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Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política

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Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
Deixando de lado as polêmicas sobre o verdadeiro significado de "compartilhamento" em expressões como "economia compartilhada", é possível distinguir um argumento intrigante em toda essa retórica autocongratulatória. Magnânimo, o Vale do Silício quer muito ser o antídoto perfeito para a gananciosa Wall Street:' se esta, cada vez mais, aumenta a desigualdade de renda, ele ajuda a superar o hiato na desigualdade do consumo. Ou seja, talvez você ganhe cada vez menos que o seu vizinho rico, mas tanto um como o outro também pagam cada vez menos - e provavelmente nada - para ouvir música no Spotify, fazer pesquisas no Google ou assistir a vídeos engraçados no YouTube. Em breve, essa lógica se aplicará ao próprio acesso à internet" a principal iniciativa do Facebook para os países em desenvolvimento é oferecer aos usuários acesso praticamente gratuito a serviços básicos on-line, como o próprio Facebook ou a Wikipedia. Assim que educação, saúde e outros serviços forem deslocados para a nuvem, as empresas de tecnologia terão ainda mais importância nessas áreas. Não seria possível ao Google alertá-lo sobre o surgimento de algum sintoma, uma vez que você compartilha diariamente seus dados de saúde? Isso não implicaria oferecer cuidados médicos básicos àqueles que, de outro modo, não teriam condições de pagar por isso? E, na ausência de outras opções, quem objetaria ao fato de vidas serem salvas pelo Google? O conto de fadas do "empoderamento do usuário", tão insistentemente disseminado pelo Vale do Silício, é repleto de promessas desse tipo. Tendo como pano de fundo o decrépito Estado de bem-estar social, incapaz de cumprir as promessas feitas à população, o Vale do Silício nos propõe uma nova rede social: ainda que sejamos forçados a vender nossos carros e deixar de pagar nossas hipotecas, jamais perderemos o acesso ao Spotify e ao Google. Ainda é possível morrer por falta de comida, mas não por falta de conteúdo.
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
(...) ao pagarmos com o celular - ou ao armazenar sua selfie para a posteridade ou compartilhá-la numa rede social -, há um histórico que pode ser explorado por agências de publicidade e por outras empresas. (...) o registro de cada transação é uma oportunidade para a coleta de dados aproveitáveis na personalização dos apelos publicitários que nos são dirigidos. Isso significa que toda transação eletrônica que efetuamos nunca está concluída" o seu histórico - ao menos seu rastro de dados - nos acompanha por todos os lados, estabelecendo conexões forçadas entre as nossas atividades cotidianas, que, talvez, devessem permanecer separadas. De repente, suas risadas num show de comédia são analisadas em conjunto com os livros que você comprou, os sites que visitou, as viagens que fez, as calorias que consumiu: como atualmente tudo é mediado pela tecnologia, tudo o que fazemos está integrado num perfil específico que pode ser monetizado e aperfeiçoado. Tais rupturas tecnológicas tem origem em todos os campos, menos na tecnologia. Elas são viabilizadas pelas crises políticas e econômicas que se abatem sobre nós, ao mesmo tempo que suas consequências afetam profundamente a forma como vivemos e nos relacionamos. É muito difícil preservar valores como solidariedade num ambiente tecnológico que prospera com base na personalização e em experiências únicas e individuais. O Vale do Silício não está mentindo: a nossa vida cotidiana está, de fato, se rompendo. Mas sua ruptura se dá por forças bem mais malignas do que a digitalização ou a interconectividade. E o nosso fetiche pela inovação não é uma desculpa para internalizarmos os custos da recente turbulência econômica e política.
