Auto-afirmação e asé - a presença dos orisás no meu processo de reconhecimento enquanto preto e viado
Em ijexá, por favor. Nasci em uma casa de santo. Desde pequeno, inserido no mundo dos orisás, tive o privilégio de aprender muito sobre o meu povo. Desde de itans contados pela boca de meu pai (até então, babalawô da casa), até histórias da época da escravidão que, pelo seu preto velho, eram relembradas. Um banho cultural, uma banho de asé. Foi uma época muito boa na minha vida. Meus pais, já separados, conviviam harmoniosamente, sem deixar que o peso do passado caísse sobre o asé e sobre os seus dois filhos. Toda família continuou no santo, no asé, eu, porém, querendo me enquadrar ao que, para os meus amigos, não era demoníaco, resolvi me afastar da casa de santo. Início da adolescência, sexualidade começando a aflorar, beijei meu primeiro menino. Coração em festa. Depois de algumas experiências com garotas, de fato, dessa vez, eu teria sentido aquilo que, até então para mim era só léxico, e todos chamavam de tesão com outra pessoa. Pude reconhecer o prazer endurecer-se no meu corpo. Logo em seguida, em dias próximos, conversei com uma amiga sobre essa situação e como estava feliz por ter me encontrado (para escurecer, amiga branca e cristã). De como estava feliz por ter me encontrado sexualmente... Recriminado com um olhar e abraçado com um sorriso, fui condenado com as palavras. Para ela, ser gay era um pecado grandioso, uma abominação perante os olhos de Deus (Deus esse que até então eu não acreditava, pois, mesmo longe do asé, nunca neguei a presença dos orisás na minha vida). Nesse momento fui convidado para conhecer algo novo: Jesus. Fui convidado para conhecer a crisma... Por ser minha amiga, aceitei. Caso soubesse o que me esperava, teria ganho o meu Domingo dormindo. Bem, fui no primeiro dia, o homem rezava numa língua esquisita, mas houve algo que me chamou atenção. A fé das pessoas me tocara e fez com que eu voltasse e voltasse e voltasse. CONHECI JESUS, CRISMADO! Agora já recebia o corpo e o sangue do meu “salvador”. Agora já não ficava mais com homens (ou ao menos tentava), agora negava totalmente os meus orisás pois haviam se tornado demônios: fui colonizado. E durante 5 anos da minha vida, enganei-me desejoso de uma salvação que não me pertencia. Aliás, hoje afirmo, se para ser salvo, preciso mudar a minha essência, negar a minha cultura, prefiro queimar no inferno a deixar de ser preto. Após várias experiências dentro da igreja católica, agora já inserido no meio acadêmico, um redespertar para a cultura do meu povo aconteceu. As cantigas em yorubá, as lendas dos meus orisás e reconhecer do orisá que habita em minha cabeça. E a cada mais e mais interessado, fui me vendo cada vez mais longe da igreja, agora já ia sem a mesma fé, só porém por compromissos que assumira. Até o dia o dia que resolvi, da fato, me afastar totalmente da religião. Mesmo processo de alguns anos atrás, porém, se outrora havia sido acolhido pelos meus irmãos, hoje, aquelas que eram meus irmãos da igreja, só se preocupavam em me levar de volta, ou me ameaçar com o inferno (excluso alguns casos raros). Dois anos se passaram, voltei pro asé, voltei pra mim. Costumo dizer que os orisás me fizeram olhar pra dentro. Para aquilo que por mim era desejado, para os meus sonhos, mas, principalmente, para a essência que em mim habita e nunca deixou de habitar, por mais que eu a negasse. Reconheci e me aceitei enquanto viado preto e no colo da minha mãe Osun aprendi a me amar mais que qualquer palavra racista e homofóbica que a mim pudesse ser proferida. Junto a meu pai Odé, fui ensinado a caçar a minha felicidade, sem medo da mata escura e perigosa que teria de enfrentar. Sou grato totalmente aos meus orisás. Grato por terem me ensinado o que é amor de fato, não um amor que condenada. Sou grato, hoje, das pessoas, principalmente, ao meu mais velho, que é tão amigo e tão presente em minha vida. Que nunca mais deixemos de ser quem somos,
que eu nunca mais deixe de ser quem eu sou: preta e pintosa.














