo nu, Jr., os quadros empilhados. olho os retângulos acesos dos apartamentos vizinhos.
eu vou sair daqui.