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
Já em 1990, Deleuze alertava sobre esse viés das ferramentas: "A cada tipo de sociedade, evidentemente, pode-se fazer corresponder um tipo de máquina: as máquinas simples ou dinâmicas para as sociedades de soberania, as máquinas energéticas para as de disciplina, as cibernéticas e os computadores para as sociedades de controle. Mas máquinas não explicam nada, é preciso analisar os agenciamentos coletivos dos quais elas são apenas uma parte". Nas últimas duas décadas, a nossa capacidade de estabelecer essa conexão entre máquinas e "arranjos coletivos" praticamente se atrofiou. Desconfio que isso tenha acontecido porque presumimos que tais máquinas venha do "ciberespaço", que pertençam ao mundo "on-line" e "digital" - em outras palavras, que nos foram concedidas pelas divindades da "internet". E a "internet", como sempre nos diz o Vale do Silício, é o futuro. Então, opor-se a essas máquinas significa opor-se ao próprio futuro. Ora, tudo isso é besteira: não existe "ciberespaço", e o "debate digital" não passa de um monte de sofismas inventados pelo Vale do Silício que permitem aos seus executivos dormirem bem à noite. (Além de pagar bem!) Já não ouvimos o suficiente?
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
(...) o Vale do Silício destruiu a nossa capacidade de imaginar outros modelos de gestão e de organização da infraestrutura de comunicação. Podemos esquecer os modelos que não se baseiam em publicidade e que não contribuem para a centralização de dados em servidores particulares instalados nos Estados Unidos. (...) Já que as nossas redes de comunicação estão nas mãos do setor privado, não deveríamos cometer o mesmo erro em relação à privacidade. Não deveríamos limitar a solução desse problema complexo às propostas oferecidas pelo mercado. Infelizmente, graças ao zelo empreendedor do Vale do Silício, essa privatização já está em andamento. A privacidade está se tornando uma mercadoria. Como se consegue privacidade hoje em dia? Basta perguntar a qualquer hacker: somente aprendendo a usar as ferramentas adequadas. A privacidade deixou de ser uma garantia ou uma coisa de que desfrutamos gratuitamente: agora temos de gastar recursos para dominar as ferramentas. Esses recursos podem ser dinheiro, paciência, atenção - dá até para contratar um consultor que se encarregue de fazer tudo isso -, mas a questão é que a privacidade hoje é algo caro. E quanto aos que não podem pagar por ferramentas e consultores? Como ficam suas vidas?
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
O modelo de capitalismo "dadocêntrico" adotado pelo Vale do Silício busca converter todos os aspectos da existência cotidiana em ativo rentável: tudo aquilo que costumava ser o nosso refúgio contra os caprichos do trabalho e as ansiedades do mercado. Isso não ocorre apenas pela atenuação da diferença entre trabalho e não trabalho, mas também quando nos faz aceitar tacitamente a ideia de que nossa reputação é uma obra em andamento - algo a que podemos e devemos nos dedicar 24 horas por dia, sete dias por semana. Dessa maneira, tudo vira um ativo rentável: nossos relacionamentos, nossa vida familiar, nossas férias e até nosso sono (agora você é convidado a rastrear o sono, a fim de aproveitá-lo ao máximo no menor tempo possível). A retórica associada a tais "avanços" é tão sublime quanto revolucionária, sobretudo ao se mesclar a temas como o da "economia compartilhada". "Esta é a primeira etapa de algo mais profundo, ou seja, a capacidade das pessoas de estruturar a vida em função das múltiplas atividades da economia compartilhada, como uma escolha deliberada, e não um trabalho das nove às seis, cinco dias por semana", comentou em uma entrevista recente o professor Arun Sundararajan, da Universidade de Nova York, um grande adepto da "economia compartilhada". "É a tecnologia que está por trás desse progresso. Este é o ponto crucial", acrescentou. Ah, sim, nunca o "progresso" foi algo tão bom: quem não prefere trabalhar o tempo todo, em vez de apenas se esfalfar das nove da manhã até as seis da tarde?
