O que posso dizer?
Só hoje senti que não me aguento mais infinitas vezes, e o dia mal começou. Arrisco dizer que, até que ele termine, já terei me matado mais vezes do que posso sequer ousar tentar calcular. Alguns dias são banhados a isso: cansaço e ares de morte. Durante esses períodos ─ às vezes breves como microsegundos, às vezes mais longos que um minuto ─ posso sentir o gosto da morte me rondando enquanto meu corpo desmorona em cansaço. Não físico... não! Muito longe disso. Aliás, antes fosse uma sensação física. Não!... é algo mais intrínseco, como parte de uma alma já aborrecida com o corpo em que habita. É um cansaço visceral, algo que me faz querer estourar os miolos, acertar a cabeça na parede e quem sabe assim, finalmente, poder voar livre. Uma vida banhada a doce ilusão de liberdade que parece nunca existir. Esses dias... Como poderia defini-los? Esses dias são aqueles em que tudo é um nada tão desagradável quanto o tudo de algo pode ser. São dias difíceis, assim como todos os outros, dias em que até o que é tão fácil se torna mais difícil do que aquilo que de fato já o é.
Só hoje senti que o mundo já não me aguenta mais, e é recíproco. Só hoje senti mais vontade de correr fugindo por aí do que nos outros dias. Será que o problema sou eu? Será que nada, de fato, é um problema? É um cansaço de alma. Um cheiro de abismo. Um gosto de putrefação alagando meus sentidos, até aqueles que desconheço em outros dias.
Só hoje as coisas têm sido mais difíceis que o normal, e o dia mal começou. Até que ele termine, arrisco dizer que já terei morrido mais do que ressuscitado. Só hoje percebi que, de natureza, já sou mais cansado do que posso conceber em pensamento, entender em métodos palpáveis de realidade. Só hoje percebi que não preciso de muito para não aguentar mais e entender que, mesmo morto de tanto não aguentar, em morte ainda aguento mais do que em vida. Confuso, eu diria, mas com um sentido que só minha alma sombria ─ ou assombrada?! ─ pode vislumbrar.
Só hoje senti mais vezes do que possuo dedos para contar que o sangue em minhas veias está prestes a jorrar por entre as fissuras de meu templo abandonado e mal-assombrado. Parece que estou morrendo aos poucos, respirando fundo a cada minuto como um último sopro de vida.
Só hoje já não me suporto mais, e as horas mal caminharam em seu tic-tac contínuo. Só hoje já não quero mais até tudo aquilo que quero. Só hoje. E esse hoje se estenderá até amanhã, que então se tornará o meu mais novo "hoje", em que eu, novamente, não me aguentarei mais logo nas primeiras horas da madrugada. E quanto mais não me suporto, mais meus pensamentos anseiam e meus dedos coçam para que eu escreva.
Não soa um tanto quanto triste, melancólico e solitário perceber que minha maior criação vem do abismo que carrego em meu peito e da alma que vaga em torno desse penhasco incerto e devastador? Há quem chame de talento nato, haverá quem diga que é uma maldição. E talvez seja. Talvez talento seja apenas uma palavra bonita para denominar a maldição do que te faz criar. Alguns na felicidade, outros na melancolia. Alguns criam por sentir a vida correndo em suas veias na adrenalina de uma alegria que oscila, mas existe. Outros criam beirando o vigor da morte.
Só hoje senti que já morri incontáveis vezes e que morrerei ainda mais, e justamente hoje, em meio à morte, é onde me sinto mais vivo. Morbidamente vivo. Insuportavelmente morto.


















