Você escreveu uma carta para mim esses dias... Achei o gesto bonito e guardei com carinho. Você parece preocupada comigo...
Eu queria poder retribuir a atitude, te escrever uma carta de volta falando as coisas que penso e que talvez eu me preocupe mais com você do que você comigo, por que sinto que as minhas preocupações são reais. O que te afeta realmente existe.
Pela sua carta, percebi que suas preocupações comigo, na verdade, não existem. Você acha que estou triste por ter perdido um relacionamento longo e deve pensar que quero alguém novamente. Parece que, na sua cabeça, a vida de uma mulher se resume a ter um homem ao lado e que só isso motivaria a minha tristeza.
Uma parte da minha tristeza vem de te observar e perceber o que sinto de verdade em relação a você. Eu sempre penso em você e fico imaginando o que se passa na sua cabeça e no seu coração. Na maior parte das vezes, sinto pena. Tenho vontade de chorar, porque você vai sair desta vida sem ter aproveitado nada, vivendo dentro de uma ilusão.
Fico triste porque você se doa muito para a família o tempo todo. Você sempre está disponível, sempre deixa tudo arrumado. Como filha, isso é ótimo para mim, é muito bom não precisar me preocupar com muita coisa porque você já fez tudo. Mas, como mulher, eu queria que você fosse pelo menos um pouco egoísta.
Queria que você deixasse algumas coisas sem fazer simplesmente porque quis passar o dia assistindo filmes. Queria que você me ouvisse e fosse fazer um cursinho qualquer só pra poder fazer amigas e ter um hobby. Queria que você tivesse curiosidade sobre o mundo e buscasse conhecimento. Eu queria que você não tivesse medo do mundo e da vida.
Eu queria que você não tivesse entrado pra igreja, casado e tido filhos. Queria que você tivesse sido uma jovem com vontade de conhecer o mundo, com bons amigos ao seu lado, conhecendo lugares novos, fazendo coisas legais, vivendo a vida plenamente. Eu queria que sua vida fosse boa, mãe.
Mas não posso te dizer isso (nem todas as outras coisas que penso), pois a igreja comeu uma parte do seu cérebro e meu pai a outra. Então, se eu começo a falar tudo o que penso, você não vai aceitar. Vai dizer que é o diabo usando a minha boca pra tentar você. Eu sei disso porque, na última conversa em que tentei me abrir de verdade, foi isso que você me disse.
Eu acho triste ver sua mente ser comida por aquele bispo, dia e noite, há quarenta e tantos anos. Mas eu entendo a razão pela qual você se agarrar à religião e ao papel de mãe e esposa. E justamente por entender é que acho triste, mãe.
Eu queria poder conversar com você, mas não consigo. Sei que, de alguma forma, se eu me abrir e falar o que penso, você vai se ofender, ainda que eu esteja falando a verdade.
Mas sabe qual é a minha preocupação verdadeira? Tirar de você essas ilusões e te deixar sem chão. Porque você não é nada sem essas coisas. Você vive pra ser útil e seguir uma religião. Como posso te tirar isso se é tudo o que você tem?
Como seria se eu te fizesse enxergar que passou a vida sem realmente viver? Não acredito que você se revoltaria e tentaria viver de outro jeito. Tenho a impressão que você definharia, ou então brigaria comigo, culpando no diabo, dizendo que ele está tentando te afrontar.
É! Talvez você apenas culpe o diabo e continue vivendo a vida de ilusões que escolheu pra si.

