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
(...) as empresas do Vale do Silício estão construindo o que chamo de "cerca invisível de arame farpado" ao redor de nossas vidas. Elas nos prometem mais liberdade, mais abertura, mais mobilidade; dizem que podemos circular onde e quando quisermos. Porém, o tipo de emancipação que de fato obtemos é falsa; é emancipação de um criminoso que foi recém-libertado, mas que ainda está usando uma tornozeleira. Não resta dúvida de que um carro autônomo pode tornar nossos deslocamentos diários menos incômodos. No entanto, um carro autônomo operado pelo Google não seria apenas um veículo autônomo, mas também um santuário à vigilância - sobre rodas! Ele registrará todos os lugares que frequentarmos. Pode até nos impedir de ir a certos locais quando o nosso humor - em função de análises de expressão facial - indicar que estamos com raiva, exaustos ou emocionados demais. Claro que há exceções - às vezes, o GPS pode ser extremamente útil -, contudo a tendência é óbvia: todo novo sensor adicionado ao carro pelo Google seria um novo meio de controle. E este nem sequer precisa ser acionado para alterar o nosso comportamento - basta sabermos que ele existe.
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
Se Ronald Reagan foi o primeiro presidente teflon, então o Vale do Silício é a primeira indústria teflon: não importa quanta lama se atire nela, nada parece grudar ali. "Big Pharma" (as grandes companhias farmacêuticas), "Big Food" (as grandes alimentícias) e "Big Oil" (as grandes petroleiras) são termos depreciativos usados para descrever a ganância suprema que reina nesses setores, porém não se nota a mesma animosidade no caso de "Big Data". Esse termo inocente nunca é usado em referência às agendas compartilhadas das empresas de tecnologia. Que agendas são essas? Afinal, esses caras não estão empenhados em melhorar o mundo, em linha após linha de programação? (...) Há um motivo simples para o debate digital parecer tão vazio e inócuo: definido como "digital" em vez de "político" e "econômico", desde o princípio o debate é conduzido em termos favoráveis às empresas de tecnologia. Sem o conhecimento da maioria de nós, a natureza aparentemente excepcional das mercadorias em questão - desde a "informação", passando pelas "redes", até a "internet" - está codificada em nossa linguagem. É essa excepcionalidade oculta que permite ao Vale do Silício descartar seus críticos, chamando-os de luditas, os quais, ao se oporem à "tecnologia", à "informação" ou à "internet" - não se usam plurais no Vale do Silício, pois toda nuance traz o risco de confundir seus cérebros -, também devem ser opositores do "progresso". Como identificar "o debate digital"? Basta reconhecer os argumentos que remetem à essência das coisas - da tecnologia, da informação, do conhecimento e, claro, da própria internet. Assim, sempre que ouvimos alguém dizer "Essa lei é ruim porque vai quebrar a internet" ou "Esse novo aparelho é bom porque a tecnologia precisa dele", sabemos que não estamos mais no terreno da política - onde os argumentos costumam girar em torno do bem comum - e adentramos o reino da metafísica ruim. Nesse domínio, somos solicitados a defender o bem-estar de divindades digitais fantasmagóricas que funcionam como prepostos convenientes dos interesses empresariais. Por que qualquer coisa que poderia "quebrar a internet" também quebraria o Google? Isso não pode ser uma coincidência, pode? Talvez devêssemos abandonar por completo a dialética tecnologia/progresso. "Tudo bem ser ludita?" é o título de um fabuloso ensaio publicado por Thomas Pynchon em 1984 - uma pergunta a que ele respondeu, de modo geral, positivamente. Hoje a questão parece obsoleta. "Tudo bem não ser um ludita, mas ainda assim odiar o Vale do Silício?" é uma pergunta bem melhor, pois o verdadeiro inimigo não é a tecnologia, mas o atual regime político e econômico - uma combinação selvagem do complexo militar-industrial e dos descontrolados setores banqueiro e publicitário -, que recorre às tecnologias mais recentes para alcançar seus horrendos objetivos (mesmo que lucrativos e eventualmente agradáveis). O Vale do Silício é a parte mais visível, mais discutida e mais ingênua desse conjunto. Em suma, tudo bem odiar o Vale do Silício - só precisamos fazê-lo pelos motivos certos.
