Oi!! Antes que você leia gostaria de alertar sobre alguns gatilhos: violência doméstica, abuso psicológico, ameaça de morte, arma branca e conflitos familiares pesados.
Se você se sentir profundamente incomodado com algum desses, recomendo que procure outro texto.
Me encarei no espelho embaçado do banheiro. Não costumava tomar banhos frios, mesmo quando precisava lavar o cabelo. Eram sempre quentes. Ferventes.
Já estava naquele cômodo fazia alguns minutos. Cuidar do meu cabelo era um ritual complicado e demorado. Passei os dedos pelos fios embaraçados e soltei um resmungo baixo. Odiava pentear. Escovar. Era cansativo. A hidratação ainda precisava agir por mais cinco minutos, então eu teria que entrar no chuveiro outra vez.
Do outro lado da porta, a mãe já resmungava e gritava obscenidades, como sempre. Provavelmente porque eu estava ali havia tempo demais.
Um detalhe sobre mim? Nunca consegui lidar com ataques de forma passiva. Mesmo que custasse minha reputação, eu retrucava como podia. Sabia que o silêncio era a melhor resposta, mas sentia que, se não me defendesse, estaria traindo a mim mesma. Precisava fazer isso porque ninguém faria por mim. Então minha reação foi inevitável quando ela disse:
— Eu não deveria ter te adotado. Você é meu maior arrependimento. Vou ligar pra sua mãe e perguntar se ela quer você de volta. Você sabe, né? Se não fosse por mim, ainda estaria usando aquelas roupas sujas e comendo papa de água.
O impacto daquelas palavras foi mais forte do que de costume. Eu já tinha ouvido aquilo inúmeras vezes, mas naquele instante senti algo dentro de mim se partir. A raiva foi a emoção que veio primeiro, queimando no peito, embora lá no fundo eu soubesse que também existia dor. Uma dor funda, silenciosa.
Minha resposta saiu automática, cortante apesar da voz trêmula:
— Eu sei que estou aqui faz bastante tempo, mas a reação da senhora é exagerada. Você não precisa ser tão baixa. As coisas que diz são de gente podre.
O que aconteceu em seguida me pegou desprevenida. A porta trancada se abriu com um estrondo. Meu olhar não foi para a pessoa que entrou, e sim para a faca em sua mão. Grande, branca, daquelas usadas para cortar carne e frango.
Antes que eu pudesse reagir, ela avançou com passos rápidos e apontou a lâmina na minha direção.
— EU VOU TE MATAR, SUA DESGRAÇADA!! Você sabe muito bem que eu tenho coragem de te matar, não é?
Meu corpo começou a tremer imediatamente. O ar parecia ter desaparecido dos meus pulmões e meu coração batia tão forte que chegava a doer. A mulher diante de mim estava fora de si. Os olhos arregalados, a respiração pesada, a mão firme segurando a faca. E o pior: ela estava falando a verdade. Tinha coragem de me matar.
Mesmo percebendo o perigo, respondi:
— Você sabe que vai pra cadeia, né? Na verdade, se eu contar o que aconteceu aqui hoje, a senhora vai de qualquer jeito.
Ela deu mais um passo em minha direção.
— OLHA AQUI, SUA VAGABUNDA, eu vou cortar essa tua língua, tá me ouvindo??
A faca estava perto demais. Naquele momento percebi, de verdade, que poderia morrer ali.
Antes que a discussão piorasse ainda mais, minha irmã entrou no banheiro aos prantos.
— PARA COM ISSO!! Mãe, ela é tua filha!
A mulher que deveria ter cuidado de mim se afastou relutantemente, ainda prometendo que, na próxima vez, realmente iria me esfaquear.
Eu não conseguia parar de tremer. Tinha segurado as lágrimas até aquele instante, mas já não dava mais. Caí no chão e gritei. Meus ombros sacudiam com a força dos soluços enquanto eu tentava puxar ar entre o choro. Não queria continuar vivendo daquele jeito. Mas também não tinha para onde ir. Não tinha família. Ninguém.