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
(...) ambiente político extremamente tóxico, que é individualista e consumista e não admite a existência de vida fora do mercado. Como Schwartz comentou em seu artigo de 1973, "as novas mídias podem comunicar novos valores encarnados em si ou podem promover um consumismo novo e dinâmico, numa embalagem eletrônica para valores antigos". Para retomar uma das questões originais desse ensaio: é possível que os cidadãos reconquistem a soberania popular sobre a tecnologia? Sim, é possível - mas somente se antes reconquistarmos a soberania sobre a economia e a política. Se a maioria de nós acredita em algum tipo de "fim da história" - sem disposição ou capacidade para questionar a possibilidade de uma alternativa genuína tanto ao capitalismo global como ao predomínio do mercado na vida social -, então não resta de fato nenhuma esperança (...)
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
Os aspectos mais brutais de uma empresa como a Uber não fariam muito sentido num mundo em que nos preocupássemos com os nossos concidadãos - fossem eles motoristas ou passageiros portadores de deficiências. Não é de admirar que estes constituam uma categoria que a Uber prefere ignorar: ao não incluir entre os requisitos iniciais um treinamento especial para os motoristas, a empresa pode reduzir os custos e oferecer tarifas mais baratas. Porém, num mundo em que escasseiam os vínculos sociais e o sentimento de solidariedade, a Uber, tal como o Walmart na geração anterior, faz todo o sentido. Ela oferece um serviço mais direto, eficiente - e, o mais importante, mais barato. O que mais pode querer um típico cidadão neoliberal? Se o Vale do Silício simplesmente se aproveitou da dissolução dos laços de solidariedade na sociedade ou se contribuiu ativamente para essa dissolução, trata-se uma questão (...)
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
(...) apesar dos crescentes indícios de que os sonhos utópicos, que estão por trás da concepção da internet como uma rede intrinsecamente democratizante, solapadora do poder e cosmopolita, há muito perderam seu apelo universal. A aldeia global jamais se materializou - em vez disso, acabamos em um domínio feudal, nitidamente partilhado entre as empresas de tecnologia e os serviços de inteligência. (...) as nossas tecnologias - e as ideologias que elas promovem - são, em grande medida, norte-americanas. É bem verdade que as empresas de tecnologia russas e chinesas têm fortalecido cada vez mais a sua musculatura, tanto em casa como no exterior. Não há como negar, porém, que os governos desses países se opõem mais ao imperialismo de Washington do que ao neoliberalismo do Vale do Silício. O que eles mais temem é o uso geopolítico das plataformas estrangeiras de tecnologia contra seus interesses nacionais; mas não veem muito problema no modelo básico hipercapitalista de plataforma/monopólio adotado por muitas empresas do Vale do Silício.
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
(...) não vai demorar muito para que empresas como o Facebook e a Alphabet recorram a um estratagema final e coloquem em risco a própria ideia de uma política democrática: vendendo-nos a ideia de liberdade como o serviço digital supremo - que elas nos proporcionariam de bom grado, por uma pequena taxa, é claro. As eleições brasileiras de 2018 mostraram o alto custo a ser cobrado de sociedades que, dependentes de plataformas digitais e pouco cientes do poder que elas exercem, relutam em pensar as redes como agentes políticos. O modelo de negócios da Big Tech funciona de tal maneira que deixa de ser relevante se as mensagens disseminadas são verdadeiras ou falsas. Tudo o que importa é se elas viralizam (ou seja, se geram números recorde de cliques e curtidas), uma vez que é pela análise de nossos cliques e curtidas, depurados em retratos sintéticos de nossa personalidade, que essas empresas produzem seus enormes lucros. Verdade é o que gera mais visualizações. Sob a ótica das plataformas digitais, as fake news são apenas as notícias mais lucrativas.
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
(...) as plataformas digitais buscam nos atrair para seus impérios digitais acenando com serviços gratuitos e convenientes - um paradigma quase antiético ao dos direitos digitais. Independentes de estarem sediadas em Seattle ou em Pequim, as plataformas digitais ganham dinheiro com a promessa de converter os direitos públicos duramente conquistados - o direito à liberdade de expressão, à segurança, ao transporte - em serviços eficientes, proporcionados pelo setor privado, mas desprovidos de garantias.
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
Já é quase um clichê afirmar que "dados são o petróleo do século XXI". Há muito a criticar nessa definição. Para começar, a forma como produzimos dados é muito diferente daquela como a natureza produz seus recursos. Mas esse chavão, por mais desgastado que esteja, acerta em um ponto, ao levar em conta a escala da transformação digital que se encontra à nossa frente. Não surpreende o surgimento de um nicho de consultorias digitais e de gurus tecnológicos, os quais insistem na ideia de que uma sociedade detentora de tantos dados vai acabar solucionando todas as contradições que o sistema capitalista global não consegue resolver por conta própria: ao nos proporcionar trabalhos flexíveis e bem remunerados; ao punir os participantes deletérios do mercado por meio de mecanismo de autocorreção instantâneos; ao introduzir eficiência e sustentabilidade onde antes não havia - e tudo isso graças a aparatos inteligentes. Todas essas previsões podem ter seu fundo de verdade (...) Cabe lembrar que a história do petróleo no século XX também se caracteriza pela violência, por pressões corporativas, guerras incessantes e desnecessárias, derruba de regimes democráticos na expectativa de assegurar o controle de recursos estratégicos, aumento da poluição e alterações climáticas. Se os dados são o o petróleo do século XXI, quem vai ser o Saddam Hussein deste século?
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
(...) adotam uma visão geral invertida: nossa sociedade digital, quaisquer que sejam suas falhas, não é a causa do mundo em que vivemos, e sim consequência dele. Não existiria o Uber sem as décadas de afrouxamento das legislações trabalhistas ao redor do mundo (a tal ponto que uma das startups mais valiosas do mundo é representada por um algoritmo que concilia oferta e demanda, com vínculos empregatícios escassos,e ainda menos ativos em seu nome). Do mesmo modo, não haveria Airbnb sem décadas de política econômica incentivando os cidadãos a considerar seus imóveis residenciais como ativos - como investimentos lucrativos que um dia poderiam compensar a eventual insuficiência de instituições anteriores, como o Estado do bem-estar social. Atacar essas duas empresas como se fossem a raiz do problema é dar crédito demais a seus fundadores e, ao mesmo tempo, ignorar o contexto histórico social e econômico mais amplo das últimas décadas - desde o final da Guerra Fria até o desenrolar da crise financeira de 2008.
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
(...) o impacto político da tecnologia. Quem é leitor de Morozov certamente não se surpreende com as recentes revelações da mídia sobre como a análise de dados e o "Big Data" são utilizados para manipular as democracias globais. A análise atenta do autor sobre o uso da tecnologia por parte de regimes autoritários já alertava para o perigo de disseminação dessa prática, que hoje é uma realidade concreta. Em síntese, esta obra é um manual de desconfiança. Enquanto a ideologia do Vale do Silício afirma "confie em mim", Morozov nos diz "não caia nessa".
Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política
Trabalhadores são contratados individualmente e competem entre si por oportunidades de emprego. Eles precisam se vender ao capital como portadores de força de trabalho alardeando suas qualidades e ao mesmo tempo diminuindo e depreciando as de seus concorrentes. A concorrência entre trabalhadores frustra a cooperação e impede a construção de solidariedades de classe. Introduz toda sorte de fragmentações. Os trabalhadores passam a estranhar uns aos outros. Isso se torna ainda mais repulsivo quando se mistura ao racismo, às discriminações de gênero e de orientação sexual, às hostilidades religiosas, étnicas ou sexuais no mercado de trabalho (divisões que, historicamente, o capital promove com avidez). Concorrência aguda (sob condições de desemprego disseminado e maior integração espacial das forças de trabalho do mundo) está intensificando essas divisões e tensões no interior da força de trabalho, com consequências políticas previsíveis (...) A alienação no processo de realização toma diversas formas e muitas vezes é uma faca de dois gumes. O estado das vontades, necessidades e desejos está sempre na origem da demanda. Marx considerava, sem ironia, que a criação de novas vontades e necessidades era parte da missão civilizatória do capital. É difícil contestar essa opinião quando consideramos, por exemplo, todos os valores de uso que agora podem ser mobilizados para prolongar a expectativa de vida das pessoas, que nos primórdios do capitalismo era 35 anos em média e hoje, em muitas regiões do mundo, é de setenta anos ou mais. O capital produz uma cornucópia de valores de uso a partir da qual as pessoas podem criar relações sociais e formas não alienadas de estar na natureza e umas com as outras. A potencialidade está lá. O mundo é repleto de brechas com espaços heterotópicos em que grupos buscam, em meio a um mar de alienação, construir modos não alienados de viver e de ser. As alienações experimentadas na produção podem ser recuperadas por meio do consumo compensatório de valores de uso que melhoram a qualidade da vida cotidiana. Por outro lado, as vontades, necessidades e desejos do complexo militar-industrial, do lobby armamentista ou da indústria automobilística foram e continuam a ser fontes poderosas de demanda agregada, projetada pela influência corporativa sobre o aparato estatal e pelas escolhas impostas de estilo de vida. (...) A ascensão do "consumismo compensatório" nas classes trabalhadoras é complementada pelo consumismo conspícuo de "bens hedonistas" em todas as classes sociais, que não remontam a nada além de um desperdício conspícuo. A busca infindável de satisfação de vontades, necessidades e desejos - que não podem nunca ser realmente satisfeitos - vem necessariamente acompanhada do crescimento exponencial infindável da produção. (...) O abismo entre a promessa e a realização vem se alargando. Se a circulação do capital está sob imensa pressão competitiva para se acelerar, isso exige que haja também um aumento na velocidade do consumo. (...) O capital desenvolve toda uma gama de táticas - da obsolescência programada à mobilização de pressões de propaganda e à moda como ferramentas de persuasão - para acelerar o tempo de rotação no consumo. Considere o caso de uma produção original da Netflix. O fato de eu a consumir não impede que outros também a consumam, e o tempo de consumo é de, digamos, cerca de uma hora (...). O valor implicado na produção e na transmissão do filme por meio de complexas infraestruturas de comunicação é recuperado pelos milhões de usuários que assinam a Netflix. Não é à toa que o capital tem cultivado uma "sociedade do espetáculo" a fim de garantir uma forma de crescimento do mercado de produtos efêmeros para consumo instantâneo. As consequências sociais são amplas, e muitas delas são facas de dois gumes. A rapidez na transformação de estilos de vida, tecnologias e expectativas sociais faz com que se multipliquem as inseguranças sociais e aumentem as tensões sociais entre gerações, assim como entre grupos sociais cada vez mais diversificados. Todos parecem mais interessados em consultar seus smartphones ou tablets do que em conversar uns com os outros. O enraizamento dos significados culturais torna-se mais precário e aberto às reconstruções casuais, conforme as fantasias contemporâneas. Identidades flutuam em um mar de vínculos transitórios e efêmeros. Pessoas e produtos que correspondam a isso são necessários para que o capital cumpra a exigência de crescimento exponencial infindável. Da perspectiva da acumulação infindável de capital, é com isso que se parece o "consumo racional".
A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXi